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10 Considerações sobre Circo, de Alckmar Santos ou sobre o prazer de ouvir boas estórias

O Blog Listas Literárias leu Circo, de Alckmar Santos publicado pela editora InVerso; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 – Circo é uma prosa notável de um autor desconhecido do grande círculo literário, mas que certamente poderia e deveria estar entre os principais nomes da literatura brasileira pois sua obra carrega ares de alta literatura e com a qualidade poucas vezes vistas, mas na literatura contemporânea comprometida;

2 – Composto por três vozes distintas que interligam-se com o transcorrer do romance, a obra retoma – ou reforça – a tradição das estórias em nossa literatura, num trabalho calcado na oralidade e de riqueza estilística que conduzem o leitor pelos caminhos narrativos da trama. Além disso, o fato de essas vozes constituirem interlocutores entre si, mas que o leitor muitas vezes pode assumir o papel do interlocutor ouvinte, acaba construindo uma grande intimidade com os protagonistas;

3 – Do mesmo modo o que torna a leitura ainda mais intensa é a palpabilidade das personagens e de suas vidas. Ao iniciar a narrativa com os dois estranhos que encontram-se num bar e que passam a dedicar-se as reminiscências de suas vidas somos colocados diante da grandeza das vidas pequenas, e com isso nos colocando diante um romance tocante, envolvente e emocionante do seu princípio ao fim;

4 – Temos entao Tito (Os nomes os leitores vão tendo acesso na parte final da narrativa), um velho a contar sua história, na verdade uma coleção de dramas e perdas que começa no ano de 1964 quando é torturado pela suspeita de ser subeversivo e então dem de partir da pequena Silveiras, São Paulo e dar início a sua diáspora dos perseguidos, peregrinando pelo Brasil e pelo mundo junto com uma companhia de Circo;

5 – As personagens e as vidas humanas que saltam das reminiscências do velho são então de uma delicadeza abordadas pelo autor que parecem existir de fato, além de que por intermédio de suas existências, complexidades e diversidades os leitores vão construindo a imagem de pano de fundo que fala de uma época delicada, com maior ou menor grau de opressão conforme a capacidade de o homem em fuga distanciar-se dos problemas no poder;

6 – Se no primeiro locutor temos alguém marcado pela tragédia, mas capaz de resistir de uma forma equilibrada, no outro, Adilson, um homem de meia idade colecionador de fracassos temos então uma voz tomada pela fantasia e pela ilusão cuja relação com a vida se dá muito de forma platônica com a dificuldade dele discernir aquilo que de fato foi experiência e tudo aquilo que ele teria gostado de ter vivido, nublando em muitos momento seu discernimento entre o real e a fantasia de modo que o próprio diagnóstico do fracasso fica comprometido;

7 – O encontro desses dois, não somente nos levará a um desfecho, que diga-se, pela parte final até se torna previsível, mas também possibilita o desfilar de questões humanas apresentadas em todas suas complexidades e contradições e que impregnam suas personagens de modo brilhante e cuja manufatura da arte literária vai enriquecendo com sua linguagem e com a subjetividade capaz de jogar tudo sob a janela fosca que é a literatura capaz de instigar o leitor ao pensamento;

8 – Aliás, um detalhe interessante do romance está na linguagem. Sua prosa é dotada de muita fluidez e lirismo, e ao mesmo tempo que registra fortemente a marca da oralidade, também abre espaço para diferentes neologismos que escancaram o compromisso do autor com as palavras. Todavia, é um romance dos que não temos visto surgir, inclusive a primeira impressão é que temos em mãos obra de tempos em que a literatura era encarada com outros olhos, com outros compromissos, fato que a muitos leitores pode até causar estranhamento porque Circo para um lançamento deslocado no tempo;

9 – Mas acima disto tudo, certamente entre as questões da obra, uma das reflexões mais importantes está como a violência e a opressão das forças autoritárias podem afetar a vida de qualquer um de nós, por mais simples e singela que seja, e com isso nos forçar a uma resistência em meio ao trauma e a tragédia pessoal capazes de transformar o mundano numa grandiosa fuga que no caso do livro pode representar vidas inteiras. Além disso, demonstra com grande capacidade como uma questão aparentemente distante e própria do cume do poder pode liberar seus pequenos monstros de modo que ninguém fica de fato a salvo porque seus inimigos podem estar muito próximos;

10 – Enfim, Circo é um clássico contemporâneo que fisga o leitor pelo tradicional encantamento das estórias. Imbuídos pelo dom de Sherazade, seus narradores fisgam-nos para suas vidas, suas jornadas e pelos ambientes por qual passam. Os cenários constroem-se em nossas mentes, o drama toca-nos como poucas vezes, e eu particularmente, me via sempre imaginando a triste e sorumbática vida de Tito sendo filmada em película, o que renderia certamente um grande filme. Esta é uma obra para quem busca novidades literárias de grande qualidade, pois aqui temos vozes marcantes e originais como poucos vezes temos visto entre lançamentos contemporâneos.

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