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10 Considerações sobre Frida e Trótski, de Gérard de Cortanze, ou sobre arriscar tudo

O Blog Listas Literárias leu Frida e Trótski, de Gérard de Cortanze publicado pela editora Planeta; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Frida & Trotski penetra o arriscado campo de romantizar em narrativa personalidades célebres da história humana, ficcionalizando o universo real, construindo uma nova possibilidade a partir de indícios, construindo deste modo uma nova maneira de observar e olhar determinados fatos, no caso deste romance, determinadas relações como a aproximação entre o revolucionário Leon Trótski e a icônica pintora Frida Kahlo;

2 - Conforme o autor, para a construção deste romance foram importantes "escritos intelectuais, hipóteses, demonstrações, ensaios, romances, pistas sugeridas" de modo que é importante ao leitor levar isso em consideração, pois não trata-se de biografia, mas sim um romance elaborado a partir do conjunto de leituras do autor. Nossas avaliações e considerações neste post partem justamente do romance tão somente, ainda que leve-se em conta seu contexto de fundo;

3 -  Por isso na abertura desta publicação apontamos a natureza arriscada deste tipo de construção ficcional, pois a concorrência em termos de informações através de ensaios e estudos é gigantesca, o que pode pesar ao autor no caso de leitores de conhecimento profundo sobre Trótski ou Frida (não é bem meu caso) pelas possibilidades de comparações que podem surgir. Além disso, a constituição de personagens por si só é uma ciência cheia de desafios e complexidade, e neste tipo de narrativa "a personalidade real" e a "personagem ficcional" estarão sempre sendo avaliadas em paralelo, o que demandará sempre grande domínio dos autores para não incorrerem em falhas ou mesmo gerar interpretações dúbias a partir de seus respectivos trabalhos;

4 -  No caso desse romance, inegável, portanto, que Gérard de Cortanze não foge do complexo desafio, e envereda-se a narrar em romance a relação entre Frida e Trótski iniciada a partir do exílio do revolucionário russo no México em 1937. É certamente uma empreitada corajosa, pois ambas personagens são das mais complexas em nosso Século XX, cuja existências deixaram indeléveis marcas na política e na arte do nosso mundo;

5 - Dito tais questões, fica-nos então a pergunta de como compor um romance em que suas personagens reflitam as mesmas complexidades de suas personalidades concretas? Então caberá ao leitor através de sua capacidade de penetração avaliar se De Cortanze foi feliz na aproximação de suas Fridas (Ficcional e concreta) e Trótskis (Ficcional e concreto), embora, uma avaliação tão somente do romance possa nos apresentar alguns pontos importantes a partir da crítica literária;

6 - Narrado em terceira pessoa, o livro concentra-se no período da chegada de Trótski ao México até a morte de Frida Kahlo, que conhece o revolucionário ao recebê-lo junto do esposo, Diego Rivera, dando-lhe asilo. Na obra a tensão e o desejo são quase imediatos entre os dois, que desenvolverão em parte do livro um romance intenso, como de fato era a vida de ambos. Será todavia uma relação marcada pelo drama, pelas contradições e desencontros entre duas vidas bastante atormentadas e impactadas pelo poder das ideias e da política;

7 - Todavia se a relação de ambos é vivida na clandestinidade, os dois como personagens literários são de construções simples, por vezes até mesmo superficiais, especialmente porque para além do drama presente na superfície, ambas figuras ficcionais, Frida e Trótski não apresentam grandes profundidade psicológica, ou conflitos que os engrandeçam como personagens, aqui esquecendo-se das figuras concretas. Ele encarna linearmente o velho e exilado revolucionário preso à sua ideologia que embora vivenciando a relação extraconjugal, mantém-se a certa distância dos leitores, constituindo-se uma personagem, repito, no romance, demasiada simples e previsível;

8 - Frida até possui maior complexidade no universo interior deste romance, com sua personalidade atormentada, por vezes autodestrutiva, mas demasiadamente forte desafiadora. Todavia, mesmo com tonalidades de maior profundidade, há certa linearidade que simplifica os mistérios que cercam esta figura icônica, além de apresentar-se como alguém incapaz de realizar uma leitura crítica do todo que a cerca;

9 - Assim, se por um lado é provável (e também esperado) que os personagens da ficção estejam um tanto distantes dos personagens concretos, por outro, podemos pescar do fundo histórico da narrativa todo o peso e a prisão que muitas vezes as ideias podem tornar-se, pois, o Trótski desta ficção não deixa de ser um prisioneiro de seus ideais e de seu passado, que embora tente levar a vida dentro de uma normalidade possível, ao adentrar o campo das ideias que elevam sua natureza humana, ele acaba carregando muitos fardos; Já Frida, se não tanto no campo das ideias, terá em sua luta contra seus medos e tragédias pessoais uma interessante caracterização;

10 - Enfim, logicamente a leitura de Frida e Trótski demanda certo distanciamento entre o real e a ficção construída por Gérard para que nem a ficção e nem a história saiam prejudicadas. Feita a ressalva, é uma leitura interessante cujo pano de fundo pode auxiliar-nos a depreender diferentes elementos acerca da tumultuada primeira metade de Século XX a partir de duas personagens centrais de nossa história recente. Além disso, se observarmos em suas minúcias poderemos mesmo perceber a concepção ideológica e crítica do autor a partir de como constrói suas personagens;


   

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