Quicando, cambada! 10 considerações sobre Tropas estelares, de Robert A. Heinlein

O blog Listas Literárias leu Tropas Estelares, de Robert A. Heinlein publicado pela editora Aleph. Realizamos esta leitura utilizando a incrível biblioteca do MEC Livros onde você pode ler grandes obras da literatura sem pagar nada por isso. Confira neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre este livro bastante polêmico:



1 - Um mundo organizado sob uma lógica militarista e duvidosa experiência democrática é uma das polêmicas envolvendos Tropas estelares, ficção muitas vezes rechaçadas devido seu extremismo de direita, é, antes de tudo, uma narrativa que faz sentido nossa leitura, justamente para questionar e apontar falhas em sua argumentação que, acima de tudo, parece-nos erguida sobre uma ingênua e romântica utopia, pouco crível justamente por estar imbuída em certa crença em valores éticos e morais nobres e desconsiderar aquilo que historicamente insere-se no seio de toda sociedade: a corrupção humana e sua afeição por privilégios;

2 - A obra se passa em um futuro incerto, mas certamente um bom tempo após o século XX, que assim como no filme Matrix, surge como auge e bancarrota das sociedades humanas. O século XX por ser o presente da escrita, obvimente, é o espelho o qual molda o futuro dessa ficção científica, que em grande parte observa com certo pessimismo as democracias irrestritas do século. E aqui temos um elemento que, inclusive, faz-se importante a leitura do livro para além de qualquer ranço anterior. Se, de um lado o livro apresenta um sistema novo e pouco democrático, amparado em puro militarismo, de outro, a narrativa não apenas demonstra certa relutância para com a democracia no centro da sociedade norte-americana, como também pode representar um olhar para alguns mecanismos de correção necessária, pois ao apontar seu olhar crítico para o sistema, não deixa Heinlein de tocar em problemas pouco digestos, mas que precisam ser pensados;

3 - Mas antes de adentrarmos a isso, falemos um pouco do livro. A obra é narrada em primeira pessoa pelo oficial Johnnie Rico. É ele que inicialmente descreve essa sociedade dividida entre civis e militares, sendo que o voto, máxima identidade de cidadania, é algo a ser conquistado por meio do trabalho voluntário às forças militares da Federação Terrana. E tal direito só é exercido após cumprimento mínimo do dever. O mundo que vive Rico carrega traumas de grandes guerras, inclusive posteriores à Segunda Guerra Mundial. Guerras em grande parte apresentadas pela obra devido às falhas das democracias irrestritas, a corrupção social que as fez naufragar, ao fato de serem sociedades de direitos, não de deveres, e especialmente pelo fato de o voto ser universal e direito de todos. Aqui aquela velha afeição de alguns em desvalorizar o voto alheio sob a crença de que alguns sabem votar melhores que outros. Aqui puro suco de direita, entretanto, tratado de uma forma um pouco mais complexa, já que há certo afã de valorizar a cidadania e o voto;

4 - Nesse novo sistema os civis levam as suas vidas, os militares - que também não votam - lutam as guerras que os mandam, e os cidadãos plenos, votam e organizam a política do lugar. Bem, e aí já temos um problema com a narrativa, que visto como perfeição seu sistema político, isso é feito apenas de forma parcial pela narração de Rico, um militar que vai rememorando sua progressão de carreira, mas que como todo militar com informação compartimentada, é incapaz de compreender ou de trazer à luz os movimentos políticos que o movimentam como um títere. Ou seja, embora o narrador busque decrever a prefeição do novo sistema em comparação ao fracasso das democracias anteriores, sua visão é extrememante limitada e isso com o peso de dois fatores;

5 - Primeiro que Johnnie Rico começa a trama como um jovem civil de família abastada e que mostra-se, ou tenta mostrar-se como um playboy inconsequente, prestes a terminar os estudos médios e chegar à idade de possível voluntariado. Refletir sobre a política de seu sistema vigente nunca foi o grande ponto, e estava quase que destinado a adentrar a vida civil e cuidar dos negócios da família. Entrar para o exército, contudo, lhe é quase uma brincadeira e uma forma também de afrontar o pai, com quem rompe, devido ao seu voluntariado, É uma espécie de escolha inconsequente, de modo que, a seu modo, não deixa de ter o livro, também lá suas intenções de romance de formação;

6 - Logicamente, para apresentar sua utopia carregada de fetiches, Heinlen entrega-nos uma narrativa de aventura, pois que Johnnie Rico é um militar espacial em um sistema interplanetário em que a Federação Terrana está em guerra com uma raça alienígena insectóide. Mas não nos enganemos, a ação, a exploração inóspita, tudo isso está a serviço da teoria social que pretende defender a narrativa, nesse caso, um fetiche muito caro ao pensamento de direita: um império central [toda a terra é governada pela Federação Terrana] intrinsicamente colonizador, pois o exército e a marinha ali estão tanto para "proteger" o planeta, como expandir a colonização pelas galáxias. E dissemos fetiche de direita porque diferentemente do pensamento distópico como em Admirável Mundo Novo em que o Estado Mundial é visto com tintas negativas, aqui, a Federação Terrana é vendida como sistema perfeito em comparação aos fracassos das democracias "irrestritas". Em grande medida, ainda que confesse-se não sabedor das engrenagens do sistema, a narração de Rico é construída como modo de defender o sistema vigente em seu mundo;

