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10 Considerações sobre As Horas Vermelhas, de Leni Zumas, ou por que não ficar apenas assistindo

O Blog Listas Literárias leu As Horas Vermelhas, de Leni Zumas publicado pela editora planeta; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Amargo e friamente melancólico, As Horas Vermelhas, de Leni Zumas transpõe para o romance o desafio diário da experiência feminina num mundo construído por e para os homens, tratando de forma densa, tensa e dramática as pressões particulares de quatro personagens mulheres numa realidade tomada por elementos distópicos;

2 - Tenho particularmente começado a preocupar-me com a possibilidade do termo distopia perder sua força de alerta, visto não a popularidade recente do termo, mas talvez sua banalização muitas vezes fomentadas por distopias brandas e acabam não trazendo o mesmo impacto das obras que originaram o gênero. Todavia, não é o caso deste romance, pois não há brandura em sua narrativa, quiçá uma esperança pueril em seu desfecho. Com isso pretendo dizer que as cores distópicas são fortes, quentes como a cor de seu título e tudo que ela representa, mas ainda assim não trata-se de uma distopia em sua estrutura clássica, pelo contrário, a obra de Zumas assim como outras boas narrativas distópicas já não olha para o futuro (ainda que todo futuro distópico esteja firmemente com os passos nos seus respectivos presentes), mas traz para a realidade contemporânea a realidade opressora das sociedades distópicas. É como se por meio do romance a autor reforçasse aquela cisma de que as distopias, enfim nos alcançaram;

3 - Claro que há uma série de discussões, reflexões e debates acerca desta compreensão, especialmente porque o distópico sempre esteve relacionado ao presente, ainda que seus autores produzissem seus romances no futuro do presente. Mas deixemos isto para outras oportunidades, pois aqui a intenção é a de demonstrar que o romance pretende a seu modo nos dizer que a distopia não está mais no futuro, mas sim em presentes que se embora um tanto alternativos, estão fortemente construídos nos debates desta sociedade de um Século XXI que cada vez mais parece levar-nos a certa regressão temporal, uma espécie de vingança das religiões e das teologias depois de décadas de domínio do pensamento iluminista. De certo modo é tal embate que vemos aqui, assim como no famoso O Conto da Aia;

4 - No caso deste romance, uma sociedade americana que revogou sua legislação quanto ao aborto, mas muito além disso, na verdade uma sociedade teocrática governada por ideologias religiosas cuja interferência principalmente nas questões reprodutivas femininas é máxima e dotada de forte opressão e repressão, cuja narrativa amplia-se com a constante sensação de medo e na fadiga da resistência de seus habitantes;

5 - E somos mergulhados nessa sociedade mais realista do que poderia se pressupor através de cinco diferentes perspectivas, sendo de suas quatro personagens e ainda o resgate da memória de uma antiga mulher do passado. Embora com conexões, cada uma das quatro mulheres possuem experiências muito próprias, umas mais outras menos com a pressão política, mas todas elas impactadas pelas pressões sociais as quais ficam muitas vezes presas e inertes, de modo que cada uma dela terá seu próprio modo de agir, ainda que o título de seus capítulos lhes retirem certa identidade ao tratá-las como A Reparadora, A Filha, A Esposa e A Biógrafa, nomeando-as pelos papeis que representam e não pelo próprio nome. Isso, claro, é bastante significativo.

6 - Assim, observamos a experiência de cada uma delas. A Reparadora, mulher livre mais vista como inadequada pela sociedade, que a vê como uma bruxa a qual muitas procuram por auxílio com suas ervas e táticas de aborto, o que é proibido nessa sociedade; já A Biógrafa, professora tida com esquerdista radical, que escreve sem grandes planos a biografia de uma antiga navegadora, amargurada pela incapacidade de ter um filho e um tanto ressentida por talvez não poder desempenhar certos papéis sociais, tampouco adotar uma criança; já A Filha, está no seu vigor juvenil, não como manifestação política, mas por necessidades pessoais terá de enfrentar o governo, a seu modo, claro, enquanto A Esposa, talvez a mais melancólica delas precisa criar coragem para dar cabo de algo que lhe parece falso demais;

7 - Vejamos que são dramas que independentemente do cenário distópico pertencem ao cotidiano de muitas mulheres, aprisionadas por uma sociedade que lhes oprime, e que também as cala. Isso, aliás, será um importante ponto de reflexão a unir as personagens do romance e suas insatisfações. Haverá no todo do romance certa convocação revolucionária de modo a chamar um levante ao que algumas das personagens surgirá pelo questionamento acerca do silêncio ou da inação perante uma sociedade que as ataca e oprime. Será posto em questionamento a postura de telespectadora da história, que apenas assiste os fatos se desenrolarem... Haverá sem dúvida no romance um chamado ao movimento, de tal modo que aí veremos certa ruptura com o gênero distopia, visto que mesmo mínimos, os primeiros passos serão dados;

8 - Contudo, embora haja certa movimentação das personagens, as primeiras tentativas de romper com as fortes correntes, a narrativa, porém, não minimiza a sensação de fastio para com a experiência humana e suas sociedades pós modernas. Há certa aversão e e apatia que tanto parecem definir nossa década, como se as pessoas, aquelas portadoras da razão e do pensamento iluminista estivessem desistindo da humanidade, enquanto as vozes mais retrógradas avançam tentando resistir ainda que com métodos primitivos. E isso é muito, muito dramático e tenso;

9 - A bem da verdade, e como não raro encontramos experiências por aí, é aquela sensação de que abrimos um túnel temporal e com eles fundimos dois universos, o Século XXI, outrora cheio de expectativas e o medievalismo que irrompe uma nova guerra cultural em que redes sociais e caças às bruxas habitam um mesmo universo. Creio que esta seja a característica mais perturbadora da narrativa, e que ainda nos mostra que essa não é só uma questão localizada em versões atrasadas do planeta, mas sim um temor global. Talvez por isso a característica de convocação deste romance;

10 - Enfim, As Horas Vermelhas é de fato uma narrativa feminista, mas não só isso. Sua mensagem e sua prosa insólita e surreal vai para além disso, a mensagem é ampla, talvez alarmante, que acima de tudo joga à mesa uma sociedade à beira de um convulsionamento, isso, claro se não ficarmos tão somente assistindo. De certa forma a apatia representada na obra, diferentemente do alerta que representaram as distopias de um Século atrás, nos é agora talvez um derradeiro grito de socorro quando perigosamente duas linhas antagônicas ameaçam entrecruzarem com efeitos tenebrosos.



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