Header Ads

10 + 1 Perguntas inéditas ao editor Daniel Pinsky

O nome do editor Daniel Pinsky é a principal referência no mercado editorial quando trata-se de autopublicações, segmento que apesar da crise no setor livreiro, apresenta tendência de aumento e procura por autores que pretendem tirar suas histórias das gavetas. Sócio-diretor da editora Contexto e fundador da Editora Labrador, especialista no mercado de autopublicações, no post de hoje realizamos 10 perguntas a Daniel Pinsky em que discutimos mercado editorial e principalmente questões a se considerar ao autopublicar seu livro. Confira:

LL: 1 - Olá, Daniel.Tudo bem? Para iniciarmos, você poderia falar como surgiu a Labrador e o que significa ser uma editora de autopublicação num mercado editorial como o brasileiro?

Daniel: A ideia da Labrador surgiu quando estava fazendo mestrado sobre e-books e, durante as pesquisas, caiu em minhas mãos um livro que analisava editoras de autopublicação nos Estados Unidos. Ele mostrava a maior parte delas pecando em vários aspectos – como contato com autor, clareza, sinceridade, cuidado editorial... Então bateu um estalo: sempre fui procurado por pessoas que queriam publicar e eu não tinha uma empresa para indicar. Resolvi montar essa empresa. Assim nasceu a Labrador. Ela ocupou um espaço vazio que precisava ser preenchido pelas editoras de autopublicação premium, que vou explicar mais abaixo. Nosso papel é publicar, com qualidade, as obras de quem não pode ou não quer publicar em editoras comerciais.

LL: 2 - A autopublicação de livros é um método ainda marcado por estigmas e dúvidas. Esse seria o maior desafio de uma editora que trabalhe nesse modelo? Como superar estas desconfianças, e o quanto da experiência da própria Labrador pode colaborar nesse debate?

Daniel: Nosso maior desafio é mostrar que somos uma editora de autopublicação diferenciada. Por oferecermos mais e melhores serviços, muitas vezes somos mais caros. Porém, quando temos oportunidade de apresentar nossos diferenciais com nosso atendimento ou a qualidade do produto final, por exemplo, conseguimos esclarecer bem essas dúvidas, fazer o autor enxergar nosso valor. Assim vamos quebrando estigmas que ainda possam existir. Outro caminho é por meio de palestras ou debates: sempre que sou convidado, aceito e apresento o mercado de autopublicação, ajudando a quebrar essa barreira de desconfiança.

LL: 3 - Aliás, os estigmas e os mitos que envolvem autopublicações estão mais relacionados à inexperiência dos autores, aos editores, ou ao conjunto do setor? E como fazer para superá-los?

Daniel: Acredito que muitas empresas se aproveitam da inexperiência dos autores para prometer o que não cumprirão. Com maior acesso à informação, os potenciais autores têm mais possibilidades de pesquisar e encontrar a melhor editora para o seu projeto. Por ter tantos anos de mercado, acredito que meu papel é também esclarecer aos potenciais autores sobre os diversos modelos de negócio. Eventualmente, o que ele procura não é uma editora de autopublicação e sim uma comercial. Portanto, atendemos a todos com atenção na Labrador e, caso nossos modelos de negócio não interessem ao interlocutor, direcionamos para outras empresas.

LL: 4 - Nesse sentido, o que você poderia dizer a autores que pretendam autopublicar seus livros? Quais questões deveriam ser levadas em conta durante o planejamento de seus projetos literários?

Daniel: Para um autor iniciante, conseguir publicar em uma editora comercial é muito difícil. No entanto, se ele acredita que esse é o melhor caminho, deve preparar a paciência e ir atrás. Existem algumas dicas que dou em palestras para tentar ajudá-lo a ter sucesso nessa jornada. Se decidir pela autopublicação, sugiro pesquisar e entrar em contato com algumas. Pense e exponha seus objetivos. Analise o atendimento de cada uma, pese as variáveis importantes, peça um orçamento. Escolher uma editora envolve fatores objetivos e subjetivos. Use também seu feeling!

LL: 5 - No caso da Labrador, como funciona a política de publicações? Mesmo tratando-se de autopublicações, há obras neste modelo impossibilitadas de publicação? Como orientar e encaminhar autores sobre seus projetos, especialmente quando demandam maior aprimoramento?

Daniel: Nosso papel é aprimorar as obras e, para isso, analisamos o original e sugerimos serviços de textos que podem ser um copydesk, uma preparação, uma revisão. Claro que não transformamos um original complicado em uma obra prima, nem é nossa função. Mas todas as obras têm espaço para aprimoramento e nosso papel, nesse sentido, é trabalhar da melhor maneira seu potencial. Depois trabalhamos toda a arte, a capa e a diagramação, sempre levando em consideração os objetivos do autor. O trabalho é customizado. Não nos cabe fazer um juízo se o original deve ou não ser publicado e, até hoje, só deixamos de publicar uma obra, pois fazia apologia ao racismo.

Já publicamos livros de arte, romances, educação, religiosos, infantis, biografias... Somos habilitados a publicar qualquer tipo de livro com qualidade. 

LL: 6 - Além disso, a Labrador possui a nosso ver, um importante diferencial em relação a maioria das editoras que atuam nesse modelo, sua experiência e relação com o mercado (Daniel é sócio da editora Contexto). No que isso pode ajudar, ou atrapalhar no desenvolvimento do projeto?

