Header Ads

10 Considerações sobre Estado Terminal, de Dylan Ricardo ou sobre as vísceras pútridas da alma

O Blog Listas Literárias leu Estado Terminal, de Dylan Ricardo publicado pela All Print editora; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - De acordo com o autor, muitos dos poemas do livro são "crônicas do cotidiano de uma personalidade insatisfeita" e não há nenhum exagero nisso, porque em geral os versos pertencentes a esta obra tratam não só de questionar as coisas à sua volta, mas acima de tudo um olhar desalentado diante os dramas existenciais e a materialidade da carne;

2 - Mas antes de adentrarmos a esta obra, sempre quando da leitura dos poemas gosto de tratar não ser o forte deste leitor que tem para com as rimas, os sonetos e os versos uma relação um tanto conturbada e conflitante. Todavia, como tanto a lírica quanto as narrativas janelas insinuantes, nos permitem encontrar nelas uma série de sensações e percepções, as quais tentarei aqui reunir pontos importantes desta coleção poética;

3 - De primeira mão pode-se ressaltar que a leitura de Estado Terminal é como adentrar num túnel temporal, pois embora autor do agora, Dylan Ricardo volta no tempo e nos apresenta versos "ultrarromânticos e góticos" como se o tempo e nossas dores tivessem congelado nos Séculos XVIII e XIX, ou que então, até agora não tenhamos encontrado respostas adequadas a nossas líricas indagações. Nesse sentido, a leitura provoca-nos certo deslocamento e quiçá desperta curiosidade;

4 - Grande parte destes questionamentos pode ser visto pelo embate entre as perguntas existenciais e a materialidade da carne, do próprio universo, que apresentam-se em poemas como Hermético e Mortal. Há nisso, e aqui trata-se apenas de suposição a dor permanente de um possível afastamento do espírito e da matéria, pois quando mais descobrimos de um, talvez mais matemos do outro;

5 - Aliás, vale ressaltar que o pungente título "Estado Terminal" não é à toa. Carregam os poemas reunidos a carga semântica das dores e do sofrimento, não raro ligados à putridez da existência, da própria matéria. Mais do que melancolia, vemos portanto uma poesia desalentada, não fatalista, mas fatal, triste e sombria, entre vísceras e carcaças que se esvanecem na crueza da vida;

6 - Talvez por isso a morte esteja tão presente nos poemas, da ironia de O Sorriso do Cadáver a melancolia de Há Noite.  Da sordidez do Souvenir ao Velório à própria morte e seu jardim, do corpo e do poeta, a morte assombra estas páginas de forma um tanto intensa;

7 - Mas para além disso, há espaço nas poesias aqui reunidas não só para constatar a exaustão da existência, como parece-nos ser a tônica dos poemas, mas há também para muitos dos trabalhos declamar acerca da própria arte por meio de versos metaliterários que tratam do existir do poeta;

8 - E sem perder o caráter sombrio, um conjunto bacanas de poemas é o em que subversivamente inverte a perspectiva de astros, tão declamados pelos versos, como o sol e a lua, que pelo olhar não amargurado, talvez amargo e ácido do poeta aqui são provocativamente observados de uma perspectiva incômoda e negativa, chamando a um deles, por exemplo, de vampiro;

9 - Entretanto o mais curioso e complexo talvez seja o fato que a este leitor, pelo menos, o mais forte e interessante poema tenha sido Zhuang Zi, que em princípio difere dos demais componentes da obra, mas reúne força e impacto tão belo que nos possui imediatamente;

10 - Enfim, Estado Terminal esbanja lirismo, leituras e referências através de poemas melódicos, mas não menos funestos por causa disto. A bem da verdade tratam da exaustão da vida, dessa corrida por respostas que parece-nos nunca chegar, às vezes até mesmo tornam esta procura inócua. É obra potente para quem curte poesia e dor. As vísceras pútridas da alma ganham vida nestes versos.




Nenhum comentário