Header Ads

10 Perguntas para o escritor Frederico Feitoza

O blog Listas Literárias teve a oportunidade de entrevistar o escritor Frederico Feitoza, autor de Floriano Encapsulado, o gótico vai à periferia, uma leitura que curtimos bastante aqui no blog. Confira o bate-papo sobre o livro e literatura:

1 - Floriano Encapsulado é capaz de trazer um retrato contemporâneo das adolescências e em tom pesado. Em suma, o livro não foge do debate pesado. O que te moveu a escrever o livro?

O tempo livre e o isolamento, quando me mudei para Brasília, me moveram a escrever ‘Floriano Encapsulado’. Mas acabou que passei a me ocupar com a docência e o livro virou um arquivo abandonado no meu computador. O que o tornou um livro sobre adolescentes, de fato, foram as histórias que ouvi sobre adolescentes que cometeram suicídio num shopping do Plano Piloto. Eu achei aquilo intrigante. Eu achei todo aquele conjunto de sensações algo muito Brasília, bem típico de um local com uma atmosfera tão isolante, tão árida. O livro de fato só foi escrito anos depois, quando saí de lá. Mas toda a história já existia em mim. E era uma história mais dura, mais triste. Sobre adolescentes. Eu acho que a adolescência é um tempo muito ambíguo. A gente acha que pode tudo, que é imortal e tudo mais, e ao mesmo tempo é um período mórbido na vida, de pensamentos que estão sempre prestes a se transformar em doença. É preciso haver alguém ou algo que permita ao adolescente comunicar-se. Do contrário esse tempo pode ser imperdoável. Os temas pesados no livro eram inevitáveis. Mesmo assim não havia intenção de fazer dessa história a história que se tornou, abordando suicídio, drogas, bullying, consumismo.... É meio que contar uma história sobre os riscos da ingenuidade desse tempo da vida.

2 - Além disso, em tempos de ruptura, percebemos sua tentativa de promover diálogos. Observamos com correção? é de fato a procura pelo diálogo que vemos no livro?

Eu acho que o livro trata da aproximação de mundos. O que a gente pode ver no encontro entre Floriano e Robertinho. O livro aborda o atrito das diferenças; como pode ser belo, mas catastrófico. Isso porque, como disse antes, ao adolescente importa comunicar. Se ele não diz o que pensa, se não tem ninguém para escutá-lo, ele vai implodir. A mensagem do livro é clara: fale com o seu amigo, cuide dele, olhe para quem sofre, talvez ele não tenha com quem conversar em casa. E acredito que você tenha percebido que no texto não há diálogos em casa, com os pais. Há algo que impede aquele grupo de meninos de falar. Eles mentem, escondem, não querem compartilhar o que acontece.

3 - Do mesmo modo, há na narrativa tentativas de abordar as desigualdades sociais. Como você observa que isso é trazido para sua literatura?

Acho que isso vem da minha própria experiência, mais do que de outras fontes. Eu venho daquela classe média brasileira mais típica. E estar entre eles me causa imenso estranhamento. Embora seja uma marca indelével. Para mim não havia gente mais odiável. Gente que se achava especial por estar próxima aos ricos, de forma tão subalterna, e ao mesmo tempo destratando os seus empregados, odiando os pobres, querendo se desidentificar deles ao máximo. Acho que há marcas dessa experiência no meu texto, o preconceito de adolescentes que se acham porque os pais tem algum dinheiro – e às vezes nem tem - com aqueles que vêm das partes “perigosas” da cidade, que vivem de bolsa, que nunca foram a Orlando. Em sociedades como a nossa, as desigualdades sociais são uma substância primordial de identificação entre as pessoas. O senso de fraternidade e solidariedade que só existe entre os semelhantes. Fonte de muita violência e desprezo. Era importante que na história isso fosse superado e viesse a fazer parte do momento de redenção para todos. A salvação daquela subjetividade de condômino, de gente criada em apartamento com “área de lazer”, que só frequenta shopping center

4 - Falamos em nossa leitura interpretativa do livro que o livro consegue certo êxito em tratar de assuntos delicados, como as sexualidades, sem pender ao panfleto ou à ingenuidade de que tudo é certo e afirmativo. Como avalia esta questão?