Daniel: Só ajuda. Para começar, funcionamos no mesmo confortável prédio onde fica a Contexto. Meus 30 anos de mercado ajudam muito na hora de lidar com autores. Além disso, tenho um extenso network, em especial nos departamentos comerciais de livrarias e distribuidoras. Mas é importante frisar que o único ponto de contato das duas editoras sou eu. Contexto e Labrador não tem nenhum departamento em comum, são equipes distintas.

LL: 7 - Falando em mercado, o mundo dos livros não tem passado por dias fáceis. Ainda assim parece-nos que a intenção de publicar não arrefece, e temos a sensação de que nunca tivemos tantos escritores no país, alguns de muita qualidade. Isso é impressão nossa, ou de fato a demanda por publicação é muito grande?

Daniel: A demanda por publicação é grande. Um livro – ao contrário de posts, tweets e afins – carrega consigo uma aura de legitimidade, além de ficar para a posteridade. Por isso, quem contrata a Labrador sabe que seu livro não sairá de catálogo enquanto ele quiser e a editora existir. As pessoas escrevem livros com paixão. Por isso, temos a responsabilidade de tratar cada projeto com enorme carinho. Um amigo fotógrafo me confessou uma vez que não fazia casamentos, pois achava a responsabilidade grande demais, ele não podia errar. Nesse sentido somos “fotógrafos de casamento”, temos que caprichar. Em relação à qualidade, não consigo analisar, pois não tenho parâmetros de comparação, mas posso dizer que diversos originais que publicamos tem muita qualidade literária.

LL: 8 - Falando agora de nossa experiência de leitura de obras autopublicadas (ainda não tivemos oportunidade de ler publicações da Labrador). Tivemos diferentes e antagônicas experiências. Algumas obras literariamente frágeis, mas escritas com correção, outras de enorme potencial literário, mas cujos problemas de edição (como a revisão) atrapalharam a leitura. Você acredita que a superação disto esteja justamente na forma de como os editores enfrentam seus objetivos e constroem a missão e conceito de suas editoras? A tendência futura é que os projetos mais qualificados e cuidadosos com essa questão ajudem a melhorar o modelo?

Daniel: Não posso garantir que não tenhamos obras literalmente frágeis, mas dificilmente você irá encontrar problemas de revisão. Temos um limitador que é o próprio interesse do autor em investir mais em sua obra. Autores com grande potencial muitas vezes já vem com obras mais preparadas, pois fizeram cursos em oficinas de escrita, têm profissões ligadas ao texto ou até mesmo já enviaram seus textos para leituras críticas. Fazer uma edição profunda da obra é algo caro que a maioria dos autores não esta disposta a pagar. O copydesk, que é normalmente o máximo de intervenção que fazemos, vai até certo ponto, mas não transforma uma obra frágil em uma de alta literatura.

Eu acredito que teremos sempre uma heterogeneidade em nossas publicações pela Labrador. Obras mais frágeis acabarão tendo circulação mais restrita, no entanto obras com maior potencial, por conta do tratamento caprichado tanto no texto quanto na arte, terão cada vez maior chance de sucesso. Nesse sentido, o contrato da Labrador é aberto: caso um autor que publica conosco seja procurado por uma editora comercial, ele pode romper o contrato na hora que quiser e levar, inclusive, todos os arquivos de seu livro. Cada editora tem o seu perfil, sua missão. Acredito que continuaremos a ter diversos modelos de autopublicação, pois nem todos estão dispostos, ou têm recursos, para investir. Nesse sentido, modelos como o KDP da Amazon, atendem a demanda.

LL: 9 - Nisso, a parceria entre autores e editores não é fundamental?

Daniel: Sempre é importante, porém também é essencial que o autor auxilie também na divulgação da obra. Temos um trabalho de divulgação, mas ela é mais geral. Damos diversas dicas para que o autor possa trabalhar seu marketing e levar mais visibilidade para sua obra.

LL: 10 - Pensando no cenário de hoje, o que um autor pode esperar optando pelo modelo de autopublicação? Aliás, com a tendência de as grandes casas editoriais restringirem a publicação de novos nomes, você imagina crescimento no setor?

Daniel: Esse modelo vem crescendo há tempos e essa é uma tendência  que vai continuar. O autor pode esperar coisas diferentes de diferentes modelos. Na Labrador, ele pode esperar um atendimento individualizado, um livro de qualidade em texto e arte, distribuição do livro físico e digital, presença em eventos como a Flip e perenidade de seu título em nosso catálogo.

LL: 11 - Não podíamos deixar de fazer esta pergunta. O fato de recebermos muitas obras nacionais para leitura aqui no blog, revelou-nos interessantes narrativas. Nesse sentido, o fato de você conhecer bem os dois modelos de publicação concorda com nossa percepção de que editoras maiores por um motivo ou outro ter de restringir suas publicações ( e até entendemos a necessidade) a certo mainstream literário ou acadêmico, a autopublicação nessa perspectiva é uma porta fundamental para novas descobertas literárias, e onde a literatura flui, digamos,com maior liberdade? 

Daniel: Sem dúvida. Por isso que vários modelos de negócio de autopublicação são importantes, não somente a Labrador. Hoje, existem diversas alternativas de publicação que devem ser exploradas para que cada autor encontre a mais adequada. Nem todos terão sucesso ou grande circulação, claro, mas é importante que “vejam a luz do sol”. Dessa maneira, podem ser lidos, criticados, darem ideias e caminhos, apresentar novidades. Originais não devem ficar trancados nas gavetas (ou perdidos em arquivos no fundo do HD).

Nenhum comentário