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10 Considerações sobre Menino sem passado, ou sobre enxertias na casa do saber

O Blog Listas Literárias leu Menino Sem Passado, de Silviano Santiago publicado pela editora Companhia das Letras; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:


1 - Em Menino sem passado todos os rios que desaguam naquilo que é Silviano Santiago fluem de tal maneira que temos uma narrativa que é tantas coisas ao adentrar aquele espaço que rechaça as simplificações e as classificações, que desafia os limites, do gênero, do que é ficção ou não, etc. Com isso afirma com a potência da estética e da teoria a fortaleza que é Silviano Santiago em nossa literatura;

2 - O livro é uma coleção de "é's". Muitos habitam-no. É narrativa memorialista, mas não de todo uma autobiografia. Também não o deixa de ser, autobiografia. É romance sem o ser, ou é disfarce de algo que não é romance, sendo-o também romance. Uma autoficção diriam uns sob a desconfiança d'outros. É ao mesmo tempo um livro sobre escrita como acima de tudo, um livro de leitores e sobre leituras. É teoria, metateoria... habitante de um lugar caro à Santiago, o entrelugar;

3 - Contudo, há foco determinado nesta jornada. O narrador olha para o menino, o menino a ter o passado sendo construído pelo olhar deste narrador que tenta ou busca algum distanciamento daquele garotinho sonâmbulo e cheio de imaginação. Um garotinho que engole o mundo, as vozes do mundo, para algum dia regurgitar estas mesmas vozes. Uma antropofagia que foge à carne, pois aqui o conceito da enxertia, a botânica do fazer-se de várias partes;

4 - O conceito de enxertia será caro e relevante nesta narrativa. É um conceito que desnuda a política e compromisso do autor; compromisso com a empatia, com a compreensão de que a sua voz é fruto desta enxertia de tantas e tantas outras vozes; enxertia que vislumbraremos como está presente em suas ficções, em suas não-ficções; um jardineiro das palavras que tal como o pai fazia com as roseiras, enxerta aqui e acolá até ter uma voz que é sua e que será enxertada por outros, mas que também seguirá enxertando, florindo os jardins da casa do saber;

5 - Em sua narrativa de muitos e nenhum limites o narrador mexe e remexe a memória distante, a do menino, do garoto entre os anos de 1936 e 1948 da pequena Formiga que tal como o sertão também é o mundo. Ao fundo percorre a história e todas as suas desgraças e como ela chega ao sonâmbulo garoto; a Segunda Guerra, os vais e vens de um Brasil sempre alucinado politicamente, tudo sob o ponto de vista de certo desencanto burguês de um narrador que é e não é aquele menino de Formiga, aquele Silviano Santiago de tantas lacunas e tantas lembranças;


6 - Esse é um jogo curioso. Com a sabedoria de conhecer limites e limitações, Santigo tanto nos entrega uma narrativa histórica quanto afirma e reafirma o mito de uma objetividade documental. Demonstra onde podem ir documentos e registros e onde avança e para a memória; reconhece-se o narrador, então, também sonâmbulo, pois as lacunas são preenchidas pelo ato literário, pela imaginação; não uma imaginação estéril, mas imaginação enxertada com um elemento aqui e acolá; pelas deduções e próprias vontades desse narrador;

7 - Com isso, dissemos, então, que não há exagero ou engano pensar a narrativa por seu viés autobiográfico. Veremos a infância de Silviano Santigo e coisas para além dela. O fazer biográfico será expandido e expandido, das figuras familiares que lhe despertam interesse, das figuras que pouco tem que não a sua imaginação para reconstruir suas biografias; mas enquanto romance-teoria, os limites do biografar serão também questionados pelo autor, entre tantas outras perguntas;

8 - Aliás, pensamos que não seria exagero dizer que Silviano Santiago entrega-nos aqui romance-teoria. Há esse jogo com os limites, já dissemos, bem como, se desnovela no entrelugar de suas memórias uma coisa que pensamos como romance-teoria, pois não apenas reflexões, na narrativa - ou na publicação - poderemos encontrar teorização, teoria cultural e literária, algo que torna a obra ainda mais ambiciosa colocando-o além da crítica literária; também um teórico, pois que em Menino sem passado encontramos relevantes proposições teóricas não apenas relevantes em termos de Brasil, como em termos mundiais;

9 - Teoria cultural e literária que congrega e enxerta dois polos nem sempre vistos em conjunto, o dar e receber, o ler e o criar, o enxertar e ser enxertado. Nesse sentido, a enxertia de Silviano Santiago é um constante construir-se, um sonambulismo antropofágico em que o menino engole o mundo pelos gibis, pela literatura, pelos outros, também pela história e pela sociedade; pela cultura e tudo aquilo que lhe ergue a sua casa dos saberes. Um texto que conversa com as autobiografias do leitor, mas avança falando da escrita, da voz-roseira que nasce das tantas enxertias que no espaço-tempo não deixam de ocorrer - desde que estejamos dispostos e disponíveis para isso;

10 - Enfim, Menino sem passado é construção magistral em suas tantas possibilidades de ser. Nele, assim como já se percebe no restante de sua obra, Santiago faz ruir a última retórica acusativa aos críticos, a de que falam porque não o fazem; Silviano em ser crítico literário, em ser rosa enxertada constantemente, em ser sonâmbulo engolidor do mundo em suas enxertias dos botões da teoria e da crítica faz literatura das mais revolucionárias na literatura brasileira das últimas décadas.

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