O blog Listas Literárias leu Na estranha imagem entre nós, de Leonardo Menegatto publicado pela editora TAUP. Neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre este livro em que encontramos um homem um tanto incomum, confira:
1 - Parafraseando pelo reflexo contrário, não se nasce homem, torna-se homem (ou te tornam e definem como - e o que é um homem). A frase de Butler tão mal-entendida pelos radicalismos, se inversa, também carrega certa viabilidade de compreensão. De certo modo é o que parece ser o centro dessa narrativa em que a pressão externa, os códigos existentes e em permanente vigência fazem do homem não um eu, mas uma categoria a filiar-se - ou a ela ser filiado. Um código opressivo e dilacerante: "Eu sinto as vontades mais lascivas do fetichismo do mercado. Eu sinto a necessidade de me impor perante aos desafortunados. Eu sinto a vontade de vencer a vida como um homem com H deve vencer. Eu coloquei o império acima de tudo..." exclama com angústia a voz em primeira pessoa do narrador. Aqui uma figura intranquila diante a "obrigatoriedade" do tornar-se homem. Contudo, aqui se deve reforçar que a ideia do tornar-se homem aqui está um campo oposto à proposição de Butler, pois o torna-se nesse caso de uma exigência de filiação, é aceitar a forcéps "o império" do homem com H. Para o narrador então essa metamorfose do "tornar-se" tal qual um pesadelo de Kafka;
2 - Dito isso, grosso modo Na estranha imagem entre nós existe na fronteira entre o conto e a novela, quiçá muito mais com os pés no primeiro. Queremos dizer que para além de ser narrativa curta, carrega outras características do conto qual é tributário, A metamorfose, de Kafka. Todavia, embora estejamos na obra de Menegatto também diante de outra metaformose, como já dissemos, esta um tanto quanto distinta daquela em que se inspira. A intranquilidade aqui, mais do que pesadelo da inefável solidão humana, é signo da culpa de um homem - e sua "alma" - que se tranforma, ainda que pela dor e pela angústia de um autorreconhecimento atroz diante um espelho denunciador de todas vicissitudes que encara em uma espécie de monólogo interior;
3 - Não que não haja diálogos, fique-se claro, falamos aqui da predominância, da percepção de que toda a narrativa em primeira pessoa deste narrador-protagonista salta-nos como um grande monólogo de um eu que se fragmenta diante a percepção de sua existência incômoda filiada a um conjunto formativo de um código que o faz ver-se então enquanto ser abjeto. O catalisador deste drama íntimo é a ruptura de uma amizade. A partir da fuga, do abandono do outro esse eu-narrador então começa a perceber-se como antagonista dessas histórias entrecruzadas, a dele, a do amigo, etc. E na verdade toda a narrativa é isso, um ser diante um espelho denunciante da própria deformação - ou invisibilidade - que sofre a partir do episódio do abandono ao amigo. E tudo isso por meio de uma linguagem alicerçada na riqueza das influências que traz, na construção metafórica e filosófica de como não só compreende, mas também descreve sua existência;
4 - Mas por que utilizamos a ideia de tratado de um homem incomum? Por que o incomum aqui é o reconhecimento da falência da categoria a se filiar, a do "homem com H". O que o protagonista coloca em debate é justamente a pressão exercida por essa espécie de código de conduta do "tornar-se homem", ser pleno e totalmente fiel ao paradigma do "homem com H". Não o H de Ney Matogrosso, o H sempre hipotético, mas dominante - e condicionante - das condutas sociais de um modelo do que viria a ser um homem exemplar. Incomum no caso de nosso narrador pelo fracasso em "tornar-se", já que, mesmo que passe a adotar a conduta, a seguir regra por regra do Clube do Patriarcado, em seu íntimo o incômodo para com esse modelo. Incomum pelo fato de que no caso desse narrador, a despeito de sua possível suposição de já ter tornado-se esse "homem com H", justamente a culpa e os eventos autodenominados de realismo fantástico, o fazem incomum, já que essa espécie de autocrítica dificilmente encontramos por aí;
