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A Bem da Verdade, 10 considerações sobre Terceiro Reich, na história e na memória, de Richard J. Evans

O Blog Listas Literárias leu Terceiro Reich, Na História e Na Memória, de Richard J. Evans, publicado pelo selo Crítica da editora Planeta; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Contundente e amplo, Terceiro Reich, Na História e na Memória coloca o leitor num amplo cenário, pré e durante e pós a ascensão do nazismo a partir de um olhar crítico de alta erudição e conhecimento acerca das publicações que tratam deste respectivo período da nossa história;

2 - Para tanto, o livro é composto por ensaios, mas especialmente resenhas já publicadas pelo autor, aqui reunidas num todo que constrói um conjunto linear e capaz de abordar e discorrer sobre diferentes perspectivas e épocas do Terceiro Reich, isso tudo, ainda que com propósitos acadêmicos, numa linguagem acessível ao leitor amplo, de modo que a obra possui grandes potencialidades de penetração, mas para além disso, é capaz de promover um debate de forma coerente e abrangente;

3 -  Nisso, vale dizer, o fato de estarmos lendo resenhas, temos um olhar e a memória provocados e estimulados a partir de um terceiro elemento, ou seja, das obras as quais Evans está criticando, no sentido acadêmico da palavra, de modo que, portanto, a grande parte dos capítulos deste livro, o pressuposto inicial é a análise de determinadas obras, que acabam de certa forma servindo de porta a todo o conhecimento e erudição do autor no tema, que de modo algum titubeia em suas avaliações. Evans, a bem da verdade (expressão corriqueira da tradução) ensina-nos também de modo prático os elementos de uma boa resenha, visto que em cada uma de suas leituras que centralizam as resenhas, outras tantas saltam em meio a argumentações e contra-argumentações capazes de observar os mínimos detalhes da obra que está a criticar, balanceando críticas e elogios, de modo que em grande parte de suas análises, mesmo a obra dotada de elogios, não escapará da evisceração de suas fragilidades, e em ambos os caos, Evans não dosa palavras, o que dá aspecto de sinceridade em suas avaliações;

4 - Deste modo, o livro então divide-se em partes  que via de regra reúnem discussões ou épocas semelhantes, iniciando por República e Reich, capítulo o qual traz muitos elementos da Alemanha anterior a ascensão do nazismo, discutindo por exemplo, A derrota de 18, a Berlim na década de 20, e o talvez mais interessante capítulo desta parte, Forasteiros Sociais, artigo que desmistifica com eloquência a visão de serem os judeus alijados das estruturas sociais da Alemanha no período que antecedeu o nazismo, mostrando e reforçando o caráter étnico da perseguição que sofreram, mesmo que a época já estivessem totalmente integrados à sociedade;

5 - Já em  Por Dentro da Alemanha Nazista reúne artigos que abordam os aspectos da sociedade Alemão perante e durante a ascensão do nazismo, como em Coerção e consentimento em que trabalhará elementos que levaram ao silêncio e mesmo ao consentimento aos projetos de Hitler, e é um artigo deveras interessante para refletir e discutir sobre aqueles que não eram soldados ou políticos, bem como debate a própria ação dos nazistas em instaurar o clima de permanente vigilância e também da perseguição feroz feita aos opositores de Hitler quando de sua chegada ao poder. Nesta parte temos ainda Hitler era doente? que desconstrói qualquer intenção de ver no ditador nada que senão a maldade humana, A "Comunidade do Povo" e Adolf e Eva que jogam luzes interessantes sobre Eva Braun, amante e esposa de Hitler;

6 -  No capítulo A Economia Nazista, dois trabalhos em especial chamarão a atenção, As armas de Krupp que não só da relação da família com a politica, poder e armas, vai falar do próprio armamentismo alemão durante o nazismo e O "Carro do Povo", artigo que abordará o nascimento do hoje celebrado Fusca no vórtice desta grande barbárie, relação esta que certamente passa despercebida de muitos admiradores do carrinho. Este artigo, em especial, embora em uma ou outra oportunidade o autor insira o Brasil em seu texto, perdeu a oportunidade de trazer dois momentos marcantes do país com o carro, a polêmica premiação aos campeões de 70, mas principalmente a insana tentativa de Itamar Franco de tenta ressuscitar o besouro como política pública, certamente uma das ideias mais bizarras da política tupiniquim, de modo que sem essa citação, nenhum artigo sobre o fusca pode ser completo. Já o quarto capítulo, Politica Externa, o artigo mais interessante talvez seja Nazistas e diplomatas, um intenso debate acerca da amplitude de resistência no corpo diplomático ao nazismo, que ao autor fica no campo do mito e da conveniência;

7 - Será o quinto capítulo o com artigos, digamos, mais centrado na guerra, propriamente. Vitória e Derrota é composto por cinco resenhas que abordam das Decisões fatídicas ao Declínio e Queda. Outra discussão interessante desta parte é O alimento da guerra, uma profunda discussão que mostra não só a essencialidade do alimento durante o conflito, mas como a fome também foi usada como instrumento de guerra e extermínio, assunto que surge noutros artigos da publicação;

8 - Os dois últimos capítulos, A política de genocídio e Consequências e desdobramentos centram-se já na parte final e após a Guerra. Entre outros, os artigos A "Solução Final" foi singular? que discute justamente a singularidade do holocausto na história, e para os admiradores das artes Arte em tempo de guerra, que embora tratando da relação dos nazistas e seus saques às artes, acaba abordando a usurpação cultural em diferentes momentos de barbárie;

9 - Vejamos que trata-se de um conjunto bastante abrangente de discussões, estas feitas respaldadas por uma vasta literatura, primária e secundária acerca da Guerra de tal forma que perpassamos por um imenso conjunto de obras e bibliografias abordadas nas análises de Evans. Aliás, isso acaba fazendo sentido, visto que a ampla literatura dominada pelo autor sobre aquilo que debate justifica que na maioria das vezes, sua crítica mais pesada quase sempre esta relacionada a bibliografias não amplas usadas naquelas obras a que está criticando. Richard J. Evans parece exigir um bocado dos autores nesse sentido, e quem ganha é seu próprio leitor que acaba tendo acesso a uma grande quantidade de informações, muitas delas postas em conflito pelo próprio resenhista;

10 - Enfim, para estudiosos e curiosos sobre este respectivo período da história, essa é uma publicação bastante interessante e que reúne relevantes debates que se dão sempre de forma precisa e critica nos ensaios agora reunidos. Ademais, é uma boa sugestão de leitura, até porque em tempos que muita gente sai falando bobagem acerca do assunto, eis uma boa fonte de conhecimento.



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