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10 Considerações sobre Indivíduo desconhecido: alcunha O Ceifador, de Leandro Ribinski

O blog Listas Literárias leu Indivíduo desconhecido: alcunha O Ceifador, de Leandro Ribinski publicado pela editora Viseu; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:


1 - Marcado pela visceralidade de suas palavras em uma narrativa curta, violentamente em que o narrativo situa-se num limiar com o descritivo, Indivíduo desconhecido: alcunha O Ceifador é fruto de seu tempo, do medo, da violência, do fantasma da aculturação, enfim, dos fantasmas deste século e desta década numa narrativa alternativa, pero no mucho;

2 - O livro filia-se ao distópico. Aqui, claro, temos algumas considerações a observar. Em sua distopia Ribinski leva-nos a 2027 de um cenário apocalíptico pós guerra nuclear em que o Brasil tornou-se apêndice americano. Concordamos que esse não seja um medo assim tão inverossímil, entretanto, a construção desse processo futuro se dá num passado recentíssimo e alternativo (2020), o que pode nublar um pouco a ideia narrativa; preferimos que quando se olhar ao futuro (claro, sempre tendo em mente que toda narrativa futura espelha de algum modo seu presente), as bases desse futuro para melhor dinâmica talvez devam estar também no futuro;

3 - Outra questão importante a discutir sobre a curta narrativa é seu aspecto visceral. Tudo se dá demasiadamente no campo da ação, do imediato. Há pouca ou nenhuma fuga ou convite à reflexão, inclusive no que se refere à profundidade de suas personagens. Compreendemos que o distópico talvez seja isto, caótico, alucinado e visceral, porém, há algo de incômodo nessa característica pois que o distópico é por natureza um pesadelo contínuo, gradual e lento;

4 - Dizendo isso, partilho que, se por um lado temos um texto gramaticalmente e linguisticamente construído com boa correção, com domínio, no que tange aos aspectos do literário, o estilo é no mínimo, pouco usual. Em parte pelo estilo alucinado e visceral dos acontecimentos e no próprio limiar dos tipos textuais que parece situar-se a escrita de Ribinski;


5 - Na verdade o que pretendo dizer é que o texto narrativo carrega características já assimiladas por nós leitores que as reconhecemos de imediato. Um trabalhar estético, uma tessitura de frases e orações que naturalmente nos soam assim. No caso do texto de Ribinski, parece-nos, a brutalidade de seu mundo imaginado ressoa também em certo estilo bruto de sua própria escrita. Entre ser assodado e ser direto, algo talvez como seu protagonista, primitivo;

6 - Soma-se a isto algo que ao menos a este leitor soa estranho. A invasão da tipologia descritiva naquilo que deveria ser narrativo. A obra parece-me mais um descrever que um narrar, o que poderá jogar de diferentes formas quanto à recepção de leitura. Essa demasia descritiva percebe-se de maneira mais efetiva pelo incomum modo de o autor apresentar seus personagens ao estilo de fichas de videogame; geralmente na literatura e no literário espera-se pelo desvelar, e se essa questão for cara ao leitor, o impacto do estilo levado ao livro pode soar um tanto incômodo;

7 - Só não mais que a arriscada e talvez desnecessária opção do autor em carregar a já curta publicação de uma demasiada carga de notas de rodapé. Digo isso porque penso os autores devem considerar sempre três elementos antes de inserir uma única nota de rodapé: 1) A vasta, ampla e praticamente plenitude das melhores obras de literatura dispensam notas de rodapé e as que as usam são sempre de forma econômica; 2) Notas de rodapé são relevantes em obras acadêmicas e científicas, entretanto, em narrativas literárias é preciso lembrar que são elas hipertextos e estes por natureza afastam o leitor do texto inicial, primário. No caso de um romance, o efeito é o quebrar muitas vezes do ritmo, consequentemente do envolvimento do leitor na ação; notas de rodapé são dispersivas, por isso, de modo geral no artístico evitam-nas. 3) O terceiro talvez seja um dos problemas mais dramáticos pois interfere na relação autor-leitor. Os autores hoje bem sabem que saídas de suas mãos, as obras são preenchidas e completas pelo leitor, ou seja, os leitores não são receptáculos passivos. Isso implica que o autor acima de tudo deve esperar de seu leitor conhecimento e capacidade de leitura de interpretação. Tudo bem, sei que há nisso algo de um leitor ideal, mas é aí que justamente reside o risco. Ao se exagerar em notas de rodapé quanto mais perto do leitor ideal o leitor esteja, mais incômoda e desnecessária a escolha parecerá. Nesses casos poderá se instalar no leitor a sensação de que foi subestimado pelo autor, o que, obviamente, afetará drasticamente a recepção da obra;

8 - Tais elementos, portanto, presentes no livro podem dar certa sensação de necessidade de amadurecimento, não na habilidade de escrever do autor, bastante consolidada, mas quanto do construir literário. É nesse sentido que a despeito de possibilidades e qualidades na narrativa de Ribinski, alguns fatores apontam para uma obra estreante que pode ser aprimorada e lapidada no que tange à literariedade;

9 - Obviamente, as teses desse resenhista poderão ser refutadas. Poderá se dizer que a linguagem procurada aqui é por intenção, aliás, esse eco pode ser quem sabe percebido por certa linguagem dos quadrinhos em seu ritmo e ação. Quadrinhos que por sinal têm sido campo de abordagem da violência e da polarização política, como também visto nessa noveleta. Isso inclusive nos abriria porta para uma reflexão mais profunda sobre como independentemente dos polos em que se encontram, tais narrativas vindas das vísceras encontram tão somente na violência a solução para nossos problemas;

10 - Enfim, é um livro curioso, de uma visão não distante das tenebrosas possibilidades destes tempos; narrativa de ação frenética, de tudo em movimento e ao tempo todo. Podemos discutir seu estilo e suas técnicas, contudo os conceitos e abordagens nela trazidos abrem espaço para interpretações dialéticas dos fantasmas que habitam-na. 

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