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8 Reflexões sobre a polêmica envolvendo cobrança para divulgação literária

Nos últimos dias o círculo literário do universo digital vem debatendo a repercussão das queixas de um autor acerca da cobrança para divulgação literária. Em nossa visão muito das discussões e das análises provavelmente não dão conta das complexidades envolvidas - possivelmente este post também - e gostaríamos de engrossar esse caldo, e especialmente fugir da discussão maniqueísta entre os que defendem o autor e os que defendem o booktuber/influenciador. A questão é mais ampla que isso. Confira nossas 8 reflexões sobre cobrança de divulgação literária:

1 - Não há problema oferecer serviços: Um dos lados na disputa está o de que não há problema algum em alguém oferecer serviços. De fato não é uma tese equivocada e numa sociedade que em princípio vigora a liberdade comercial, qualquer um tem o direito de oferecer serviços, seja la qual for. Isso vale também para o quanto essa pessoa cobra por suas atividades e o quanto alguém está disposto a pagar por algum serviço. Todavia quando fala-se de literatura e aproximá-la do dinheiro a coisa esquenta. Nós mesmos aqui no blog fomos envolvidos numa crítica nesse sentido, embora trabalhemos aqui com valores bastantes irrisórios e que já comento. Antes disso, precisamos partir do início que qualquer projeto literário ou cultural pode e deve contar com recursos para divulgação, o que aliás, ocorre desde sempre. No modelo mais tradicional de mercado a publicidade e a divulgação está presente. O que muda hoje é apenas que muito provavelmente os meios e canais que estão recebendo tais recursos mudam (logicamente no caso da literatura temos de ponderar as somas envolvidas comparativamente a outros setores como cosméticos e moda). Propaganda é indispensável e deve estar associada e claro a um bom planejamento, isso vale para produções literárias. Portanto não deveria causar espanto algum que canais digitais tenham lá seus mídias kits, cabendo a autores utilizar ou não tais serviços, isso de acordo com expectativas, resultados esperados e, claro, custo benefício, que estará intimamente ligado o tamanho de suas ambições ou mesmo possibilidades literárias. Entretanto, se algo que nos parece tão simples causa tamanho alvoroço, é porque alguma coisa há. Na verdade as questões literárias possuem suas peculiaridades, entre elas a dificuldade de grande parte do público do setor (leitores, autores, editores, etc..) em separar crítica literária e publicidade literária...

2 - Influenciador não é crítico: Convenhamos, não se pode chamar os influenciadores digitais (booktubers, instagramers...) de desonestidade. O uso e a adesão da palavra influenciador os distancia de qualquer interesse crítico e em grande parte assumem-se o que são, consumidores de produtos, no caso literário de livros. Sãos pessoas que gostam de determinadas coisas e explanam suas considerações, e assumem geralmente a subjetividade de suas opiniões. Aliás, aqui devíamos observar mesmo que rapidamente as grandes mudanças no universo dos influenciadores digitais, a começar com a morte dos blogs. Não se pode conceber a prolífica existência de booktubers sem antes observar a revolução iniciada pelos blogs, grande parte hoje morta, mas que lá pelo final da década de 2000 (Como o Listas em 2009), que começaram a publicar conteúdos literários. O boom dos blogs àquela época estava carregado de muito romantismo e dedicação como hobby. Grande parte dos blogs naquele início estavam localizados distantes de centros urbanos, onde não havia qualquer possibilidade de se debater literatura (escolas, universidades, etc..). Foi essa turma cheia de romantismo a apaixonada por livros que começou a abrir as portas de editoras e suas parcerias, entretanto isso só foi possível por um fator: blogueiros falavam quase sempre de suas leituras pessoais, em grande parte fantasia canônica e claro o fenômeno Harry Potter. Em suma, tratavam de leituras de grandes editoras mas feita por suas escolhas, os blogs foram criados então para compartilhar aquelas leituras que lhes fascinava. Foi então que neste que aproveitaram deste espaço autores distantes de grandes casas editorias, estabelecendo com os blogs parcerias que lhes davam a visibilidade que não tinham nos jornais e revistas. Isso com certeza mudou muita coisa no mercado editorial, nomes saltaram das leituras da rede para as listas de mais vendidos, e aqueles blogs românticos pouco a pouco foram sendo engolidos por mídias um tanto mais profissionais, especialmente com a chegada da burguesia média urbana (de esquerda e de direita) na blogosfera literária. De lá até agora tal concorrência só aumentou, novas plataformas, dezenas de influenciadoras, mas creio que muita coisa pode ter-se perdido hoje, e talvez a mais grave a inocência da visão romântica porque isso trouxe para a literatura a selvageria capitalista, os livros transformados em objetos de desejo e consumo, o que para um pensador literário soa horrivelmente. Percebem o conflito? Entretanto, não se pode como disse acusar de desonestidade os influenciadores digitais, que geralmente assume-se como o é "um agente do consumo" o que parece ser uma ótima ideia para mercado editorial (que vende mesmo livros de desenho), contudo pode ser também um desastre para a literatura...