Eu acho que quando se escreve ficção as escolhas são mais inconscientes e descontroladas do que imaginamos. A gente só percebe depois que o livro está pronto e no mundo. Eu não estaria apto e nem desejo escrever uma ficção abertamente panfletária, não quero alimentar bolhas identitárias, acho que o tempo que vivemos é um momento muito delicado para que eu resolvesse sacrificar o meu prazer de escrever - que para mim é a arte de pôr uma boa história em palavras, com muita poesia e suspense – por grandes observações sobre o que é ser classe média, ou o que é ser trans, ou o que é ser negro, ou evangélico... O texto tem que lidar com isso por si mesmo. Sem didatismos. Esse é um dos desafios. Pelo menos para mim.

5 - Aliás, a sexualidade e a sua discussão são também elementos importantes nessa narrativa, não?

Acho que ao tratar de adolescência, a sexualidade é um tema inevitável. Eu acho que na verdade o livro levanta uma bandeira sim, a da liberdade de escolha sexual. Que tudo poder ser possível, mesmo que a princípio ninguém tenha muita experiência e pareça ainda muito encaixotado nestes isolamentos típicos da adolescência. No entanto, era importante tocar nesses temas sem fazer alvoroço. Sem querer ser estridente. Mais uma vez, eu gostaria que o texto falasse por si.

6 - Tal como a vida pequena-burguesa restrita em diferentes bolhas? Vidas centradas em consumo e insensibilidade? Alheia de um mundo concreto?

Era importante trazer para a história essa ideia de vidas que tentam fazer sentido por meio do consumo. O mundo dos shopping centers, dos smartphones, dos skates importados, das drogas, da viagem para Disney, etc. Também essa subjetividade de condômino e de síndico que especialmente a classe média brasileira está abraçando com tanto vigor. E que gira muito em torno do que esses locais oferecem em termos de lazer e facilidades. Condomínios são bolhas. Os grandes prédios com suas áreas de lazer, suas regras, sua assepsia... Isso tudo no texto meio que se condensa no espaço presente em tantos capítulos, que é o do shopping center.

7 - Falando nisso, falamos da peculiaridade como o espaço shopping surge em seu romance. É uma bela alegoria de um mundo pequeno-médio-burguês, asséptico e insensível às tragédias, uma máquina que limpa a sujeira, como no livro, e não para de modo algum sua engrenagem automatizada?

Explorar o espaço do shopping center era uma obrigação. Primeiro por conta da história dos suicídios em Brasília, mas principalmente porque como você bem observa, eles são verdadeiros templos da classe média brasileira. Eu vivi muitos anos em Recife, e posso dizer, que tanto quanto Brasília, o shopping center é o local de encontro de quem quer evitar contato com as experiências realistas demais da vida urbana no Brasil. No livro, bem como para mim, shopping centers são lugares tristes. Tristes, mas práticos. Sempre dá para resolver um monte de coisa. Mas eu sempre me comovi com quem trabalha em shopping center. Especialmente os vendedores em lojas caras. Acho que essas pessoas tem uma palidez específica. Em Brasília tudo é um shopping center, e lá, diferente de outros lugares onde eu vivi, tudo parecia combinar muito com shopping centers. Especialmente aquele jeito meio condômino, meio varanda gourmet que é bem típico do gigantesco funcionalismo público de lá.

8 - Agora para fugirmos em parte do livro, comentamos certo ar de uma melancolia à Legião Urbana na narrativa. Pode compartilhar conosco as referências e influências de vozes em sua literatura?

