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7 Considerações sobre Depois Daquilo, de Vanessa Brunt ou sobre as perguntas que nos movem

O Blog Listas Literárias leu Depois Daquilo, de Vanessa Brunt publicado pela editora Chiado; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Depois Daquilo é uma profusa e prolífica seleção de textos que embora de certa unidade temática elemental e impulsional, passeia por diferentes gêneros, das crônicas ao lirismo da poesia e mesmo as linhas curtas e concisas dos aforismos, sendo que em muitas vezes isso se dá de forma fluída e intercambiante entre eles;

2 - Quanto à questão da certa unidade temática dá-se no sentido de que embora a autora aborde diferentes questões, de modo geral a roda que conduz os textos em suas diferenças é a unidade centrada em certo existencialismo em que se mergulha procurando refletir questões do cotidiano, que se dá com maior ou menor recurso da linguagem conforme o gênero presente;

3 - Nesse sentido vale dizer ainda que há em dezenas das centenas de textos reunidos certa herança do concretismo, pois que percebemos não só o trabalhar nas unidades da linguagem, suas palavras e períodos, mas também pela utilização da tipografia e do grafismo enquanto design, que em muitos dos textos, intencional ou não, desempenham papéis na publicação;

4 - Todavia, se percebemos no trabalho grande domínio da linguagem e a capacidade de múltiplos usos que a autora apresenta como recursos sinalizando o comprometimento de seu projeto, por outro lado, nas questões subjacentes ao texto podemos interpretar e perceber um drama contemporâneo: o isolamento em bolhas;

5 - Pretendo com isso dizer que a viagem existencial a que atira-se a autora através de seus textos, em geral nos revelam uma jornada do eu, do ego, do ponto de vista fechado em si mesmo e negando outrem, em que diante da necessidade de bradar a identidade própria se o faz negando o contraditório, a outra opção. Esta é um marca que veremos tanto em seus versos livres quando poema, em suas crônicas e em seus aforismos, de modo que parece-nos estarmos diante uma reafirmação do indivíduo e da anulação do alter;

6 - Na verdade, na profusão de textos temos a impressão de que busca-se rechaçar tudo que nos opõe, tudo que nos contradiz, especialmente nos relegando a um grande mal destes nossos tempos, o de dizermos e ouvirmos apenas a parte que nos importa, nossas bolhas. Seja em seus eus-lirícos ou por meio da narração de suas crônicas, os trabalhos dão a sensação de certa arbitrariedade, mas acima de tudo, de não permitir abertura aos erros e aos acertos do outro, de modo que parece haver em cada texto o julgamento (bastante parcial) do oposto. Talvez por isso um dos textos esclarecedores da "aura" contida na seleção de textos seja Sou e digo, cujos versos finais declaram "Mas só consigo cometer\a droga da minha verdade";

7 - Enfim, enquanto filosofias e reflexões contidas em muitos artigos do livro, é bastante sintomático que as nasçam da internet, essa nossa outrora utopia cada dia mais questionada, especialmente pela coletivização do egocentrismo que parece estimular. Nesse sentido, o trabalho de Brunt nos possibilita ricas interpretações, e o essencial, sua capacidade como autora e sua habilidade com a linguagem nos permite debater a obra naquilo que nos importa, ou seja, o debate de sua gênese, de sua aura, de sua mensagem. Quanto a isso, os trabalhos aqui reunidos nos possibilitam interessantes leituras e retratam o desafio deste Século XXI: voltarmos a perceber os outros, de nos aventurarmos para além dos nossos mares do conhecido e certo, de admitirmos que nada sabemos, embora tentemos mostrar termos respostas para os peixes, borboletas e tubarões que habitam nosso corpo.



Um comentário:

  1. Que maravilha! Sou apaixonada por todos os livros da Brunt e estou lendo o Depois Daquilo agora. O livro é de uma profundidade belíssima sobre legado e sobre tentar continuar com o melhor de nós depois das cicatrizes. Adorei as observações na resenha (sobre sair da bolha ao máximo) e sobre a percepção do concretismo na escrita da poetisa. Muito bacana!

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