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10 Perguntas inéditas para o escritor Alckmar Santos


O Blog Listas Literárias entrevistou o escritor Alckmar Santos. O autor é natural de Silveiras, SP. Possui graduação em engenharia eletrônica, pela Universidade Estadual de Campinas (1983), mestrado em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (1989) e doutorado em Estudos Literários pela Université Paris VII (1993). Desde 1994, é professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira e Teoria Literária, atuando principalmente com teoria do texto, literatura e filosofia, hipertexto e texto digital, poesia. Uma de suas obras mais recentes é Circo, cuja avaliação vocês encontram aqui. Neste post confira 10 perguntas inéditas que fizemos ao autor:


LL: 1 - Seu romance Circo é uma obra de grande densidade e que possibilita diferentes leituras, perpassando desde as complexas figuras humanas que habitam-no à questões relacionadas do poder e do autoritarismo presente em nossa formação social e histórica. Algumas destas questões tiveram maior ou menor importância para a escrita do livro, ou as coisas foram interligando-se durante o processo de escrita?

A.S: O ponto de partida foi justamente uma imagem, uma fotografia divulgada em vários jornais e revistas, logo no início do processo do Mensalão, em que se mostrava um personagem em claramente a postura pragmática vinha substituir o idealismo que marcou o início de sua trajetória política. Ora, política e ideologia não existem sem os indivíduos que as propõem e as utilizam. A partir disso, imaginei justamente uma situação e personagens em que o idealismo da juventude vem (ou não!) se dobrar ao pragmatismo.

LL: 2 - Aliás, um de seus protagonistas vive durante o golpe militar, e, inclusive, é "tocado" pelo regime, ainda que seja uma personagem distante de qualquer protagonismo histórico. Não seria uma bela mensagem aos que pensam que as lutas de poder não os tocam? Há alguma distância que nos deixe seguros do autoritarismo?

A.S: Nenhuma! Ele sempre nos ronda. É assim, porque não se vive sem ideologia (ainda que muitos façam de conta que isso seria possível). A história (e isso já está no maravilhoso Fernão Lopes) é a soma das escolhas, atitudes e decisões de cada indivíduo, por mais desimportante que seja. “Estamos condenados à liberdade”, não é mesmo?! A cada momento, estamos escolhendo, sempre, entre opressão e liberdade, tanto para os outros, como para nós. Aliás, quando escolhemos oprimir o outro, estamos apenas abrindo a porta que, mais adiante, sejamos nós os oprimidos.

LL: 3 - Além disso, poderíamos aproveitar para refletir a relação da literatura tanto com a memória quanto com a história? Em tempos estranhos e perigosos como o que voltamos a viver e que há quem desconheça tal período, os livros e a literatura seriam capazes de não permitir que nossos erros caiam no esquecimento?

A.S: Disse acima que ninguém vive sem ter alguma ideologia. O problema é que a maioria de nós faz de conta que isso é possível. As artes todas — não apenas a literatura — deveriam, o tempo todo, mostrar como nossos pensamentos, nossas decisões e nossos atos derivam diretamente da visão de mundo que todos temos, desnudando-os, mostrando o ridículo deles, em alguns casos, e as tragédias que, com alguma frequência, podem derivar deles. Ou, ainda, mostrar que utopias podem e devem apontar.

LL: 4 - Mas deixando a questão do poder, e o circo, hein? sua obra trata a questão mítica daqueles que largam tudo e seguem ao desconhecido junto de um circo, como no caso do Tito (forçado pelas circunstâncias). Qual sua relação com o circo e comente também sobre as relações que se constroem entre esses andarilhos da arte?

A.S: Tenho um livro de poemas chamado Circenses. A imagem do circo é lembrança mítica da infância, numa época em que a imaginação era mais ativa, pois tinha que suprir a falta de informações e de conhecimentos. A cidade em que nasci é cercada de morros, sempre houve lá, por exemplo, dificuldade para ter sinal de televisão (antes dos satélites de comunicação aparecerem). Assim, saber o que havia no mundo além dos morros, apenas deixando a imaginação correr solta ou quando algo de mágico e de inesperado vinha de lá de fora, como circos, ciganos, parentes de outras cidades...