3 - O espaço da crítica literária nessa briga de bytes, likes..: Há um perigoso desprestigio da academia, especialmente em tempos de fascismo cultural. Em muitas das discussões sobre o assunto observei que esse novo universo de influenciadores vem destronar a chatice da literatura acadêmica. Que acaba com círculos elitistas do que se julga literário... É um ranço que possui lá suas razões, contudo devemos ir um pouco devagar com andor. Criticar e questionar o elitismo burguês do círculo literário não é a mesma coisa que destruí-lo, pelo contrário, é cometer o erro de observar que há ali elementos importantes para o que ainda está por vir, e especialmente para não se considerar como novo premissas antigas ou iguais daquilo próprio que se pretende atacar. Parece-me que há disso em ambos os lados, diga-se. Os críticos do pensamento da academia renegam qualquer discussão vinda dela, embora apenas reproduzam novos círculos burgueses (à esquerda e à direita) bastante elitistas e muitas vezes com comportamento de seitas, visto que as diversas bolhas espalhadas por aí possuem pouca criticidade; por outro lado a própria academia parece-me isolada e incapaz de perceber que cada vez mais fala para si mesma. Vivenciei isso nos últimos quatro anos em que cursei letras, é muito difícil ter voz de equilíbrio e a sensatez de saber que há muita coisa boa fora da academia, mas também um universo de inutilidades. Do mesmo modo há quem não chegue perto de um livro por razão simples de ser bem visto por acadêmicos, e perde-se de conhecer coisas riquíssimas. Nesse embate de facão no escuro a crítica literária parece submergir, entretanto ela desempenha um papel importante na curadoria entre aquilo que venha a ser de fato literatura (e aqui considero toda problemática envolvendo seu conceito) ou mero objeto de consumo. Se pensarmos nos livros apenas como consumo ou entretenimento liquidamos a literatura como arte, e ai reside a grande celeuma quando se fala cobrar por resenhas. Aqui no Listas, por ideologia não cobramos este tipo avaliação, pois por mais impressionista que possa ser (hoje já nem tanto), a crítica-resenha-avaliação da obrar deve preservar o quão mais possível a independência de seu autor, e diminuir as possibilidades de suspeição que dificultam distinguir garoto/a propaganda de resenhista...

4 - Escritores pagam para escrever: Não adianta compreender que oferece quem quer, compra aquele que quiser, sem congregar também no debate a perspectiva do autor. Tire desse debate aqueles  [autores/as nacionais] que frequentam as listas de mais vendidos (e destes alguns poucos produzem boa literatura) e dificilmente não terás escritores que pagam para escrever. Pergunte-se quanto lucra o Wattpad por ano e quanto ganha o autor que lá escreve, cuja única esperança é engatar uma publicação tradicional e se dar bem nas vendas? Desafie qualquer autor a comprovar que consiga pagar suas contas com seus e-books da Amazon e não ganhar pouco mais que alguns lanches. Isso no campo digital, que no máximo teremos um ou outro blog monetizado ou com produtos de sua ficção, ainda assim, apontar que viva bem disso pode ser bem difícil. Não se engane, viver de literatura continua muito difícil, especialmente num país acontece das coisas mais estranhas no universo da leitura. Mesmo você sendo um bestseller, precisará vender no mínimo 2.000 livros por mês para ter uma boa renda mensal de direitos autorais, e isso estamos falando daqueles que chegaram em grande editoras, com ótima distribuição e um bocado de marketing e um público cativo, caso de youtubers, e nem assim é garantia de vendas, visto que muitos foram parar nos livros sem o retorno das expectativas de vendas. O que pretendo dizer com isso é que a maioria dos autores brasileiros, ou ainda estão na internet, onde se publica grátis, ou resolvem ir ao formato livro, quando talvez o mais louco se anime a imprimir 1.000 exemplares que se vendidos até lhe dariam maior lucratividade do que direitos autorais. Entretanto, a grande parcela mesmo acaba ou publicando sob demanda ou então de forma mista, mas em qualquer das situações com pouco volume, lucratividade lenta e a longo prazo. Vejam, portanto, não há exagero algum também quando muitos autores ou por ingenuidade ou por desconhecimento buscam "promover" suas publicações em canais de grande visibilidade, imaginam uma coisa, encontram outra, contudo, a realidade descapitalizada da literatura permanece a mesma, e assim a roda do elitismo burguês permanece, ainda que muita gente engane-se vendo na influência digital alternativa à academia;

