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10 Considerações sobre No jardim do ogro, de Leïla Slimani, ou das tragédias da carne

O Blog Listas Literárias leu No jardim do ogro, de Leïla Slimani publicado pela editora Tusquets; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - A atmosfera de degradação humana numa espécie de tragédia da carne vivida pela protagonista de No jardim do ogro dá o tom opressor e amargo do romance, que no texto reflete-se no caráter enxuto do texto e na força das palavras escolhidas com grande pragmatismo capazes de trazer o drama sem metáforas, a angústia perceptível, prisioneira de si mesma, da sociedade, e das tantas instituições que se formam no viver social;

2 - Pra ser sincero, talvez a obra tenha muito das afirmações da mãe endurecida de Adèle que ao final do romance joga-lhe na cara que "as pessoas insatisfeitas destroem tudo em volta delas". Em certa parte o romance potencializa tal afirmação diante a derrocada angustiante da alma que não compreende o mundo, tampouco a si mesma;

3 - Entretanto, a insatisfação irascível da protagonista em muito tem a ver com a opressão provocada pelos condicionantes sociais que inicialmente parecem dar-lhe as linhas da existência, que a ela é sempre um incômodo, embora procure fingir viver de acordo com "as regras do jogo". Casa-se, e mesmo trabalhando, leva uma vida dependente a do marido, um homem gelado e não menos dotado de suas contradições e complexidades psicológicas. No entanto, ao perceber e revoltar-se contra este viver burguês, enquadrada num modelo idealizado, Adèle acaba não enfrentando o problema, mas tangenciando-o numa vida secreta, proibida, que não é menos opressora e deprimente do que a vida em sua parte visível;

4 - Com isso acaba ela tornando-se também prisioneira desta jornada secreta. Prisioneira de sua carne insatisfeita. Os homens percorrem seu corpo às dezenas, possivelmente centenas, entretanto não como algo que lhe sacie ou lhe dê prazer. O sexo adúltero lhe é uma segunda prisão, uma tragédia que soma-se a outra. Insatisfeita, afunda mais e mais na experiência traumática, atirando-se a situações degradantes, miseráveis de uma existência que parece procurar respostas, mas sempre estando mais longe de qualquer solução;

5 - O duplo aprisionamento de Adèle pode ser percebido pelas vezes que deseja ser descoberta, que torce para que todas as farsas sejam expostas. Nesse sentido a narrativa é extremamente eficiente em nos traduzir e nos passar a angústia e a insatisfação com o mundo. É leitura amarga, sombria, pungente, que nos leva ao máximo das sensações e que tratam não só de Adèle, mas das coisas do corpo feminino, do universo das mulheres de um modo muito próprio e com autoridade;

6 - Nesse sentido vale dizer que Adèle vem romper justamente com qualquer idealização de mulher, de família. Ela não fora feita para isso, e em parte todos os seus desgostos estão relacionados à tentativa de viver dentro das normas, dos padrões. Entretanto, sua sinceridade para com os leitores, mostra o quão seus passos "gritam" chamando atenção para o drama. Isso tudo, claro, não é leitura fácil, demanda do leitor uma caminhada à profundidade da existência amarga de uma mulher que menos não saber o que quer, sabe justamente o que não quer. Adèle, internamente no romance, de forma implícita, ao remoer-se com tudo a sua volta deixa-nos pistas de tudo que a oprime;

7 - Por tudo isso é romance que nos exige. Que nos cobra. Suas frases curtas possuem força que permanece durante e depois da leitura. Uma leitura dolorida e causadora do estranhamento tão enriquecedor da literatura;

8 - Aliás, em determinado momento quando a vida secreta de Adèle e seus tantos amantes vem á tona, o estranhamento é potencializado e a perspectiva de prisioneira ampliada. Ficamos incomodados com a tentativa de acerto entre ela e Richard, o modo não menos patológico com que ele tenta "corrigir" a relação. São almas doentes numa sociedade doente;

9 - Então numa obra em que o sexo ocupa certa centralidade, toda a atmosfera retira da trama qualquer erotismo, de tal modo que assim como o prazer autômato de Adèle em seus encontros secretos, o desejo é despojado de qualquer prazer. Não passa de uma doença, de uma fuga, de um vício que leva a personagem cada vez mais para o fundo. Cada vez mais imersa em pesada degradação. É o romance anti-erótico, do desprazer, pois aqui embora abundante, o sexo não raro é visto como patologia, como caminho degradante. Para a protagonista o sexo não é libertação, é também prisão numa cadeia de insatisfações...

10 - Desse modo, talvez o único e auspicioso momento de maior leveza seja seu desfecho, mas que aqui não entregaremos o final, obviamente. Trata-se de um desfecho do devir, ao menos, e ainda que mantendo o estranhamento e a tensão presentes em toda a narrativa, trazem alguma mensagem menos angustiante. E é por todas estas razões de força e eloquência de uma narrativa que nos da pancadas a cada página é que No jardim do ogro é desta leituras relevantes e necessárias, até porque a literatura é a casa das pessoas insatisfeitas.


  

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