5 - Mas antes de prosseguirmos, gostaríamos de fazer uma ressalva quanto a autofiliação da obra dentro de um realismo fantástico. Pode-se de algum modo concordar com isso, já que, em literatura toda fronteira é sempre muito líquida. Entretanto, para nós, estamos muito mais diante de uma jornada íntima e mergulho psicológico expresso por meio de imagens simbólicas e alegóricas que propriamente realismo fantástico. Em nossa concepção é justamente a percepeção do que está tornando-se que mergulha o narrador em uma espécie de pesadelo erigido por sua autoconsciência. E aqui o elogio à profundidade e à qualidade estética de uma obra que trabalha a linguagem com todos os seus importantes recursos e sabe como poucos autores de nossa literatura contemporânea navegar pela ambiguidade, o que só enriquece a experiência dos leitores;
6 - Voltemos a este narrador-protagonista. A narrativa toda ela composta de sua relação com o outro, seja sua namorada, seja seu amigo, aquele que abandonou. Nesse episódio inicial da ruptura em seu monólogo o narrador vai trazendo essa busca do "tornar-se" aquilo que o código lhe impõe. A própria relação heteronormativa aqui trazida como imposição, já que menos uma relação de amor e paixão, a namorada é vista como bilhete de acesso, alguém indispensável à imagem desse "homem com H" exitoso. O sucesso, para ele, resumido em adequar-se ao código, de modo que cada movimento, cada atitude, tudo passa a ser um movimento ao "tornar-se o código";
7 - Para isso, porém, nada de amizades e relações que não cumpram com o esperado, que contrastem com a imagem. O sucesso não lhe permite aquele tipo de amizade tão contrastiva. Mas diga-se, nada na narrativa é explícito, o contraste nos chega pela ambiguidade e pela suspeição desse narrador em primeira pessoa. Rompe com o amigo (também não nomeado), por ele ser o oposto do que ele (narrador) precisa ser para "tornar-se", contudo, tirrando as diferenças sociais e de pele, pouca coisa de fato é explícita entre suas diferenças, mesmo sobre tudo aquilo que cria o enorme leito de rio entre as duas margens;
8 - Nesse aspecto ficamos permamentemente no campo das insinuações. As possíveis intenções homoafetivas do narrador, por exemplo, à mercê de cada leitor diante seus movimentos de repulsa e atração. O que há de fato entre ele e o amigo ou o que de fato foi o fator último a afastá-lo do então amigo sempre no campo das hipóteses. Mas inegavelmente as pistas linguistícas poderiam apontar para certa pressão da heteronormatividade do narrador, porém, parece-nos mais complexo que isso. De certa forma o que há aqui é a demonstração da pressão exercida pelo monopólio do código e seus paradigmas, ou seja, tudo que não adere em todos os sentidos às exigências do modelo "H", é relegado ao pária, ao fracasso, à negação do imperioso "tornar-se" homem;
9 - Nesse sentido, essa curta narrativa é uma das belas e intensas problematizações dessa masculinidade modelar. Esse conto nem tão pequeno coloca em debate a pressão e opressão exercida na obrigatoriedade da metamorfose. A obrigatoriedade do "tornar-se" conforme o dito do modelo. A persona esculpida para reproduzir os ditos, desejos e objetivos do império do patriarcado. Assim, o homem incomum, aquele que imagina poder ou não querer filiar-se ao código, é jogado a um perigoso jogo de sensações e sentimentos. Para se tornar figura fiel ao "modelo H" é perverter a própria essência, no caso deste narrador. Nessa perversão o espelho então nos [lhe] revela a monstruosidade da imagem que se é e com isso a descida aos círculos do inferno é a descida dentro de si mesmo, um mergulho tenebroso no íntimo do ego;
10 - Enfim, Na estranha imagem entre nós mergulha no estranhamento de uma existência pressionada por um código que precisa ser posto em discussão. Um código que oprime e ao cabo revela-se em sua abjeção que no casso do homem incomum deste conto vem refletido enquanto mostruosidade e abjeção. Composto por imagens fortes, que flertam com o poético, a despeito de narrativa curta, é um destes textos que demanda por parte dos leitores introspecção ao olhar crítico cuja narrativa expressa acerca de uma masculinidade em discussão. Nesse quarto de espelhos a deformação da metamorfose que se confessa abjeta e cujo protagonista sofre com o espelho de um "possível" futuro de seu "tornar-se" conforme o "modelo H". A dor e a angústia desse protagonista incomum diante da imagem em refração do abjeto-ser é um sopro de esperança quanto a possibilidade de se discutir, debater e questionar um modelo etéreo e fantasmagórico que opera o terror naqueles que não coadunam com o que está do outro lado do espelho. Em suma, uma leitura que faz-se relevante neste momento em que a masculinidade deve ser problematizada diante da falência desse "modelo H", cuja decadência tem se mostrado estriônica.



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