LL: 5 - Mas ampliemos as questões de seu romance, como as diferentes vozes narrativas que o compõem e o tempo que habitam, que embora semelhantes, não mudam muito, de modo que não são amigáveis a suas personagens?

A.S: São três personagens com ligações muito fortes, mas que, apenas aos poucos, se vão desvelando. Depois de escrito o romance é que me dei conta de que eles dividiram a expressão: um fala apenas; outro somente pensa; o terceiro escreve!

LL: 6 - Adilson, por exemplo, se não é perseguido por um regime como o Tito, tem de resistir e sobreviver a outros problemas, inclusive a ele mesmo. Aliás, sua jornada não seria uma espécie de educação pelo fracasso?

A.S: Exatamente, é um aprendizado com o fracasso consigo mesmo, com a esposa (ops, ex-esposa, como ele prefere que se diga!), com a filha, com a própria sociedade (quando aceita trabalhar numa indústria bélica sem se preocupar se o que ele ajuda a fazer vai matar outras pessoas). Porém, o que o resgata é a capacidade de amar, que ele julgava definitivamente perdida e vê surgir de onde menos esperava.

LL: 7 - Ambos são personagens que saltam de nossa vida cotidiana, gente simples e mundana cujo grande feito é a existência ao mesmo tempo que a partir de sua narrativa essa coisa comum ganha novas cores. A vida palpável, aquela real que ao mesmo tempo parece tão distante e tão próxima do poder é seu combustível?

A.S: Sempre gosto de pensar que o mais trágico, nos seres humanos, é que nossas tragédias quase sempre são de pouca monta, raramente atingem os níveis de uma ópera ou de um poema condoreiro. É justamente na vida real, nesse acúmulo de pequenas tristezas e de alegrias miúdas que se move a humanidade, em que nos movemos todos nós!

LL: 8 - Saindo um pouco do romance, como é a questão de conciliar a vida acadêmica e a de escritor? Quais são as barreiras e as vantagens? Além disso, o autor acadêmico não acaba tornando-se seu crítico mais voraz?

A.S: A vida acadêmica é um obstáculo de monta, não apenas pelas burocracias a que nos acorrenta, mas também pela sedução do jogo intelectual, do prazer da descoberta e da expressão de ideias de forma mais direta. De outro lado, é uma atividade que me permite escrever e discutir o que se faz em literatura. Não me veria conseguindo fazer isso se tivesse seguido minha formação inicial de engenheiro eletrônico.

LL: 9 – Aproveitando que discutimos para além do seu livro, em sua experiência tanto como autor, mas também como leitor e acadêmico, como você observa a literatura brasileira hoje?

A.S: Questão difícil, pois corro o risco de jogar generalidades aqui que qualquer exemplo específico vai pôr facilmente por terra, além de convidar reações mais educadas ou menos respeitosas. Prefiro pensar que, como sempre, há má literatura, literatura mediana e boa literatura. Talvez o grande problema esteja justamente do lado da crítica, quer dizer, da possibilidade de qualquer leitor poder dizer se a obra é má, mediana ou boa. A literatura parece que está imitando, cada vez mais, o impasse das artes plásticas, em que se está condenado a dizer que tudo é bom. Esse vale-tudo é o que de mais pernicioso pode acontecer às artes!

LL: 10 – Para encerrar, Circo, através das suas distintas vozes, retoma a força e o poder das estórias, tanto daqueles que contam, como daqueles que param para ouvir, não fosse assim, nem Tito, nem Adilson conheceriam o desfecho da trama. Precisamos voltar a ouvir e contar estórias?

A.S: Acho que seria impossível que parássemos! A espécie humana é o que se poderia chamar de homos narrativus, oscilando frequentemente para o homus poeticus. Contar histórias, nos colocarmos diante de nossas emoções, de nossas inquietações existenciais, isso faz parte do ser humano, não consigo ver diferente. Se me mostrarem que não é assim, pediria demissão da humanidade!

2 comentários:

  1. Impecável beijos no coração, sua prima Neya Ramos.

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  2. Acredito que contar histórias nos ajuda a despertar o que temos de melhor. Gratidão pelas suas histórias, elas tocam fundo no meu coração! Beijo carinhoso da sua irmã Nady, com muita saudade.

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