No post de hoje o Listas Literárias entrevista o escritor Leonardo Menegatto, autor de Na estranha imagem entre nós, que lemos e recentemente, e também do novo livro Compêndio das Grandes e Pequenas Existências, recentemente lançado na FLIP. Neste post conversamos com o autor sobre Na estranha imagem entre nós e a literatura de modo geral, confira:
1 - L. L.: Primeiramente, parabéns pelo livro. E aproveitando, o que te levou à literatura? Por que lemos o que lemos e escrevemos o que escrevemos, em tua opinião?
L. M.: Eu sempre gostei de literatura e de escrever, mas, antes da carreira como escritor, tinha optado pela vida acadêmica e parece que algo me faltava. Na minha opinião, lemos o que lemos porque, num primeiro momento, apresentaram-nos uma visão de mundo e, a partir dessa visão, começamos a também escrever — às vezes até como gestos, antes da literatura propriamente. Acredito que isso influencia o que passamos a, num segundo momento, consumir em geral como arte. É mais do que uma vivência baseada em escolhas. Mas então passamos a escrever mais sobre aquilo que toca em cada um e, nesses exercícios, sentimos necessidade de outro tipo de leitura. Eu diria que é nesse terceiro momento que passamos a escrever e a ler numa espiral muito pessoal e criativa, com significados ainda mais profundos
2 - L. L.: Aliás, em sua biografia você comenta ter cansado de ler artigos científicos como motivação para o lançamento de seu primeiro trabalho, o infantojuvenil A fantástica aventura de Ferdinando. Como foi isso e de que modo a ficção também pode estimular o interesse pela ciência? Como observa esses dois aspectos da leitura?
L. M.: A necessidade de mergulhar na ficção aconteceu para mim como um ato de completar uma vivência muito cartesiana, de ir além do preto no branco. Isso tem um aspecto muito pessoal. Mas existe o exercício mais coletivo de forjar nas imagens palpáveis da ciência uma figura mais poética. E também existe o exercício contrário: o empreendimento da imaginação refletido nas propostas da ciência. Nesse último caso, não são raras as situações de hipóteses científicas que vieram de ideias literárias (por exemplo, a Hipótese da rainha vermelha), de sonhos (a solução para o anel benzênico), da livre-associação observacional (a invenção da PCR) e todos os relatos de como pesquisadores chegaram a diferentes artigos originais.
3 - L. L.: Mas adentremos ao lançamento em questão, "Na estranha imagem entre nós". Podemos dizer que há muitas coisas das quais é possível interpretar a obra, seja a amizade, como tem sido recebido por muitos leitores, mas também uma grave crise da disrupção do "eu". Como avalia esta última questão?
L. M.: A disrupção do “eu” é tema literário comum, que acredito ter se intensificado com o advento da modernidade. Então a obra é comum nesse sentido e no sentido de crítica à própria modernidade. A efemeridade do moderno é somada à crise de como nos reconhecemos. Também existe um aspecto bastante pessoal de quando escrevi o livro, em relação ao questionamento das minhas próprias relações, aparecendo nesse lugar de desconstrução e reconstrução.
4 - L. L.: Obviamente, partindo de nossas percepções e leitura, há um "eu" em crise, entretanto, de um modelo muito específico de "eu", que em nossa resenha do livro chamamos "modelo H". Era a intenção inicial abordar a crise de masculinidade de um modelo específico?
L. M.: Sim. A ideia do livro surgiu da crítica ao dito “modelo H”, mas na construção específica do que um homem busca em suas relações diante da própria ideia de masculinidade. A reflexão crítica à modernidade, porém, veio com o fluxo do texto enquanto eu entendia a disrupção do “eu” do personagem. Foi nesse aspecto que nasceu a crítica da obra: o homem moderno destruído pela culpa na modernidade que não encontra saída senão pela empatia ao reconstruir os contornos do outro a partir de um exercício obsessivo.
5 - L. L.: Além disso, se há fratura desse modelo, não podemos negar que trata-se de um modelo construído e erigido dentro de um sistema capitalista e patriarcal. São as pressões desse modelo que tensionam seu protagonista a tal ponto de buscar insistentemente apagar uma latência íntima em busca de adequação ao sistema em vigor. É isso mesmo?
L. M.: Exatamente. Esse é um ponto importante porque, mesmo que a crítica se faça à luz da intensificação da crise encontrada na modernidade, o modelo é anterior à própria modernidade. O modelo já existia na distinção vista a partir de “homens de nível” concomitantemente a “homens machões”. E isso é sistematizado no capitalismo, mas é também anterior ao próprio capitalismo, num patriarcado histórico que exerce no homem um peso. Em específico, é trabalhada a crise do homem que fracassa no modelo de masculinidade com as duas nuances. Talvez possamos dizer que a questão se desdobra entre o patriarcado pré-capitalista, o sistema atual e a “cultura” da modernidade em que vive o protagonista.6 - Do mesmo modo, embora seja possível - ao menos em nossa interpretação - uma leitura de sentimentos homoafetivos entre o protagonista e o amigo abandonado, a narrativa busca deixar isto muito mais ao leitor. Essa busca pelas sutilezas e ambiguidades foram caminhos traçados intencionalmente ou foram surgindo a partir da própria narrativa?