5 - Encontre outros canais: Talvez tenha falado demais aqui, com erros e acertos, quiçá. Buscarei maior síntese nos próximos itens. Enfim, chegamos a conclusão que nem um nem outro estão errados, e ao autor, e essa é a vantagem que a internet ainda ajuda, encontrará canais que se não tão populares e midiáticos, podem apresentar não só disponibilidade de publicar de diferentes modos. Nós mesmos aqui no blog embora não garantamos inclusão em pautas, adoramos receber releases de novidades nacionais, do mesmo modo que ofertamos publicidade pensando justamente nos desafios financeiros dos autores, além é claro das resenhas nunca serem cobradas. Se um canal famosão é caro, faça como nos primórdios da web, apresente seu trabalho a tantos quantos blogs e canais menores que for possível;

6 - Resenha não é publicidade. Mas ajuda:  Como já falado, não consideramos aqui no blog a resenha [avaliação] do livro divulgação do trabalho, por isso nunca a cobraremos, nem ela nem nossas entrevistas. A resenha tem de ser independente, e mesmo quando de caráter impressionista a erudição e conhecimento literário do avaliador vem à tona, e isso transparece nas avaliações que não deveriam ser imaginadas como propaganda. Ainda assim, não negamos o impacto delas, e mesmo em resenhas negativas a publicação traz efeitos positivos ao livro. Aliás, aqui no blog recebemos mais informações de autores bastante criticados quanto ao resultado da nossa avaliação que daqueles mais elogiados. Ou seja, a resenha positiva e até negativa pode colabora sim para seu trabalho, mas não, não é propaganda, poi se o fosse ou se a aceitássemos assim, dizer de insuspeição é embuste;

7 - Tentar sair das bolhas: O que mais me assusta atualmente é o quanto vemos o pregar de ideias inclusivas, mas uma prática diferente, em todos os sentidos. Seja para escrever, ler, divulgar ou comentar obras literárias cada vez mais se fortalece as cascas das bolhas e seus nichos e não se procura sair delas ou dos círculos de amizades, panelas, e por aí vai... No caso do Listas pago certo preço pelo modo um tanto solitário de atuarmos, mas compensa na independência e na manutenção da vivacidade crítica;

8 - Tempos de mudanças:  Para fechar o post [ainda que provavelmente inconclusas minhas ideias] o episódio que suscitou este artigo mostra que vivemos um tempo de grande mudança, estamos no olho de um furacão donde brotam vozes reacionárias de todo o lado e a razão parece cada dia mais uma impossibilidade. Há uma série de coisas negativas nessa onda de influenciadores digitais, outras positivas. O mesmo vale para a academia. Agora o que quase ninguém para para pensar é que para os autores, mas especialmente para a literatura a coisa continua bastante sombria. Em tempos que se fala de todo poder aos leitores, os autores ou sucumbem à bajulação e à doutrinação do grupo o segmento a que deseja entrar, ou experimenta o marasmo nada original, pois grandes cânones do presente foram anônimos em vida; Nessa época de grandes calores quase sempre estamos sujeitos ao erro, mas creio que a maioria dos olhos apontam em direções erradas, pois salvo engano o literário, a literatura em si, continua com graves problemas, especialmente porque seja na internet, na academia ou no mercado, os círculos burgueses cheios de elitismos e distinções seguem dando as cartas e as regras do jogo.

Um comentário:

  1. Olá, bom dia.
    Permitam-me sugerir visita ao blog do Artur Salles.
    Muito interessante.
    www.artursalles.wordpress.com

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