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10 Considerações sobre A Praça e a Torre, de Niall Ferguson ou sobre o poder das redes

O Blog Listas Literárias leu A Praça e a Torre, de Niall Ferguson publicado pelo selo Crítica da editora Planeta; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Denso e volumoso, A Praça e a Torre - Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global com sua escrita, a despeito de seu volume, envolvente e dinâmica, é saboroso transitar pela história da humanidade, primordialmente do surgimento da imprensa aos dias atuais, tratando na tese de seu autor, de uma permanente batalha pelo poder global entre as diferentes redes e seus respectivos momentos históricos e as hierarquias, num processo de embate contínuo e constante a depreender pela perspectiva de Ferguson, de modo que como ele próprio sintetiza "o tema central deste livro é que a tensão entre redes distribuídas e ordens hierárquicas é tão antiga quanto a própria humanidade";

2 -  Nessa perspectiva, para o autor o livro 'é uma tentativa de [redimir-se] de omissões. Conta a história da interação entre redes e hierarquias desde a Antiguidade até o passado bem recente. Junta noções teóricas de inúmeras disciplinas que vão da economia à sociologia, da neurociência ao comportamento organizacional. A sua tese central é de que as redes sociais sempre foram mais importantes na história do que foi concebido pela maioria dos historiadores..."

3 - Para tanto, na argumentação de suas respectivas teses, o autor vai lançar mão então de um vasto arcabouço de sustentação teórica e bibliográfica, a destacar aqui o reforço da natureza interdisciplinar citada pelo próprio, pois além das ciências já apresentadas, Ferguson valoriza a relação da literatura com a sociedade trazendo para dentro de sua análise, uma série de autores, Kafka, Dickens, dentre outros, substanciando sua argumentação também com a perspectiva literária. A bem da verdade, o volume de pesquisa e conhecimento presentes no desenvolvimento de sua argumentação saltam aos olhos do leitor, e, claro, dão certo vigor às reflexões do autor;

4 - Todavia, embora a presença constante da relação conflitante entre ordens hierárquicas e diferentes redes, será especificamente sobre estas últimas que estarão centralizados os estudos de Niall Ferguson. Na obra o autor dedica especial atenção para diferentes redes, passando pelas redes do iluminismo, pelos illuminati descritos pela lógica da plausabilidade e não pelas tintas conspiratórias, às redes contemporâneas, da gênese da internet e seu ciberespaço aos dias [quase] presentes com uma nova revolução das redes, dos extremistas aos movimentos políticos e suas primaveras, brexit e ascensão de Trump. Isso, aliás, faz do livro interessante ferramenta para análise das conturbações  temores deste Século XXI. O curioso da leitura deste livro é que talvez desperte-nos para o movimento constante do poder  suas forças ao longo de pelo menos, os últimos cinco séculos;

5 - Vale destacar aqui que embora com sua narrativa atraente, pois não chega ao enfadonho a que muitas vezes são criticadas as leituras científicas, a obra trata-se de uma produção acadêmica e substanciada, entretanto com linguagem acessível a todo e qualquer interessado no estudo de redes e hierarquias. Além disso, por tratar-se de escrita de modo sério de elementos que não raro dão vazão às mais diferentes teorias conspiratórias, Ferguson consegue com êxito escapar de tais misticismos, e faz o essencial, não foge da abordagem de um tema espinhoso, por vezes negligenciado ou tratado com incorreção como podemos perceber quando diz "para o velho descontente que está do lado de fora, a palavra "rede" tem outra conotação. Cresce a suspeita de que o mundo é controlado por redes poderosas e exclusivas: os banqueiros, a elite governante, o Sistema, os judeus, os maçons, os illuminati. Quase tudo que é escrito seguindo estas linhas é bobagem..."

6 - Claro que para os paranoicos incorrigíveis destes tempos absurdos (como o são todos os tempos, já cogito pensar) o livro de Ferguson estaria a serviço de alguma rede secreta a esconder as intenções verdadeiras desta rede de dominação. Mas brincadeiras a parte, a publicação revela um autor entre o libertário permanentemente inquieto com os autoritarismos e totalitarismos do mundo e o homem de direita a descoberto especialmente pelo ranço denunciado em sua linguagem a certas figuras e movimentos, como Barack Obama, marxismo e comunismo, etc... Na verdade é que há por parte do autor certa condescendência a figuras mais a direita do que veremos em seus posicionamentos anti-esquerdista que por vezes quase soam como birra. Todavia, isso de modo algum desqualifica sua abordagem, tão somente advogam pela ilusão da neutralidade, que em muitos casos apresenta-se também pelas escolhas linguísticas (levando em conta, claro, que sempre a esta "culpa" poderemos incluir também o peso da tradução);