Eu achei essa observação sobre o Legião Urbana incrível. A cidade do meu livro é livremente inspirada no Distrito Federal, em locais como a Asa Sul, Ceilândia, Taguatinga ou Águas Claras. Acho que Renato Russo enlouqueceria com o DF hoje em dia, já que BSB tornou-se uma grande capital do sertanejo. Mas essa melancolia tipo Legião Urbana está lá, ela persiste, porque como te falei, há essa coisa do isolamento, do estranhamento de se viver naquele espaço tão amplo, tão aberto, que é o do Planalto Central. Floriano provavelmente seria fã do Legião Urbana. Ele compartilharia da rebeldia e da melancolia da banda. Eu por acaso ouvi bastante, quando mais novo, por conta dos meus irmãos. Quanto a outras vozes, há algumas na literatura que me são caras, embora eu mesmo não seja mais um grande leitor de romances. Eu sou fascinado por textos mais psicológicos, tipo Clarice Lispector ou Henry James. Fui um leitor bem comum no passado, li desde aquilo que chamavam de “literatura universal” - que era só literatura europeia mesmo - às obras mais celebradas da literatura brasileira e Coleção Vagalume, coisas assim... A minha escola tinha uma obsessão com Machado de Assis e José de Alencar. Eu amava o primeiro e detestava o último. Mas o meu escritor favorito, desde adolescente é o Freud. Por acaso comecei a ler. Ele é um grande contador de histórias. Li boa parte da obra dele. Mais preso à escrita que à Psicanálise. Só mais tarde fui entender isso. A forma do texto dele me encanta bem mais do que o que ele deseja que a gente acredite. No mais, sempre fui mais de filmes que de livros. Acho que a sessão da tarde dos anos 80 e 90 é tão importante para textos como Floriano quanto Dostoievski.

9 - Falando em literatura, quais têm sido seus maiores desafios desde que embarcou na jornada enquanto escritor?

Eu escrevo desde sempre. Contar histórias e criar dramas é uma necessidade... O texto escrito é o meio que me foi acessível. No entanto, querer viver disso, em lugares como o Brasil e muitos outros no mundo, é de muita inocência. Os livros que geram mais interesse às grandes editoras bem como a maior parte dos leitores são em geral best-sellers ou livros de celebridades, youtubers, sei lá o quê... Ser publicado é difícil porque mesmo quando há um ou dois bons escritores, é necessário haver contato, indicação, ser descoberto, ter chance... Ninguém quer se arriscar com um autor zé ninguém de Roraima, Mato Grosso ou Santa Catarina. As pessoas querem Harry Potter, Crepúsculo, Big Little Lies - que é um livro ótimo por acaso. Quem vai ousar não aderir ao marketing que já vem pré-fabricado dos Estados Unidos ou de sei lá onde? Que editora brasileira vai ousar lançar nomes nacionais com tanto dispêndio, se o desejo de ler já vem embalado de fora? Acontece sim, há escritores brasileiros que são publicados e distribuídos, mas não há um buzz a respeito, não há interesse em fazer desse sujeito uma possível “estrela do mundo da literatura” – o que poderia significar viver daquela renda. Acontece com dois ou três, num país de centenas de milhões de pessoas. E não é por falta de talento. A coisa fica restrita a um circuito intelectual, que acontece em algumas capitais. Para que haja escritores nacionais valorizados é preciso que se invista em leitores menos subalternos a uma estética e a uma fórmula importada. Mas essa é uma discussão muito maior.

10 - Para fechar, a tragédia das juventudes é uma possível leitura de seu trabalho. Na sua concepção e tendo sua narrativa como norte, que desafios mais atormentam a juventude hoje? Até que ponto podemos estar cegos aos dramas da juventude contemporânea?

Para mim é difícil responder. Já tenho quase quarenta anos. Mas fui professor por quatro anos em Brasília e sempre fui um grande admirador da cultura adolescente. Não sei quais os maiores desafios para a juventude hoje em dia. Talvez se desconectar um pouco, sair dos seus smartphones, que significa também deixar um pouco o mundo do consumo, e olhar para o mundo ao redor. Sendo que esse mundo parece que está mais triste também. Fascista demais. Neoliberal demais. Em vários lugares. E isso é trágico. Acho que encontrar a alegria ou lidar com a falta dela é um desafio que se põe para o jovem hoje. Celebrar a vida fora das bolhas do capitalismo. Entender que há mais prazeres na vida. Que uma selfie perfeita não é nada demais.

Um comentário:

  1. Boas,
    Agradeço ao editor pela rica entrevista partilhada na nuvem mundial. Absorvi bastante no que tange a orientação poética do escritor Frederico e aquilo que são os seus ideias enquanto um fazedor de obras literárias e o impacto destas para o público alvo.
    A questão em que vai a busca da definição do Livro, foi marcante e espelha aquilo que muito de nós sabemos: O livro é o maior mestre mudo do mundo, pois quem lê um livro adquire conhecimentos, valores para vida e torna-se numa pessoa diferente.
    Sds,
    Manuel Sebastião.

    ResponderExcluir