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10 Dicas da literatura distópica para sobreviver em tempos autoritários

O autoritarismo e o totalitarismos não são como vírus do qual nos vacinamos e nunca mais precisaremos nos preocupar. Necapaus. Apesar dos alertas literários, a gente demora a aprender, e volta e meia nos deparamos com arroubos (sic) autoritários que tornam o mundo um tanto mais perigosos aos que ousam querer a liberdade do pensamento. Mas, se no todo, o alerta das distopias, por exemplo, são ignorados por parcelas da população, aos que não são ingênuos e aos verdadeiramente livres, as narrativas distópicas, além do todo o resto, pode nos dar dicas de como sobreviver (e resistir) a tempos autoritários. Selecionamos 10, inspiradas nas principais narrativas literárias, confira:

1 - Leia e preserve suas leituras: Os não-cooptados bem sabem que o princípio de diagnóstico de tempos autoritários é observarmos como estão tratando os livros. São em geral as primeiras vítimas que os poderes tiranos (Constituídos, legitimados ou não) desejam queimar ou banir. Provavelmente por isso a literatura distópica tenha atenção especial aos livros. Shakespeare será a gota de sanidade a levar turbulência às águas estáveis do Admirável Mundo Novo. O Selvagem ao ler e encontrar em Hamlet e Otelo premissas de leitura do mundo acaba sendo uma declaração potente da importância da literatura para sociedade. De certo modo, na obra de Huxley será a literatura que acabará ajudando a questionar a utopia. O que falar então de Fahrenheit 451 e seu universo distópico em que o trabalho dos bombeiros é o de queimar os livros. Na obra, não só as razões que levam aos tiranos exterminar com os livros, mas algo que complementa esta dica, a necessidade de preservar suas leituras e de compartilhá-las com quem for possível. Esta será a luta de Guy Montag e do grupo a que ele se entrega, reforçando ainda que se há diferentes fósforos a queimar, haverão outras alternativas a manterem-nos vivos;

2 - Escreva: Se a leitura nos torna conscientes e nos traz argumentos, as narrativas distópicas ensaiam a mensagem de que a escrita liberta (lembrem-nos de que poderá ser necessário distinguir o ato de escrever e publicar de acordo com a força da forca autoritária). Vejamos que as dúvidas e as reflexões de Winston Smith em 1984 ganham forma e clareza com seu ato revolucionário de escrever seu diário. Suas anotações problematizam a ditadura totalitária enquanto ele elabora sua argumentação dramática e percebe que nem mesmo ele consegue fugir totalmente da ideologia do Grande Irmão. A escrita também será importante em O Conto da Aia, dentre outras coisas trabalhada como registro dos tempos sombrios, que é o caso dos relatos extraviado de Of-Fred. Contudo, talvez a mais eloquente demonstração do poder da escrita como libertação seja Nós, porque há uma metamorfose quase imperceptível de seu narrador D-503 intimamente ligado à escrita. Os diários deste narrador começam como pura e mera propaganda de seu Estado Único registrando a construção do foguete Integral. Nos registros iniciais e por boa parte de sua narrativa, ele se revelará sempre como mais um número daquele Estado totalitário, um algorítimo matemático feliz e alienado de sua condição massificada. Entretanto, e não desprezando outros acontecimentos da trama que colaboram para seu despertar, o simples fato de escrever a mera propaganda, discretamente plantará dúvidas quanto a beleza daquela massa totalitária, no simples ato de escrever, aos poucos ele escorregará percebendo incongruências daquela utopia. Portanto, publiquemos ou não, em tempos autoritários, escrever é uma forma de resistência. Escrevamos todos nós, que tenhamos, nem que seja escondido às sete chaves, nossos Diários da Liberdade (Caso você tenha um blog ou uma social media nessa perspectiva, compartilhe conosco, montemos nossa rede de Diários da Liberdade);

3 - Encontre outros: Se pensarmos em termos históricos, e a literatura não se engana com isso, mesmo nos mais autoritários e totalitários governos, haverá outras pessoas como você, como nós, que não estarão entregues ao pensamento único. Logicamente o desafio da tarefa será o de conseguirmos em tempos sombrios, como Winston Smith, encontrar Julia, Montag a Faber e Granger, entre outros exemplos. A mensagem, pois, é de que os movimentos totalizantes embora tentem e usem de todas suas ferramentas, às vezes quase chegando a isso, não conseguiram até hoje é vencer algo primário da humanidade, somos diferentes em toda nossa igualdade. Isso significa que por mais sombrio que sejam os acontecimentos, haverá nessa névoa alguma alma discordante, assim como você. O desafio, mais uma vez, será encontrá-las e ter confiança mútua;

4 - Estabeleça redes de resistência: As narrativas distópicas são felizes quando apresentam-nos formas peculiares de resistência e sobrevivência. Já falamos aqui do grupo de Montag, cuja missão será decorar ao menos um livro e assim mantê-los vivos para quando a liberdade retornar. Trata-se de uma resistência mais organizada, como em Não Vai Acontecer Aqui, obra (aliás, este foi um livro muito lido após a eleição de Trump, e que deveria ser muito lido agora no Brasil) que fala de uma possível ascensão fascista ao governo Americano. A tirania totalitária vai realizando-se por etapas a cada novo ciclo do movimento, até engolir qualquer possibilidade de pensamento livre. Neste universo, Doremus, seu protagonista viverá diferentes momentos, até que precisa, mais do que pequenas ajudas, integrar uma rede secreta de oposição e resistência, claro, sempre correndo o risco de morte ou de prisão. Em O Conto da Aia, veremos também que a despeito da extrema vigilância, redes se estabelecem, para fuga ou para resistência. Em tempos autoritários será sempre importante ter acesso a essas redes,  lembrando-se sempre que se trata de mútua colaboração;

