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10 Considerações sobre Trocas Macabras, de Stephen King ou por que a voz do Diabo é doce de ouvir...

O Blog Listas Literárias leu Trocas Macabras, de Stephen King publicado pela editora Suma; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:


1 - Com todos os elementos canônicos do horror e as razões de ser este livro um dos mais cultuados entre fãs de Stephen King, Trocas Macabras, com seu tenebroso e alucinante ritmo, mostra-nos um dos mais temíveis e assustadores vilões do gênero, e é  assim, puro deleite ao leitor que é tragado para a ficcional Castle Rock e testemunha do tramar de algo tão explosivo que torna-o uma figura paralela a seu protagonista, pois que a cada novo tecer e entrelaçar da maldade, tal como Alan Pangborn, ficamos a mercê e impotentes perante ao mal que é Leland Gaunt;

2 - Neste livro voltamos a Castle Rock, a cidadezinha criada por King em que todos os horrores e maldades podem acontecer. O leitor, aliás, encontrará referências a outros acontecimentos em the Rock, especialmente os vistos em Cujo, de modo que vale dizer que "entrega" o desfecho de alguns personagens neste outro livro. Mas desta feita o que parece significar a história derradeira de Castle Rock é a chegada da figura demoníaca, cínica e demasiadamente cruel de Leland Gaunt que inaugurará uma peculiar loja de antiguidades na cidade e, a partir dela, colocando em movimento acontecimentos que se tornarão inevitáveis;

3 - E aqui temos uma questão bastante interessante de se observar no que se refere à construção da obra literária. Para muitos escritores ou pensadores sobre a literatura, a escrita de um livro é uma espécie de tecer, de tramar ou bordar algo, até que tenhamos uma trama - o enredo - que unifica os pontos; Gosto muito dessa perspectiva da tessitura e, nesse caso, temos duas camadas de tessitura; na verdade, dois artífices, King, o autor, é claro, mas também Leland Gaunt. Se King é o artífice mor, não podemos negar que Gaunt é meio que uma espécie de personagem-autor, já que a trama inevitavelmente se desenvolve também pelo tecer, pelo tramar dos pontos realizados por Gaunt. São eles, o enredar do vilão, que a bem da verdade conduzem toda a ação e os terríveis acontecimentos em the Rock, inclusive até o seu final. Isso faz da obra também uma questão estética;

4 - E Gaunt inicia seu tricotar macabro valendo-se daquilo que está presente em cada um de nós. Primeiramente nossos desejos, nossos objetos que cremos indispensáveis e pelos quais estaríamos dispostos a pagar qualquer preço; e por segundo, vale-se ainda daquilo que constitui toda e qualquer comunidade, as pequenas desavenças, os pequenos rancores, os segredos não falados que se alimentados com certo - e dos piores combustíveis pode armar uma grande bomba, no caso, uma instabilidade social sem precedentes;

5 - Aliás, há de se dizer que ao conhecer e compreender as pessoas comuns em suas virtudes e seus defeitos á algo de pedagógico em Trocas Macabras; primeiro: o livro demonstra como figuras maléficas podem desencadear um ódio coletivo que nasce das pequenas frustrações individuais; é a base do sucesso do Sr. Gaunt que alimenta um fogo que por menor que possa ser sua brasa, pode crescer até formar uma fogueira e desta para uma bomba atômica é um passo; segundo: que armada "a bomba" e posta suas engrenagens em funcionamento, nossas opções são mínimas, pois que a partir daí tudo é confusão e caminho limpo para o ápice da tragédia - anunciada - cabendo aos personagens simplesmente resistir ao pior numa contagem que sempre deixará poucos para contar a história;


6 - Por isso é curioso observar como o macabro Leland Gaunt em muitos momentos pode soar ou parecer com uma boa dose desses líderes populistas dessa década, mensageiro da morte e mercadores de armas e almas; gente como Bolsonaro, Trump, Putin, Orbank, etc. Todos assumem o posto de titereiros a manusear seus títeres na prática dos horrores, com isso, compartilhando a culpa, pois cada um dos seduzidos não são apenas uma parte da engrenagem, mas também portadores de certa culpa pelas mortes, que no livro, se dão em grande número;

7 - Aqui podemos tratar de outro elemento importante a viabilizar os negócios do Sr. Gaunt: os desejos e a sedução. E não se trata aqui do desejo no sentido carnal da palavra. Nós, humanos, podemos desejar um bocado de coisas, de uma lasca de madeira velha a uma vara de pescar, um bom emprego, a relíquia do ídolo; podemos dispensar uma energia monumental na busca da concretização destes desejos. Gaunt é uma espécie de Mammom, mas que nesse caso, como o são os demônios, pode usar de muitos artifícios para ludibriar seus clientes; a bem da verdade, revela a base de todo e bem sucedido golpe, permitir que as pessoas vejam aquilo que desejam ver [olha aí outra habilidade de tiranos, demagogos, etc.]; é o que ocorre com os moradores de Castle Rock, crentes e seduzidos cada qual que enfim estão diante de seus desejos... capturados como peixes fisgados por um anzol, ficam então a mercê das "travessuras" de Gaunt;

8 - Do mesmo modo há o jogo com aquilo que nos dá medo ou que desejamos manter longe de nós, pelo menos, longe de nossos pensamentos, caso dos protagonistas, xerife Pangborn e Polly. Para o mal, tudo é combustível, o passado, portanto, também; assim como os medos; a psicologia de nossas identidades pode sempre ser utilizada contra nós, independentemente das criaturas que as usem; por isso o que ocorre com a chegada da Artigos Indispensáveis em rock não soa absurdo se exercitarmos nossa imaginação e tentarmos imaginar isso em nossas pequenas cidades... mesmo isso em nossas nações... não é o que ocorre quando Gaunts da vida jogam-nos uns contra os outros?...

9 - Bem, é por tudo isso que Trocas Macabras acaba sendo uma destas leituras de tirar o fôlego. Assistimos a tudo, como disse antes, um tanto impotentes e testemunhas de um entrelaçamento perigoso. Isso, por sua vez também joga positivamente para a construção de expectativas, já que a tensão vais subindo seus graus de forma gradual, mas quando todas essas raivas e rancores explodem, Kinge revela toda sua maestria em construir cenas concomitantes e que constroem toda a ambientação da tragédia; quando se dá a ignição da bomba social armada por Gaunt então temos segurar o fôlego e dar aquele mergulho no inferno;

10 - Enfim, o livro faz jus aos que o amam. Obra de horror em todos os seus sentidos, inclusive aquela sabor amargo do "eu voltarei" natural do gênero. Uma narrativa, como o são as de King, extremamente cinematográfica mas sem de modo algum castrar o leitor em sua construção visual. Obra frenética e alucinante com um ápice que é realmente um ápice de todas as desgraças, retrato explosivo do que pode acontecer quando somos governados por objetos e ideologias que nos dominam e ceifam qualquer racionalidade. Um primor de Stephen King;  

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