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10 Perguntas para o escritor Paulo Sousa

O Blog Listas Literárias entrevistou o escritor Paulo Sousa, autor de A Pestes das batatas publicado pela editora Pomelo. Nesta entrevista conversamos sobre esta interessante sátira e também sobre literatura e o atual momento do Brasil. Confira:


1 – A peste das batatas é uma sátira por vezes agridoce de uma realidade às vezes absurda. O humor, mesmo que com a acidez dos desencantos ainda é uma ferramenta potente de crítica social?

P.S.: Sem dúvida! O humor é uma maneira que as pessoas encontraram para falar de temas pesados, tabus etc. Além de transmitir uma mensagem de forma instigante e, por consequência, ter força para impactar mais pessoas. Veja o caso do Marcelo Adnet que, no Carnaval 2020, escola São Clemente, imitou Bolsonaro e, com seus trejeitos e ridicularizações, transmitiu a mensagem crítica sobre o Presidente. É o pontapé inicial de uma reflexão a ser aprofundada.

2 – Aliás, as alegorias às experiências recentes desta nação são bastante explícitas. Como você observa nossa política e nossos desajustes sociais e suas relações com a literatura? De que modo a literatura pode nos auxiliar na compreensão disto tudo?

P.S.:  Paulo Freire, alçado artificialmente ao posto de doutrinador número um da nação, disse em A Importância do Ato de Ler (1988) “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente”. O problema é que essa ferramenta chamada palavra escrita, tão antiga quanto a própria história, é de uso restrito. Segundo o InAF 2018, apenas 8% da população brasileira tem proficiência na língua, algo em torno de 17 milhões de pessoas, pouco perto de outras 57 milhões consideradas analfabetas funcionais pela mesma pesquisa. A literatura é artigo de luxo, de difícil acesso para boa parte da população. Os políticos me parecem mais preocupados com seus problemas do que com o descrito acima, não espero nenhum avanço para os próximos anos que não seja fruto do trabalho da iniciativa privada.

3 – Seu livro acaba unindo duas pontas às vezes um tanto distantes, o rural ou o arcaico, aqui representado no seu ambiente campestre, e o centro do poder. É um pouco a fotografia destes tempos que a despeito das metrópoles o Brasil profundo emerge e tem ecos no poder?

P.S.:  Certas questões do Brasil arcaico, como o coronelismo, nunca deixaram de existir. Ainda há famílias tradicionais e poderosas com muito poder político, como os Gomes, os Sarneys e os Collors de Melo. Não é coincidência que seus currais eleitorais apresentem os piores índices de desenvolvimento. Na política brasileira, o passado não deixa o presente entrar na avenida.

4 – Falando em rural, mesmo com as liberdades da sátira e do insólito, ao trazer esse ambiente camponês você acaba trabalhando com bastante conhecimento da área. Isto me chamou a atenção, por vir dessa realidade. Como você elaborou esta ambientação um tanto apropriada das realidades, por exemplo, da agricultura familiar?

P.S.: Trabalhei por algum tempo como conteudista para o SEBRAE-SP, momento no qual pude conhecer algumas realidades rurais e, principalmente, boas fontes de pesquisa. Um bom escritor deve saber procurar as informações de que precisa para construir sua narrativa. No caso de A Peste das Batatas, quis trazer grande verossimilhança, e consultei vários veículos de comunicação. Destaco aqui matérias jornalísticas especializadas, como no Globo Rural, e o site do EMBRAPA, que é fantástico.

5 – Quanto aos políticos e ao sistema, sua sátira é eficiente em ridicularizar seus procedimentos, suas formas de ação e atuação. Trata-se de um dedo apontado a um sistema em falência?

P.S.:  Sim, é um sistema carcomido, fisiológico, que trabalha para manter seu status quo e não para o progresso da nação. É um mundo muito distante da realidade brasileira, não há representatividade nem senso de pertencimento. O jogo democrático é feito para manter as velhas oligarquias, principalmente através do voto proporcional e do financiamento público de campanhas.

