10 Considerações sobre O homem do castelo alto, de Philip K. Dick ou o que é real, oráculo?

O Blog Listas Literárias leu O homem do castelo alto, de Philip K. Dick, publicado pela editora Aleph. Neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:



1 - Enigmático e com discussões filosóficas e sociológicas, O homem do castelo alto talvez seja uma das publicações mais estranhas de Dick, e olha que estamos falando de Philip K. Dick. Aparentemente com uma premissa de narrar uma história alternativa especulando o mundo caso o eixo tivesse vencido a Segunda Guerra Mundial, a narrativa dentro da narrativa coloca tal alternativa realidade em xeque, o que é uma tradição em suas obras. Mais uma vez a realidade adentra ponto central de suas narrativas, cuja maior polêmica talvez seja o de justamente problematizar a natureza de vencidos e vencedores pondo em dúvida as grandes diferenças entre uma e outra alternativa;

2 - No romance acompanhamos um certo número de personagens, alguns cujas trajetórias se entrelaçam, mas não se tocam, como dos separados Frank e Juliana Frink. A bem da verdade, parece-nos que tudo na narrativa trabalha em pról do segundo plano, do que está ao fundo dos personagens, seja o cenário distópico e de estranhamento causado pelo mundo dominado e dividido por japoneses e alemães nazistas, seja pelo misterioso homem que paira sobre toda essa nova sociedade e cuja participação na narrativa vai se dando de forma gradativa e linear;

3 - Estamos falando, nesse caso, do homem do castelo alto. Hawthorne Abendsen, autor de um livro banido, especialmente entre alemães - visto que nos territórios japoneses é bastante popular -, Gafanhoto torna-se pesado, cuja premissa é a de que os países aliados teriam vencido a guerra. É justamente essa narrativa dentro da narrativa em que o autor, nas descobertas finais feitas por Juliana Frink vai jogar com a extrema confusão relacionada com a realidade factual. Mais do que isso, pode significar uma crítica ao próprio modelo do pós-guerra construído por aliados, diluindo as grandes diferenças entre um lado e outro;

4 - Juliana Frink, aliás, é uma das personagens acompanhadas pelo foco narrativo do romance. Falando em narração, é preciso destacar aqui o narrador que para além da onisciência, é um narrador em simbiose com as personagens que acompanha, assumindo suas respectivas vozes. No caso de Juliana uma mulher um tanto distinta das demais personagens de Dick, um autor de olhar problemático para com as mulheres. Ainda assim entre a força e a superficialidade, Dick ainda, mesmo numa personagem importante, consegue construir momentos de parvoísse de Juliana. Entretanto, ao cabo, e no conjunto, Juliana sobressai-se e desvenda alguns dos mistérios do tal homem do castelo alto;

5 - Dito isto, gostaríamos de destacar alguns pontos deste trabalho de Dick. O primeiro é o de não só atirar-se à ficção alternativa, mas como a de incluí-la no rol da Ficção Científica. Tal movimento, um dos tantos metaliterários que ocorre no livro se dá num jantar entre Childan e os Kasoura. Betty questiona a associação do livro à FC, enquanto Paul "trata-se do presente alternativo. Existem muitos livros célebres de Ficção Científica desse gênero. Perdoe minha insistência, mas como minha mulher sabe, fui durante muito tempo fanático por Ficção Científica". Além disso, para além das discussões sobre a própria FC, há no livro e na própria proposta da narrativa dentro da narrativa uma declaração de importância das ficções populares e seu respectivo alcance das massas;

6 - Mas acima de tudo podemos dizer que Philip K. Dick analisa em sua ficção as bases estruturais de uma sociedade totalitária a partir das premissas nazistas. O nazismo é pintado em todas as suas abjeções e perversões, ampliadas pelo contraste com a cultura nipônica dominante de seu mundo alternativo. Ainda que Dick nos leve pelas trilhas do "e se..." o faz com todo o testemunho, medos, angústias e provas das ações nazistas de modo que no livro isso apenas prossegue pelo pós-guerra alternativo;

7 - Vale destacar, nesse sentido, que o autor a despeito de o fazer por meio de uma ficção popular, o faz com discussões teóricas profundas. Nesta obra a ficção científica alternativa se casa com a análise social tal como Gafanhoto, a narrativa dentro da narrativa. Com isso, temos um olhar para o abismo, que repercute os ódios humanos e a natureza xenofóbica latente entre as etnias, claro, a xenofobia e o racismo dominante dos brancos, expressos num Robert Childan, amargurado e freado apenas pelas condições momentâneas do poder, louco para sair do lodo em que está;


8 - Do mesmo modo, há de se ater às questões que Dick problematiza sobre a história, mas especificamente o conceito de história a servir como combustível ao fanatismo nazista. Um conceito de história cósmica a que s fanáticos se integram desejando assumir as rédeas desse processo que de modo geral descamba ao genocídio, ao holocausto dos que estes retiram do círculo histórico. Importante destacar aqui o quanto tal análise de Dick ressoa no presente quando testemunhamos o retornar do lodo tais ideias e abordagens da história, o que faz da narrativa de Dick mais uma assertiva e cuja relação com o tempo nos é bastante provocativa;

9 - Vejamos que falamos até agora do que parece-nos essência desse tipo de narrativa. Os romances distópicos têm por caminho muito mais a abordagem social ou sociológica das estruturas de governo e poder que propriamente as maquinações tecnólogicas - o que vimos nas as faz menos ficção científica - e inventos. Nesse caminho, inclusive, poderíamos ver algumas contradições, como o contraste do mundo com foguetes e exploração espacial, mas uma tecnologia ainda parca em solo. Ou seja, nestas narrativas a abordagem sociológica predomina às invenções;

10 - Enfim, O homem do castelo alto talvez seja um dos mais misteriosos livros de Dick. Acena para aquilo para que poderia ter sido ou para aquilo que é? Há pistas no interior da narrativa, que acima de tudo constrói uma ambientação submersiva que nos traga para dentro desse mundo alternativo. É na verdade uma reflexão sobre o ideal totalitário e um aviso dos perigos que tal caminho representa. Mais que um autor que escreve ficções especulativas, Dick é um autor que procura debater e refletir sobre as engrenagens de um mundo; nem sempre engrenagens bonitas e vistosas. Há em seu olhar uma análise social das mais vigorosas que talvez nem mesmo os sociólogos são capazes de alcançar.



  

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