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10 Considerações sobre As Mulheres devem chorar... ou se unir contra a guerra, de Virginia Woolf

O Blog Listas Literárias leu As mulheres devem chorar... ou se unir contra a guerra, de Virginia Woolf publicado pela éFe/Autêntica. Neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - As mulheres devem chorar... ou se unir contra a guerra reúne a versão abreviada (publicada na revista The Atlantic Monthly nas edições de maio e junho de 1938) do livro Três Guinéus, obra em que Woolf "desenvolve o argumento de que existe uma estreita conexão entre masculinismo e militarismo, entre patriarcado e regimes ditatoriais". Esta versão ocupa a centralidade desta publicação, somada por pré-textos, pós-textos e o posfácio com um ensaio de Guacira Lopes Louro. Em comum, entre contos, ensaios e artigos, o livro trata da íntima relação entre a guerra é a sociedade patriarcal;

2 - Vale destacar que a obra não apenas revive os textos de Woolf sob o impacto das guerras do Século XX, hoje mais necessários do que nunca, em tempos que parecem querer repetir os erros do passado, mas serve como importante elemento de pesquisa, pois que todo o material é enriquecido por notas e informações acerca do material selecionado e do próprio contexto de escrita. Assim, podemos dizer que é publicação para leitores e pesquisadores;

3 - No conto Uma sociedade, publicado originalmente em 1920, Woolf desenha "A Sociedade das Outsiders". Na obra a autora coloca a mulher na perspectiva política de entendimento do mundo, da necessidade compreendê-lo e mudá-lo. Diz a narradora "nós povoávamos o mundo. Eles os civilizavam. Mas agora sabemos ler, o que nos impede de julgar os resultados? Antes de trazermos outra criança ao mundo, devemos jurar que iremos saber que mundo é esse" deixando claro a necessidade da tomada de consciência, bem como deixando no subentendido de que o mundo construído - e controlado - pelos homens não lhes parece algo exitoso. Todavia, talvez a mensagem mais forte do conto seja o poder de "fazer perguntas", creio, até hoje, uma das coisas mais desconcertantes ao que está estabelecido;

4 -  Profissões para mulheres é texto oriundo de uma palestra proferida por Woolf. "É verdade que sou mulher; é verdade que tenho empregos; mas que experiências profissionais tive eu? É difícil dizer. Minha profissão é literatura; e nessa profissão há bem menos experiências disponíveis para as mulheres que em qualquer outra..." inicia ela que no avanço da argumentação apresenta não apenas os desafios impostos às mulheres no ainda nascente mercado de trabalho, mas também a repressão de uma liberdade plena: "dizer a verdade sobre as minhas próprias experiências enquanto corpo" confessa "não creio ter resolvido. Duvido que alguma mulher já tenha resolvido", e essa, uma percepção importante, porque a despeito dos avanços do feminismo de lá para cá, esse é ainda um problema social não resolvido, e que não nos faltam exemplos, maus exemplos da persistência opressora quanto á liberdade de expressão feminina em muitos campos, principalmente nos que dizem respeito ao corpo;

5 - Em O poder criativo das mulheres, ela responde por meio de duas cartas a Affable Hawk não só refutando seus argumentos machistas ao desconhecer a pressão social contra o desenvolvimento feminino, mas também deixando claro a necessidade da luta: "é preciso que as mulheres tenham liberdade de experiência; que elas difiram, sem medo, dos homens, e que expressem sua diferença abertamente; que toda a atividade da mente seja estimulada, de modo que sempre exista um núcleo de mulheres que pensem, que inventem, imaginem em criem tão livremente quanto os homens, e sem medo do ridículo e da condescendência";

6 - Já o ensaio Carta introdutória a Margaret Llwelyn Davies é um dos textos mais interessantes da seleção por demonstrar a lucidez de Woolf quanto aos desafios e contradições do próprio feminismo. Há sabedoria por parte dela no percebimento que há diferentes lutas femininas e que a divisão das classes sociais tem impacto nisso, seja nos interesses, seja quanto às batalhas mais urgentes. Isso mostra grande sobriedade acerca do contexto de que escreve a autora, e evidenciado quando diz ela "foi assim que tentamos descrever os contraditórios e complexos sentimentos que afetam a visitante de classe média quando forçado a ficar até o fim, em silêncio, num congresso de mulheres operárias";

