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10 Considerações sobre O filho daquela que mais brilha, de JP Santil ou sobre lutas que devem ser lutadas

O Blog Listas Literárias leu O filho daquela que mais brilha, de JP Santil publicado pela Chiado Books; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Antes de mais nada, preciso compartilhar que o tema de O filho daquela que mais brilha não está entre os que conheça com certa profundidade. Principalmente porque, a despeito de minhas tantas leituras, há aqui a pobreza da discussão escolar sobre o assunto, geralmente de forma resumida e sem profundidade e o apagamento histórico de nossas raízes africanas com a história, em parte tentado superar recentemente na LDB. Soma-se a isso que recentemente tem-se visto um movimento mais efetivo ou de se resgatar esta literatura ou de se produzir uma literatura que discuta a escravidão no Brasil. Por isso, creio, ser importante compartilhar que talvez não tenha domínio sobre alguns elementos (ainda que com certo conhecimento histórico) na obra abordados, bem como, possa cometer deslizes em uma ou outra questão, mas penso, isso é o que se chama debater, especialmente porque a proposta do autor é bastante explícita, constituir uma narrativa quase que fundacional acerca deste período histórico, especialmente sobre a saga do Quilombo dos Palmares. Nessas intenções, certamente algum espaço para as polêmicas e discussões sobre a abordagem do autor, algo que em suas manifestações sobre o livro, também se evidenciam;

2 - Mas enfim, partindo para a leitura da obra, inicialmente é uma narrativa que salta aos nossos olhos de forma promissora. Aos que já leram vozes africanas dos Palops, por exemplo, temos nesta obra certa aproximação, não apenas por referências culturais que atravessam a linguagem, mas também pelo papel desempenhado pela ancestralidade e a metafísica, tendo espacialmente na figura dos griots a passagem da cultural pela oralidade. Isto é visto por meio de um Djeli que figura como uma espécie de guru de N'zambi. Há nisso uma espécie de didatismo que visa justamente apresentar aos leitores a cultura africana em terras brasileiras, aliás, um dos elementos interessantes da narrativa contradiz justamente tal conceito já que Palmares aqui um Estado Livre do Povo Africano é uma nação dentro da nação;

3 - Deste modo com forte presença da metafísica que pincela ares fantásticos aos personagens históricos e com domínio da palavra que tenta pregar sua versão da história, JP Santil sob seu olhar reconstrói [o constrói] a imagem do líder N'zambi (Zumbi dos Palmares), dotando-o de características nobres e heroicas e com a passagem de diferentes momentos, da preparação espiritual de sua liderança ao papel lhe predito, a chegada enfim de seu reinado em Palmares e dos combates contra os escravistas e colonizadores. Nisso tudo sempre com as pinceladas de um processo mítico a reforçar as características messiânicas de Zumbi;

4 - Para tanto, o autor monta sua narrativa intercalando a ação através dos diferentes movimentos históricos e diferentes incursões a Palmares, isso mesmo antes mesmo da liderança de Zumbi até a destruição do Quilombo pela invasão de Domingos Jorge Velho em sua caçada a Zumbi. Vale dizer nessa questão que o livro em parte mantém-se próximo a uma história reescrita (já que na escola por algum tempo as coisas quando eram discutidas, era de outra forma) em que Zumbi escapa, mas depois é morto e tem a cabeça exposta algum tempo posterior da destruição da Cerca Real dos Macacos. A traições sofridas por N'Zambi convergem também para algum consenso;

5 - Portanto, neste aspecto o livro cumpre um interessante papel que é o de justamente ampliar as discussões de um tema que em grande parte a literatura brasileira foge, bem como, possibilitar uma discussão e apresentação histórica relevante para nossas compreensões da escravidão no Brasil. Nesse sentido, Santil, com suas lentes procura entregar um ambiente próximo daqueles tempos e é exitoso por dominar a forma como escolhe nos contar esta história;

6 - Entretanto, e aqui reclamo minha incapacidade de compreender tudo ou saber tudo, alguns elementos de sua narrativa parecem justamente querer ou desejar comprar conflitos, e a despeito da pesquisa histórica para o livro, algumas escolhas são para lá de inflamáveis. Especialmente como representa o feminino em sua narrativa, acima de tudo como representa Dandara, personalidade cara ao movimento negro e ao feminismo que nesta narrativa é trabalhada de forma um tanto sui generis. Confesso que pela imagem que tenho construída de Dandara, em determinado momento congelei a leitura da obra carregado de desconfianças e incômodos;

7 - No livro Dandara é branca e cripto-judia, o que no mínimo é polêmico e contradiz a avassaladora maioria dos registros históricos e culturais acerca da personalidade histórica. Ademais, cada vez mais propagado o papel guerreiro de Dandara tanto pelos movimentos negros quanto pelos historiadores, na obra a personagem é um pouco mais que Amélia, e ainda que participe de uma batalha, no geral o autor a pincela com estereótipos, inclusive subjugando-a às escolhas de N'Zambi concedendo a Dandara um papel de subserviência, o que é no mínimo, questionável;

8 - Além disso, há tentativas de reescrituras históricas nem sempre conhecidas ou mesmo fundamentadas com maior precisão, como sua tentativa de explicar o nome Brasil, algo que abre possibilidades conspiratórias geralmente sem maiores possibilidades de comprovação documental. Isso, lógico, na ficção tem lá suas liberdades, contudo, no caso de uma obra como essa que procura trazer aspectos fundantes de um mitologia é um tanto problemático;

9 - Por tudo isso, a obra tem potencial explosivo, ao mesmo tempo em que se traduz com interessante e provocativa narrativa. É certamente um livro com contradições, mas que acima de tudo é realizado com bastante domínio por seu autor, que nos oferece uma narrativa instigante e a despeito das contradições, marcada pela ação, pela técnica e acima de tudo pela presença de uma metafísica capaz de aproximar os leitores de sua cultura, o que são bons valores da obra fazendo dela uma interessante construção desde que possamos justamente problematizar suas contradições;

10 - Enfim, O filho daquela que mais brilha é narrativa capaz de chamar a atenção de seus leitores, em especial porque a forma com que seu autor a narra é bastante condigna com tudo o que se quer narrar e com a cultura que se pretende fazer sobressair. Logicamente possui suas contradições e momentos capazes até mesmo de por em dúvida o projeto do autor. Por isso, creio, será uma narrativa prolífica de polêmicas e debates, o que de certa maneira, também se espera de um texto.


       

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