6 – De alguns políticos, por sinal, a alegoria é bastante clara. Como você elabora a transmutação de personagens “reais” para a sua ficção?

P.S.: Marcas de oralidade são a grande sacada dessa transmutação. São os diálogos que fazem a história avançar e marcam quando um personagem se expressa. Há a descrição física e piadas pinceladas, que dão oportunidade para exageros e para a comicidade, situações que pendulam ora pela fina ironia, ora pelo pastelão. Mas o que garante a unidade disso são as marcas de oralidade.

7 – Agora fugindo um pouco do romance, como você observa a literatura nacional neste momento?

P.S.: No que tange os romances, o Brasil tem grandes escritores em atividade, como Ricardo Lísias, Roberto Torero, Carol Bensimon, Tiago Novaes, Reinaldo Moraes, Fabrício Corsaletti e Sérgio Rodrigues (para citar os que estão mais frescos na memória). Há segmentos, como a literatura de terror, no qual posso citar o André Vianco e o Raphael Montes. E também há nichos, como nos e-books, que tem o Prêmio Kindle de Literatura a maior referência. Gostei muito da Michele Mirabai e da Eliana Cardoso, vencedoras em edições passadas. Mas a situação está difícil, cada vez mais publicar um livro é um ato de paixão pela escrita, ou um complemento à profissão principal, geralmente ligada às artes ou a aulas de escrita criativa. Para se ter uma ideia, o livro mais vendido de 2019 foi A sutil arte de ligar o foda-se, com quase 387 mil cópias. O romance nacional mais vendido foi Prisioneiros da Mente, de Augusto Cury, com quase 70 mil cópias. Há poucos leitores e, dentro desse universo, a maioria lê autoajuda ou livros de negócios. É o livro como ferramenta de desenvolvimento pessoal. Nada contra, mas o fato é que a demanda para romances nacionais não é grande o suficiente para fazer as contas fecharem.

8 – Além disso, quais os desafios que têm enfrentado na edição e publicação de seu livro? Mas não só eles, quais as coisas boas neste processo?

P.S.:  Há muitas etapas no processo editorial. As mais difíceis, ao meu ver, são as pontas: a escrita e a venda. Escrever um livro demanda tempo, dedicação, inspiração, transpiração, autocrítica, vaidade etc. O mercado editorial está péssimo, editoras e varejistas estão fechando. Por isso, recorrer à auto publicação é um caminho sem volta. Tenho a honra de conhecer um grande book advisor, o Eduardo Villela (www.eduvillela.com), que me guiou em todo o processo de publicação. Para a venda, estou aprendendo, no início do trabalho de divulgação. Espero que daqui uns anos possa comentar com mais solidez sobre essa atividade. O lado bom nisso tudo é o convívio com pessoas queridas e competentes, como revisores, ilustradores, editores etc.

9 – Voltando um pouco ao livro, em nossa avaliação falamos da radicalização da indignação perante as contradições sociais e políticas do país. O que você pensa disso? Assim como no livro, somos uma bomba prestes a explodir em revolta?

P.S.: A sociedade brasileira nunca foi uma malha homogênea. Em 2013, tivemos nossa primavera, com manifestações “contra tudo isso aí”, uma catarse que deu em quase nada. A tônica era a insatisfação geral, como em outros países, como no Egito. O resultado também foi parecido, com o conservadorismo chegando ao poder e um estado mais totalitário. A bomba social explodiu nessa época e, atualmente, estamos escolhendo com quais fragmentos queremos nos unir novamente.

10 – Para finalizar, sua obra enquanto gênero traz elementos comuns à nossa literatura em tempos difíceis, como a sátira e o insólito. Como você analisa esta questão?

P.S.: A política é um prato cheio para piadas, cenário perfeito para o escárnio, muitas vezes a única arma real do cidadão. Nunca houve tempos fáceis aqui no Brasil, sempre houve desmandos políticos e descaso com questões básicas. É um show de inépcia, e acabamos sempre elegendo alguém tão incompetente quanto todos nós.

Um comentário:

  1. Que vontade de ler o livro dele! Curti muito o moço, apresentou-se bem nas respostas.

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