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10 Considerações sobre A última Mulher, de Luiz Alfredo Garcia-Roza ou seria o adeus de Espinosa...

O Blog Listas Literárias leu A Última Mulher, de Luiz Alfredo Garcia-Roza publicado pela editora Companhia das Letras; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Quisera o destino que tivesse apresentado-me ao principal personagem da literatura policial brasileira, o detetive Espinosa, em seu provável adeus, tal a melancolia e desalento final em sua narrativa pelos olhos de um homem idealista que olha em retrospecto, analisando sua postura enquanto policial, ao mesmo tempo que delineia um presente amargo em que está cada vez mais longe da imagem dos que agora exercem a função. Ademais, o título deste novo romance de Luiz Alfredo Garcia-Roza carrega também suas sugestões, será?

2 - A bem da verdade, poderíamos começar a discussão tendo com provocação o próprio gênero, pois que A Última Mulher esta naquela linha de todas as possibilidades, entre o romance, uma novela breve ou mesmo o conto, até porque o quesito da leitura numa só sentada está presente nesta leitura envolvida basicamente pela emergência da ação. É esta ação que chama seus peculiares personagens, que são obrigados a estar constantemente em movimento, isto por questão de sobrevivência, claro;

3 - Nesta trama, o delegado Espinosa, conhecido representante do gênero Noir no Brasil, é tragado para dentro de uma série de acontecimentos por meio da sorrateira e sobrevivente "criatura" conhecida como Ratto, que movimenta-se pelas sombras de um Rio de Janeiro profundo, uma espécie de selva urbana onde são todos presas e predadores na luta atroz pela sobrevivência. Cafetão e autor de pequenos trambiques, Ratto tem de começar a se esgueirar pela cidade, enquanto foge de um policial corrupto que está atrás de sua grana;

4 - Em meio a esta conturbação causada, o assassinato violento de mulheres e uma última sobrevivente, amante de Ratto, que chega até Espinosa em busca de proteção e solução dos crimes, enquanto neste viver a escapar das diferentes ratoeiras, a morte esta sempre muito próxima. Constituem assim um grupo de personagens à margem de um mundo real, habitando as camadas profundas de uma cidade a qual o delegado Espinosa bem conhece os perigos e o funcionamento;

5 - E nisto já podemos tratar de algo muito presente nas narrativas de crime brasileiras. Tenho defendido que o romance policial brasileiro tem características muito próprias que às vezes divergem ou rompem com os princípios consagrados do gênero, o que não é o caso de Garcia-Roza que segue as tradições do romance policial noir com muito êxito. Ainda assim, no caso deste livro, especialmente, não deixa assim como muitos dos pares nacionais, de reunir críticas às instituições policiais, aqui representadas pelo antagonismo do policial Wallace;

6 - E neste caso de A última mulher a crítica social à polícia, como vemos em muitas narrativas policiais brasileiras, ganha força quando Espinosa percebe que "a corporação parecia ter adotado Wallace como regra, e não existia mais espaço para o bem comum". A bem da verdade este momento traduz o momento de desencanto, a morte do idealismo na instituição e  compreensão de Espinosa que seu tempo passou, que na verdade o tempo "dos bons policiais" não mais existe, todos tragados por um modelo de corrupção naturalizada e da inversão dos valores em que o que deveria ser exceção é agora a nova regra, uma regra a que homens como Espinosa talvez já não tenham mais espaço;

7 - Talvez por isso tenha sentido essa perspectiva de pendurar chuteiras de Espinosa. No livro, já um senhor com seus sessenta anos, é interpelado que não se é mais tempo de estar levando as mais diferentes figuras para seu lar. Pra sermos sinceros, a própria ação dele durante a trama é cheia de malemolências, lentidões, que ampliam, talvez, a sensação de cansaço com tudo, o que culmina no desfecho que nos fez levantar a questão se seria esta sua última aventura;

8 - Mas saltando um pouco das questões até então discutidas, vale destacar ainda quanto da caracterização urbana nesta estória. Ainda que um romance do frêmito, do sobrevivencialismo, da ação, características que nos legam mais aos instintos do que à civilidade, onde ainda há-se tempo para reflexões e pensares, importa destacar que a narrativa traz luzes a personagens urbanos que nos escapam, mas que estão lá, quiçá a nos observar. Garcia-Roza dá identidade a uma cidade que habita a cidade, entretanto com mapas e lugares mais recônditos, as sombras;

9 - É o caso de Ratto e de Rita, a dupla que por ora ocupa o tempo de Espinosa. Habitantes do submundo, como em geral são os personagens do autor, os dois agem sob uma lógica distinta da sociedade. Sobrevivem numa selva urbana sendo ora predadores, ora presas, como quando passam a ser perseguidos por Wallace. Nessa fuga desnudam diferentes princípios, diferentes regras existenciais e põe a nu um mundo bem mais duro que a maioria dos simples mortais pensa conhecer. Em sua narrativa, ao descobrir esta parte submersa da metrópole, talvez Espinosa revele também o caráter irreal da cidade "normal" que pulsa aos olhos de grande parte de seus habitantes, pois que a realidade plena, bem mais sombria e complexa, comporta Rattos, Ritas, Wallaces... e detetives idealistas que precisam habitar estes dois mundos distintos;

10 - Enfim, a despeito de uma aparente simplicidade mascarada pelo tempo da ação, A última mulher enseja visitas a diferentes camadas, reunindo os elementos clássicos da literatura policial noir e neste caso potencializada com as críticas sociais tão presentes na literatura nacional de crime, especialmente o olhar desconfiado e descrente nas instituições, solapadas por Wallaces que têm transformado a regra, tornando o mundo cada vez mais uma luta bárbara de sobrevivência, corrupção e violência. Aos poucos, como uma cidade submersa que surge à tona, o submundo vem subindo à superfície. Esta a mensagem, talvez, mais ácida nesta breve narrativa.


    

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