6 - L. L.: Do mesmo modo, embora seja possível - ao menos em nossa interpretação - uma leitura de sentimentos homoafetivos entre o protagonista e o amigo abandonado, a narrativa busca deixar isto muito mais ao leitor. Essa busca pelas sutilezas e ambiguidades foram caminhos traçados intencionalmente ou foram surgindo a partir da própria narrativa?
L. M.: A homoafetividade é sugerida propositalmente para questionar o “modelo H”, mas não a relação homossexual. A relação homossexual é só uma vertente dentro da interpretação da homoafetividade e acredito ser resultado de uma das leituras da obra. Do meu ponto de vista, deixar isso em aberto é crucial para que o leitor possa pensar em possibilidades além da ideia de um homem heterossexual do “modelo H” e do homem homo ou bissexual. Estritamente na minha intenção como autor, eu diria que essa crítica é secundária em relação à problematização da amizade utilitária de um homem moderno.
7 - L. L.: Outra coisa perceptível aos leitores é o leitor que precede o autor. O livro além de todo um conjunto de relevantes influências, é elaborado com esmero estético, com uma prosa que muitas vezes assume ares líricos, como uma narrativa que habita as fronteiras indistintas do gênero, conto, novela... enfim, como você observa esses aspectos em sua obra?
L. M.: Julgo natural que o leitor preceda o autor quando há preocupação estética. A forma de comunicar é algo que fiz perpassando o meu próprio modo de escrever. Esse e os meus demais livros não apresentam um gênero específico justamente porque a ideia é brincar com a linguagem. Trabalhar na originalidade da forma é a máxima de que arte é exercício de conhecimento além de conteúdo. Talvez nasça justamente da necessidade de não se prender à rigidez de um artigo científico, numa espécie de exploração de cada fronteira simbólica em cada obra nova
8 - L. L.: E poderíamos abordar ainda a relação com as diferentes formas de arte, a composição do livro além de um lindo projeto gráfico traz belíssimas ilustrações de Carina Mello. Essas escolhas buscam o poético?
L. M.: Completando a pergunta anterior — e isso é também mérito da editora e da própria ilustradora — as opções buscaram o poético e foram centradas propositalmente em algo além do texto. Quando olhamos para as ilustrações, podemos perceber que algumas das associações não estão explícitas nas citações textuais e trazem uma nova dinâmica à obra. Por exemplo, a ideia de um Hércules que derrete enquanto desmonte do “homem com H”, de um inferno vivido por um titã ou, mais chamativa, da associação com a Medusa e com Laranja Mecânica na evitação do reflexo e da violência causada pelo próprio protagonista, que foram pensadas exclusivamente por Carina Mello. Esse tipo de composição aumenta o rol de associações do leitor na própria experiência artística.
9 - L. L.: Não poderíamos deixar de terminar nossa conversa sem questioná-lo sob qual seu ponto de vista sobre a literatura? Como se deu essa relação - entre vocês - e, embora já tenha compartilhado algo, o que considera indispensável no vasto mundo literário que todos nós deveríamos conhecer?
L. M.: Meu ponto de vista sobre a literatura sistematiza as respostas anteriores. Enquanto qualquer arte, estou preocupado com forma e conteúdo. É justamente no empreendimento da escrita criativa dialogando com a história e as outras formas de expressão que vejo o nascimento de pontos soltos. Esses pontos soltos são indispensáveis para que o leitor crie suas próprias analogias, além de suas interpretações, de maneira a produzir algum tipo de sentimento que leve a novas criações. Não que eu seja pretensioso de que alguém leia o meu livro e pinte um quadro como consequência, por exemplo, mas é a maneira como eu entendo o que fiz — a partir da metalinguagem de outros textos que fiz o meu. Sempre que consumo arte, penso em nova arte e aí mora a minha relação. E sobre o que considero indispensável no mundo literário, respondo numa dualidade que julgo mágica no processo criativo, independentemente de o leitor ser artista: procurar pelas propostas mais exóticas possíveis sem nunca fugir totalmente dos clássicos.
10 - L. L.: Para finalizar, quais são as expectativas do Leonardo Menegatto enquanto autor? E como analisa a literatura contemporânea brasileira à luz de sua própria experiência enquanto escritor?
L. M.: Minhas expectativas conversam no sentido de brincar com outros exercícios de linguagem. No meu infantojuvenil citado quis contar a história de um menino que cresce com o texto e cujo autor se reconhece dentro da história a partir de um determinado momento; em Compêndio das grandes e pequenas existências, na própria evolução histórica de contar um ponto de vista; e nas obras que estou produzindo, na ideia de fundir ciência e arte, olhar para dentro e olhar para fora etc. Analiso a literatura brasileira contemporânea como um mar dessas possibilidades enquanto novas vivências que emergem nos textos — sobretudo em relação a pessoas que convencionalmente não tinham oportunidade de escrever para grandes públicos — mas tenho receio de que a ânsia em passar uma mensagem possa, algumas vezes, estar condicionada à não preocupação com a forma de se fazer.

Excelente entrevista do Leo Menegatto! Parabéns 👏👏👏
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