7 - Aliás, os textos aqui reunidos além da estreita relação entre patriarcado e militarismo, trazem ainda para este ponto de convergência social um tanto opressora as questões de classe, logicamente, bem mais demarcadas à época de Woolf - embora desconfie que talvez o oprimido de ontem tivesse mais consciência de sua situação, do que o proletário de hoje, incapaz de reconhecer-se proletário -. Virginia no conjunto destes textos não volta sua artilharia apenas para o gênero, mas para as desigualdades sociais, em muitos momentos até mesmo cedendo à utopia de uma pobreza comum a todos. Todavia, como observa, este é um sistema que também é criado e governado por homens;

8 - Se no material de pré-texto a seleção reúne publicações pós primeira guerra, e que assim surgem não de todo diretamente, com o texto central e os a posteriori a guerra e o militarismo estarão na centralidade das construções, como Pensamentos sobre a paz durante um ataque aéreo, ensaio já mergulhado na experiência da Segunda Guerra e que converge para a publicação principal a discutir o posicionamento das mulheres sobre a guerra, inclusive com certo incômodo da autora com a apatia muitas vezes escolhida para enfrentar algo tão tenebroso "podemos ver vitrines resplandecentes; e mulheres olhando, admiradas; mulheres maquiadas; mulheres bem vestidas; mulheres de lábios carmesins  unhas carmesins. São escravas que tentam escravizar. Se pudermos nos libertar da escravidão, libertaremos os homens da tirania. Os hitlers são gerados por escravos";

9 - Portanto, habitante de sua história e fortemente impactada por ela e pelo drama insensato da guerra, os textos reunidos mais do que uma observação da relação entre patriarcado, masculinismo e guerra, procura inserir a mulher neste contexto, e de que forma poderiam elas atuar contra a guerra ou simplesmente chorar. Precisa-se considerar, claro, o contexto que permite à Woolf afastar as mulheres da guerra, ou pelo menos isentá-las, pois mal sabia ela que no futuro em nome da mesma liberdade feminina, parte delas veio a reforçar a insensatez da barbárie e da violência entrando para exércitos, combatendo guerras. Creio que uma soldado com uma Ak-47 na mão pudesse passar pelos pensamentos de Woolf. Mas isso, bem, já é outra coisa. Virginia nos textos escolhidos nesta publicação tem o valor e o vigor de questionar uma instituição regrada, coordenada e travada em geral por homens, que usam da guerra para a liberação de todos os monstros habitantes nos seres humanos, vide os diferentes sofrimentos de mulheres durante a guerra, estupros, humilhações, etc... aliás, embora fruto daqueles tempos sombrios, talvez o detalhe interessante seja este, o horror e a oposição da autora à guerra constrói-se de certo modo com certa distância do terror real, cuja maior proximidade no caso dela, pelo menos nestes textos, sejam as fotos de assassinatos em Espanha, de modo que se conhecesse todos os horrores padecidos pelas mulheres naquelas duas guerras, é provável que isso afetasse ainda mais o texto da autora, que se pesada esta questão, mesmo com todo o valor, ainda está longe das piores agruras da guerra. Todavia, vale ressaltar que não era este os objetivos, pois que Woolf não procura descrever a guerra, mas entende-la como constructo do patriarcado de da sociedade de classes construída pelos homens;

10 - Enfim, mais do que um texto sobre feminismo, é um texto sobre o lugar e a posição das mulheres sobre a guerra. A bem da verdade é uma chamado de Woolf às suas pares, procurando pensar e se posicionar como alternativa ao desencanto da guerra. Embora em alguns momentos pendendo para uma ingênua utopia feminista, ao dizer que "a melhor maneira pela qual podemos ajudar a evitar a guerra, tal como a sociedade é no presente e tal como somos no presente, é permanecer de fora de sua sociedade", aqui já entre a utopia de construir uma sociedade sob novos paradigmas e o ceticismo por reconhecer a impossibilidade de evitar a guerra numa sociedade determinada, a de seu tempo. É leitura obrigatória para tempos como o de agora, e permite-nos uma análise de progressos e retrocessos desde que Woolf escreveu tais textos.


             

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