7 - Isto dito, abrimos as portas então ao que aos olhos e interpretação deste simples leitor, dentre as qualidades da obra, surgem como questões problemáticas não só de análise, mas também de sustentação por parte do autor. No caso de um leitor brasileiro, especialmente, o que impacta negativamente a escrita do livro é esta basear-se ao tratar de Cabral, da visão romantizada e há muito já refutada pelos historiadores, a do fatídico engano indo para as Índias. Trabalhar nessa perspectiva por certo enfraquece um pouco a sustentação e nos abre a desconfiança a quais outros elementos de sua abordagem partem de uma premissa já refutada por um longo conjunto de historiadores (a do descobrimento do Brasil, por exemplo, não importa s seja historiadores de direita ou de esquerda, já não se fala mais no conto da carochinha e da descoberta por engano). Mas esse detalhe talvez seja menos incômodo que a visão eurocentrista do autor (que peço perdão se a culpa for da tradução) revelada pela expressão "conquistadores" ao descrever imperialistas colonizadores da era colonial. Nesse mesmo aspecto gera ainda certa incômodo a certa concordância de Ferguson com as bases que sustentam extremismos como a islamofobia (aqui deixo claro que o autor não concorda com os extremistas, entretanto, sua visão crítica dessas comunidades na Europa reforça as bases do conflito);

8 - Há ainda outro elemento, talvez não uma omissão, mas causa de uma escrita de debate ainda em efervescência e movimento no exato momento que escrevo ou se se leia este post. Escrito em 2017, como o autor reitera diversas vezes em seu texto, é uma obra que está no vórtice de um furacão em ação, o que justifica percepções a se construir. Nisso quero dizer que, como já foi falado aqui, a obra trata do embate pelo poder entre redes e ordens hierárquicas (vale destacar que o autor coloca dos totalitarismos do Século XX como auge do poder hierárquico), entretanto deixa escapar o estranho e quicá fenômeno de que nosso presente, talvez e a julgar por sua apresentação histórica, vivenciamos o movimento conjunto de redes e hierarquias, a se ver o ressurgimento de um populismo global, e ainda, não aprofundando-se no fato de que em muitos casos, como a própria eleição de Trump, as redes levam a uma hierarquia, que parece-me, neste momento exige mais centralidade de poder;



9 - Aliás, partindo da premissa de Ferguson e levando em consideração a própria bibliografia de argumentação, dando conta de uma longa linha histórica de luta entre as ordens hierárquicas e as redes, parece-me haver aí um longo jogo de retroalimentação de forças, pois que em muitas das redes analisadas pelo autor, mostra-se que elas justamente formam-se, claro, no intuito de derrubar a ordem hierárquica vigente, mas entretanto, sem a intenção de fato de estabelecer-se a hegemonia das redes, mas sim alçando-a ao topo de uma nova hierarquia a se construir (como nos mostram qualquer movimento revolucionário ou reacionário). De modo geral, parece-me que enquanto jogo de poder, as redes serão sempre uma etapa transitória pois que toda rede que se dedique ao tabuleiro parece ter a tendência da autodestruição fazendo-se nova estrutura hierárquica. Nesse sentido, creio que a abordagem do autor sobre o paradoxal Facebook e seu criador é exemplo que reforçam tais desconfianças;

10 - Enfim como diz o autor "os historiadores profissionais, em contraste, tendiam até a bem pouco tempo ignorar, ou pelo menos subestimar, o papel das redes" o que ele pretende romper com este estudo. Não é, claro, de todo estudo acabado e fechado, pois que nenhum estudo o é. Sua tese traz para o campo uma análise mais equilibrada dos movimentos do mundo em suas camas talvez menos rastreáveis, as redes, e abre as portas a uma série de novas reflexões e proposições que podem e vão surgir da argumentação favorável a seu pensamento e as contra-argumentações que surgirão. Da parte deste simples leitor, longe da autoridade de debatedor, cabe apenas a registrar seus próprios questionamentos sobre sua leitura que é bombardeada de novas perguntas e inquietações a partir desta respectiva abordagem. Isto claro ratifica a relevância da leitura, e sua discussão tão importante para estes tempos e os vindouros. Não restringindo aqui uma série de discussões e debates que pode propor-se a partir desta leitura, talvez possa dizer que o livro noutra camada discuta também o embate entre a utopia e a distopia, pois que as redes carregam em grande parte muito da ideologia utopista, e muitas redes como as analisadas nessa obra, possuem de fato a utopia no horizonte. Entretanto, como nos mostra a literatura depois do nascer da utopia, descobrimos então a distopia, e esta, parece-me ter forte relação com o auge das ordens hierárquicas.


         

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