5 - Conheça as redes clandestinas: Em tempos perigosos, e veremos isso nas distopias também, é que as redes clandestinas não se extinguem, pelo contrário, às vezes se fortalecem. Claro que este é terreno dos mais perigosos porque as redes clandestinas são terrenos ocupados não só por resistentes, mas também por adeptos dos regimes, pois lembremo-nos que não há autoritarismo ou totalitarismo que tenha se demonstrado eficiente para suprir as necessidades humanas básicas. Isso geralmente faz surgirem mercados negros, os quais nem mesmo o Grande Irmão é capaz de coibir (o contrário até). Não há narrativa distópica sem seu mercado negro, sem sua corrupção, caso mais extravagante nesse sentido e aterrorizante a distopia nacional Não Verás País Nenhum. Temos mercados paralelos em O Conto da Aia, Não Vai Acontecer Aqui, nas distopias de Philip K. Dick, etc... E por que esses mercados são importantes (e perigosíssimos)? Porque neles perambulam agentes de resistência, mas também uma porrada de espiões;

6 - Não se iluda ou fuja dos "O'briens" e "Goldsteins": Falando em espionagem, alguns tiranos como O Grande Irmão são espertos o suficiente para criar inimigos fictícios a quem ovelhas incautas como Winston Smith encontrarão parceria para sua inodortoxia, mas só que não. Como nos ensina o trágico desfecho de Winston é preciso cautela e não se iludir com o primeiro par de olhos brilhantes. A bem da verdade, o que pretendemos dizer neste item, é que superadas tantas armadilhas da névoa autoritária, é preciso ainda não se deixar enganar por falsos parceiros ou aliados. A tirania é um camaleão de muitas cores, mas o bicho é sempre o mesmo, algo como no conto de Georg Kaiser em que o tirano fantasia-se de opositor para perpetuar-se no poder. Outro exemplo encontramos na trilogia Jogos Vorazes em que Alma Coin nada seria que não apenas substituição de tiranos. Das tarefas essa seja também das mais difíceis, pois nem sempre a sociedade consegue descobrir quem realmente seus inimigos;

7 - Não se submeta: Não propomos aqui com isso dizer que sejamos incautos a apresentarmo-nos a um pelotão ou a um carrasco e sua forca. Quando falamos em não submetermo-nos significa não tentarmos encontrar justificativas ao intolerável. Há um momento em toda tentativa totalitária que ainda podemos nos opor a coisas que atentam à liberdade, e isso significa que não podemos minimizar ou relativizar arroubos totalitários, como, por exemplo, queimar livros, amordaçar professores, nos incivilizarmos. A apatia é sempre boa arma aos tiranos, e recorremos aqui ao protagonista de Não Verás País Nenhum, Souza, cuja apatia e resignação demonstram com essa atitude em larga escala pode tornar tudo mais complicado para a resistência;

8 - Tenha paciência: Por mais torturante que seja a tirania e o autoritarismo, as narrativas mostram-nos que precisamos ser pacientes, e mais do que nunca, precavidos. Vejamos mais uma vez Of-Fred de O Conto da Aia, sua experiência é demonstração cabal não de resiliência, mas resistência e zelo para só escapar de Gilead quando realmente possível. O sobrevivente distópico será testado e um único movimento em falso poderá ter o destino de Smith, ou de Clarice em Fahrenheit 451. Cautela é palavra chave à sobrevivência em tempos autoritários.

9 - Se possível, lute, da forma que for possível: Em Nós, a ingenuidade de D-503 colaborou para que ele fosse colocado no meio de uma conspiração libertária de um grupo que lutava estando para além dos muros do Estado Único. Montag, como dissemos, reúne-se ao grupo de Granger e lutará salvando livros, enquanto Doremus Jessup, por fim, depois da resistência interna, de colabora com opositores de Windrip publicando textos, terá de enfim exilar-se. Mesmo Doremus, longe de qualquer arquétipo heroico, na luta contra tirania ele desempenhou diferentes papeis enquanto resistência. John Selvagem esparramou Soma, jogando-as fora, enquanto Of-Fred em movimentos lentos e sutis encontrou uma rota de fuga. Mesmo Winston Smith, talvez o com fim mais trágico das narrativas distópicas, lutava à sua forma, escrevendo seu diário. Contra o autoritarismo se luta se possível da das formas que forem possíveis, algumas delas compondo esta lista;

10 - Fique vivo: Por último, mas a mais importante dica. Fique vivo. Lembro aqui de Alfredo Bosi quando diz que resistir é cognato de insistir. Nossas narrativas distópicas em geral tratam dessa existência, pois enquanto você permanecer vivo e sóbrio aos delírios autoritários e totalitários já serás um integrante da resistência. 

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