7 - Entretanto não será o narrador, Juan Rico o principal porta-voz das ideias que permeiam a visão do autor, Robert A. Heinlein. A discussão do sistema, sua defesa e contundente contra-argumentação aos sistemas anteriores virá em grande parte pela voz do professor de História e Filosofia da Moral, Dubois. Senpre que se necessitar discussões pedagógicas, ele virá, inclusive contrapondo de Platão e sua República aos conceitos de democracia do século XX. Não que seja de todo um desperdício, afinal, ele consegue apontar para alguns questionamentos relevantes sobre as democracias, inclusive a noção de irrestrito, já que como ele mesmo demonstra, em todas elas, não há uma totalidade do direito ao voto. Contudo, os defeitos do sistema democrático aqui não são trazidos em busca de sua melhoria, mas mero meio de justificativa e defesa de teses militaristas ancoradas tão somente na força e na violência. Nesse sentido, o que vemos aqui em uma obra dos meados do século XX são os mesmos medos, traumas e incapacidades que temos visto ressurgir no princípio deste século XXI;

8 - Mas curiosamente não se pode dizer, embora crítico, a narrativa faça, por exemplo, um rompimento geral com o comunismo. Pelo contrário. Em certo momento um oficial inclusive verá com bons olhos o comunismo aplicado na força militar, já que os inimigos, os insetos Klendathu são uma espécie de colméia comunista inteligente capaz de descartar qualquer peão em nome do conjunto. Ou seja, em suas camadas mais profundas, há uma adimiração que reduz o indivíduo ao coletivo. Aliás, essa é a base do próprio sistema, já que, nesse caso vendido como utopia por seus emissores, é um sistema livre de contestações, o coletivo da Federação se sobrepondo. Aliás, a coletividade se sobrepõe em diferentes camadas, já que o exército surge como mais um exemplo disso, pois seria crime capital por o coletivo em risco. Em grande medida "os macacos" [termos da narrativa para soldados] também são descartáveis como os insetos, embora se deixe transparecer que a recolha os faça diferente. Na prática, nada muda, e soldados são números, e não raro muitos deles são calculados como cota a se perder ou entregar. Mas tudo isso, claro, está muitas vezes no implícito, naquilo que o narrador não consegue esconder. Aliás, vale destacar que estamos falando de um tópica narrativa militar que vai do alistamento à formação dos recrutas e perpassando pelas batalhas do soldado que progride em campo e fora dele, nesse caso;

9 - Todavia, a essa altura precisamos retornar à ideia de ser o livro uma utopia romântica e ingênua. Na descrição da perfeição do sistema vigente, Rico o traz de modo a realmente elaborar uma utopia-militarizada. Em seu mundo tudo funciona por que não há questionamentos, mas acima de tudo, apenas virtuosos. Historicamente sabemos que nenhum sistema construído escapa das pequenas e grandes corrupções humanas. Em seu mundo ideal, oficiais são oficiais pelo mérito, pelo combate, nenhum encontra uma brecha para facilitar a própria vida. Do sistema político, então, desse praticamente nada se sabe, a não ser que são eles que gerenciam toda a vida política e social da Federação Terrana, seja a política de colonização, das guerras. E toda confiança é estabelecida no fato de que os cidadão tiveram de lutar pelo seu direito ao voto. Como se isso fosse suficiente. Entre os vários pontos que se podia demonstrar é justamente o tempo e o desgate que passa todo e qualquer sistema, de modo que a única coisa de fato a segurar as pontas aqui é o fato de ser um sistema ditatorial em que uma pequena parte com o suporte da força estebelece um simulacro de estabilidade;

10 - Enfim, entre a aventura e a especulação de um futuro colonizador e intergaláctico, Tropas Estelares reverbera o puro suco do comportamento humano imperialista e colonizador e tudo isso a partir dos anseios e medos de um autor que pela voz de seus personagens demonstra incapacidade de encontrar caminhos que não o da violência e da força. No fundo, toda a aventura e certo heroísmo questionável são pano de fundo para expressar ideias pautadas na dificuldade de correlacionar a balança entre direitos e deveres. Além disso, expressa um velho conceito - e equivocado - de que alguns votos são mais sábios e melhores que outros. Esse elemento, aliás, presente tanto na esquerda quanto na direita. Heinlein oferece-nos uma utopia que só se sustenta em uma sociedade amorfa tal quel seus personagens. Na verdade, a maior ambiguidade encontra-se justamente em seu narrador, Rico. Não há nele, embora se tente disfarçar, qualquer individualidade, de modo que é exímia peça em regimes totalitários. Mesmo com as graduações que aufere ao longo da carreira, não deixa de ser uma mente tosca e limitada incapaz de conhecer as engrenagens a maquinarias de todo o sistema a que pertence. É mais um em uma espécie de grande fábrica-industrial colonizadora. Tudo que sabe é compartimentado e limitado. Sua utopia - e assim o é porque os emissores da ideia de Tropas Estelares assim a veem - traz intimamente tudo aquilo que caracteriza estados distópicos. Uma asséptica sociedade cujos valores morais ingenuamente concebem que a natureza humana é muita mais complexa, inclusive quando se trata de pensar a violência e a força. E é justamente por tudo isso que precisamos e que vale ler tal obra, pois, há nela um modelo, e cabe a nós, pessoas críticas e dotadas de criticidades, analisar tal, cuja desconstituição se dá pelo discurso, nunca pelo silêncio.

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1 Comentários

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