10 Considerações sobre A sombra do vento, de Carlos Ruiz Zafón ou sombras às ramblas

 O Blog Listas Literárias leu A sombra do vento, de Carlos Ruiz Záfon publicado pela editora Suma; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro ou sobre sombras que movem-se pelas ruas e pela história. Confira:

1 - Enérgico e pulsante, A sombra do vento é um tecer, um entrelaçar de histórias que ligam-se pela tragédia e à sombra dos tempos sombrios pelos quais movem-se seus personagens, estes de uma palpabilidade quase humana, algo que a literatura nos é capaz de proporcionar: tornar-nos íntimos por quanto durem e para além delas essas identidades ficcionais que bem poderiam ser pessoas que conhecemos no decorrer da vida;

2 - O romance parte de uma narrativa composta por uma boa dezena de camadas que imbricam-se no avançar da leitura de tal modo que a teia muito bem traçada pelo autor-aranha em sua diversidade de vozes ecoa o mundo percebido pela voz do garoto Daniel Sempere, que apresentado ao pai ao Cemitério dos Livros Esquecidos, inicia uma jornada ao mundo da literatura e ao mundo que o cerca, de tal modo que fica nítido ao leitor que estes dois mundos co-habitam um universo partilhado;

3 - Como mote, a curiosidade juvenil ao deparar-se no "cemitério" com um livro carregado de mistérios envolvendo seu autor, Julián Carax. Ao descobrir neste espaço um exemplar de A sombra do vento, os anos que seguem-se, estamos falando da década de 50 e anteriores, Daniel Sempere iniciará uma perigosa jornada na tentativa de desvendar os mistérios e segredos acerca de Carax, e a cada avançar do tempo, a evolução gradual da tensão e do perigo e ao seu trecho final, as consequências muitas vezes nefastas de entrar em algo do qual se desconhece tudo, inclusive os riscos em sua procura aparentemente sem perigos;

4 - Quando falamos em camadas o dissemos pelas diferentes possibilidades de percepção e discussão da narrativa. Uma delas, para além dos elementos de evocação à literatura, o caráter de romance de formação que está impresso no romance. Trata-se sem dúvida de um romance de formação, temos as descobertas e acima de tudo a transformação, a passagem transcorrida de um Daniel que deixa a infância e a juventude para entrar no sombrio e tenebroso mundo humano e as criaturas contraditórias que a história pare. Tal característica é potencializada pela voz em primeira pessoa de Daniel, mas que aqui deve-se ressaltar: embora uma narrativa em primeira pessoa e com as limitações dessa escolha narrativa, Daniel incorpora em seu narrar a voz de muitas outras pessoas, transformando em uma narrativa múltiplas narrativas, de modo que outras vozes ecoam e muito pela voz de Daniel Sempere;

5 - Do mesmo podemos falar nas características de romance histórico que impregnam o livro de medo, horror e sangue. Ambientado em uma Barcelona em suas décadas mais sombrias e com os urubus de uma Guerra Civil alimentando-se da morte, o plano de fundo da narrativa talvez seja a principal ou maior intenção do autor em questionar os horrores da guerra e desnudar no que as pessoas tornam-se em tempos bélicos. Os destinos entrecruzados e cortados pelo conflito, o silêncio dos comportamentos questionáveis e especialmente por meio de Fumero uma abordagem dos tipos de criaturas que são paridas ou que se alimentam da guerra é talvez, de uma maneira sutil a mensagem mais impactante da narrativa;

6 - Isso porque, a despeito do sucesso de Zafón com a crítica, a superfície da narrativa - tirando-se dessa matemática a mística sobre a literatura e os livros - mostra-se aparentemente folhetinesca e popular, ancorada, aliás, no mais básico do folhetim gótico com suas tragédias e criaturas marcantes que andam pelas sombras e pelas névoas com suas reviravoltas e descobertas com intenções de pregar este ou aquele susto ou referindo-se ao velho drama humano do misticismo e das crenças que em ruas desertas ou casarões amaldiçoados pode soar sempre como o inferno;

7 - Aliás, é justamente esse caráter folhetinesco (o que acaba sendo muito atrativo) que de certo modo, ao leitor, no avançar das páginas poderá soar um tanto previsível, ao menos a este leitor. A bem da verdade, a cada avanço de Daniel Sempere em sua busca por Carax o leitor mais que o próprio narrador vai intuindo nessa espécie de procura detetivesca o que aconteceu, de modo que as revelações quando chegam, especialmente ao leitor mais assíduo, já não o serão revelações, mas confirmações de suas desconfianças. Isso, contudo, não retira em nada o valor da obra, especialmente tendo em nossa desconfiança que a verdadeira mensagem de Zafón esteja ao fundo, à tragédia maior...

8 - Além disso, voltamos a ressaltar a potência dos personagens trazidos por Zafón. É bem sabido que são os personagens inesquecíveis que fazem de uma obra aquilo que ela é. Quanto mais desconfiamos da possível existência real daqueles personagens, provavelmente melhor o são. E A sombra do vento nos entrega personagens inesquecíveis. Daniel Sempere, o narrador, mas para além dele a este leitor Fermín Romero de Torres, um personagem dos mais icônicos, de frases de efeito e destas pessoas que se encontramos na rua, desconfiamos, saída de uma boa narrativa literária;

9 - Indo para o encerramento desse post, não poderíamos deixar de dizer o quanto o livro é também uma ode à literatura, como mencionamos brevemente. Em uma de suas tantas camadas temos o encantamento das palavras e o poder da literatura e algo a que este blog é muito relevante, "os livros esquecidos". É possível que o Listas Literárias seja guardada as proporções um pequeno cemitério de livros esquecidos. Autores desconhecidos, de pouco tiragem, mas que muito têm a dizer ao mundo. Não sabemos quantos Carax já nos deparamos por aqui, mas é certo que o livro de Zafón declara o poder da literatura, não a literatura que é mercado, que é capital, mas a literatura que é literatura que vaga por aí, muitas vezes à margem, em becos sombrios e leitores exóticos só esperando pelo dia que tal qual o espermatozoide rompe a resistência do óvulo romperá a resistência do cânone adentrando ao panteão dos grandes romances;

10 - Enfim, A sombra do vento é leitura eletrizante, cheia de camadas e possibilidades que conduzem o leitor do princípio ao fim em total submersão ao seu universo. Move-nos pelas ramblas pela voz e olhos de Daniel Sempere pressentindo e experienciando os perigos que os vigiam a cada esquina. Uma grande narrativa, destas obras que é um elogio à literatura e seu poder de descerrar as sombras do mundo.

:: + na Cia das Letras ::


    

1 Comentários

Postagem Anterior Próxima Postagem