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10 Considerações sobre Os jogadores, de Vinícius Pinheiro ou sobre roleta capitalista

O Blog Listas Literárias leu Os jogadores, de Vinícius Pinheiro publicado pela editora Planeta; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Os jogadores é romance que não apenas procura retratar movimentos recentes na história do país, mas que também vai discutir as éticas e os valores no insano mercado financeiro, se tomarmos a visão de Pinheiro como média comportamental num meio que envolve muito dinheiro e poder, além da prática constante da roleta capitalista, cujo mercado movido menos por ciência e mais por especulação e apostas, o que condiz com o título do romance;

2 - Narrado pelo protagonista, Rodrigo Antunes, um operador do mercado financeiro que é recrutamentado meio que ao acaso e acaba tornando-se presidente de um banco internacional, o livro procura percorrer sob a ótica e a égide do mercado financeiro recente período da história que levou o Brasil a tornar-se uma das esperanças globais de desenvolvimento e de como os financistas foram levados ou participaram de tais movimentações sempre na ótica do lucro rápido, fácil, e às custas de quem quer que fosse;

3 -  Para tanto, embora com fragmentos temporais intercalados, o romance narra o período de utopia e bonança da economia brasileira, a partir do ano de 2002 e com a descoberta de que a eleição de Lula não seria a bancarrota do mercado, até os anos de 2012. Nesse período compreendido o protagonista desfila por incorporadoras financeiras, bolsa de valores, e por onde quer que a captação de recursos demandem, vivendo uma vida abnegada apenas ao exercício selvagem de "ganhar" dinheiro sendo que a cada meta atingida, novas outras eram postas, de certo modo pondo-o ao mesmo tempo numa prisão e numa espécie de roleta russa, a roleta capitalista, que de acordo com sua posta tanto pode levar-te ao Olimpo quanto à derrocada falimentar, experiências no horizonte de Rodrigo Antunes;

4 - Nesse sentido o romance não deixa de ser duro para com banqueiros e financistas. Seus valores éticos e comportamentais às vezes beiram ao absurdo, e o tom de escárnio não é de todo apagado na narrativa, ainda que enquanto narrador em primeira pessoa, Antunes seja um apostador já viciado na adrenalina das apostas gigantescas;

5 - Do mesmo modo há certa ambiguidade na paisagem histórica retratada pelo romance, ambiguidade que façamos justiça, condiz com a própria ambiguidade nacional, o que nos lega um presidente de esquerda amado por banqueiros e um recente liberal que por vezes soa como um populista totalitário que por vezes soa até comunista. Como diz o bordão repetido na internet "o Brasil não é para os fracos" e Vinícius Pinheiros procura apresentar pelo viés do romance tais ambiguidades, pois se de um lado a esperança econômica nos leva ao país que sonhava grande e que projetava-se como grande nação, sob a superfície do iceberg talvez a utopia apenas adiantasse o caráter distópico do por vir;

6 - Isso porque de modo geral as relações existentes no romance dão-se sempre pelo signo do espúrio. Mesmo o governo que é uma sombra que paira sobre a bolha financista na qual mergulha seu narrador, quando lembrado ou é pela virtude de não ter quebrado o sistema [o que para alguns será justamente o contrário de virtude e uma das promessas quebradas] permitindo e possibilitando que aventureiros pouco ético fizessem fortuna, ou pelas insinuações de proibidas relações entre Estado e financistas, conforme veremos pelas desconfianças do narrador;

7 - Assim, o jovem estudante, trainee, que acaba virando um dos principais ceos de economia nos deslinda, como já dito, uma selvageria monetária por dinheiro e poder onde o único fator relevante é o lucro. Aliás, é interessante observar como na narrativa poderemos ver o cenário de certa utopia financeira de um país que ousou ser algo, por fim resultando em meios e condições para que inescrupulosos capitalistas lucrassem com as possibilidades abertas em tempos de fartura. Claro que para alguns isso poderá soar como certo desencargo ou alivio a uma política econômica, já que no final, pelo menos no romance, a parcela maior recairá sobre os desonestos banqueiros, entretanto, não é de todo assim, pois há nas dubiedades mais discretas, a reflexão mais ampla sobre a culpa dos próprios governantes;

8 - É portanto narrativa de olho de furacão, texto que tenta compreender nosso passado ainda tão recente que quase podemos chamá-lo de presente. Como algumas obras que li nesse sentido, parece-me que se preza mais pelos acontecimentos que pela estética ou aspectos literários, pois que algumas escolhas, ainda que simples, afetam nosso pacto de leitura. Ainda que tenhamos no mercado financeiro e na telefonia nomes de empresas um tanto esdrúxulos, de fácil assimilação por idiotas, o banco da narrativa, BIG, por exemplo, não colabora com nossa suspensão enquanto necessidade para perceber crível a narrativa. Parece-me escolha pobre e descontextualizada. Além disso, como trabalha com matéria histórica, algumas referências são nubladas por uma vagueza que prejudica a estética literária, de modo que a tentativa de descrever uma narrativa realista acaba soando ficcional demais para o leitor;

9 - Isso todavia não desmerece a capacidade com qual Pinheiro descreve os bastidores e os meandros do mercado financeiro. Com uma ironia bastante explícita, de certo modo é um romance que discute sobre o dinheiro que não produz, bem como o tipo de sociedade que pode nos controlar, cujo valor não passa de irrealidades a serem sustentadas o máximo que for possível e num jogo em que a banca sempre ganha;

10 - Enfim, Os jogadores reúne interessantes elementos para sua leitura, tanto na discussão histórica, a qual você construirá suas reflexões, quanto na análise de um mercado existente numa bolha com muitos dígitos, que faz suas apostas mas que enquanto joga seus dados, não é a si que está apostando, mas toda uma nação.


  

Um comentário:

  1. O livro parece bem interessante e atual, mas essa "catch phrase" na capa é bem ruinzinha

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