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10 Considerações sobre Contos Clássicos de Terror ou sobre o crepúsculo das almas

O Blog Listas Literárias leu Contos Clássicos de Terror, organizado por Julio Jeha e publicado pela Companhia das Letras; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Contos Clássicos de Terror é uma potente seleção que reúne grandes nomes do gênero, inclusive com a ótima decisão de inserir entre os clássicos internacionais, grandes autores brasileiros, de modo que as 19 narrativas reunidas perpassam diferentes momentos e literaturas, de autores pertencentes à gênese deste gênero literário como Poe e Lovecraft a nomes mais contemporâneos como Lygia Fagundes Teles e Stephen King;

2 - A seleção dos contos pertencentes ao livro foi feita por Julio Jeha, que segundo ele, "os contos reunidos nesta coletânea transitam entre gótico, horror e terror, sem se afiliar a nenhuma dessas categorias com exclusividade. Contudo, vale deixar de lado a tentativa de distinguir essas formas entre si e pensar numa literatura do medo, conceito mais amplo e abrangente" que para o apresentador e selecionador destas narrativas "a literatura do medo é, sobretudo, múltipla e não se deixa capturar em um só desenho".

3 - Embora não possamos de fato negar a multiplicidade dos trabalhos e estilos reunidos nesta seleção de contos, um inclusive flertando com a ficção científica, caso de Os olhos que comiam carne, de Humberto de Campos, há pelo menos dois elementos que independentemente de suas épocas parecem unir todos os trabalhos escolhidos, como a proximidade de praticamente todos os trabalhos com a acepção do conto e suas teorias, no caso as contribuições de Edgar Allan Poe para o seu conceito de conto, trabalho que parece liderar todos os demais contistas selecionados, pois que os contos do volume presam bastante pelo uso do efeito final no leitor e pela concisão, estética cara à Poe;

4 - Por exemplo, o conto A Causa Secreta, de Machado de Assis, nosso prolífico e múltiplo beletrista nacional. Neste conto vemos muito da influência de Poe para o gênero, em que Machado conhecedor do desafio e cioso de que o conto "a despeito de sua simplicidade, é gênero difícil" constrói sua narrativa com muito primor, primeiro apresentando ao leitor o metodismo da vilania e do antagonismo para ao final impactar os leitores a partir da sequência narrada ao imaginar a frieza maldade de uma noite longa, muito longa;

5 - A proximidade dos contos com a base que Poe para o gênero é um dos elementos que dão certa homogeneidade aos trabalhos selecionados, a outra característica, intencional ou não, é que os trabalhos presentes no livro versam menos de maldições e do sobrenatural e sim sobre a sombra das almas e suas vilanices;

6 - O que pretendo dizer com isso, que independentemente se o conto penda para a literatura fantástica e seu momento de suspeição ou que meta os pés totalmente dentro do sobrenatural com suas criaturas e monstros, nenhuma delas mostra-se mais mortal e tenebrosa que a natureza humana, mesmo quando vítima, como em A Selvagem, de Bram Stoker quanto algos como em O Tarn, de Hugh Walpole ou A Tapera, de Coelho Neto. Em todos os contos a torpeza e a vileza humana saltará diante dos leitores;

7 - A bem da verdade é como se estivéssemos diante um tratado sobre as partes sombrias da natureza humana, da alma para os que nela acreditam. Via de regra os contos reunidos apontam para os ressentimentos, os fracassos, os tabus ou mesmo torpes humana em suas diferentes morbidades como em Emoções de João do Rio;

8 - Isto significa dizer que os contos em geral apresentam derrocadas morais, são permeados pela inveja e mesmo pela vingança como o próprio - e bastante conhecido - O Barril de Amontillado, de Poe ou então o Venha Ver o Pôr do Sol, de Lygia Fagundes Teles. Assim um monstro talvez diferente surja diante os leitores, o monstro humano, seja ele em sua natureza individual ou coletiva como o caso de A Loteria, de Shirley Jackson. De certa forma os contos aqui selecionados reforçam aquela velha máxima de Guimarães Rosa de que "o diabo vige no hôme";

9 - Portanto, conforme trata o próprio título, a obra reúne clássicos do gênero (dos quais confesso, conhecia poucos dos contos e alguns autores) que tanto pelas características do próprio conto, quanto pela força simbólica de suas metáforas fazem-se ainda leituras pertinentes e importantes. Além disso, para o bem e para o mal, trata de questões não resolvidas da sociedade e individualidade humana;

10 - Enfim, é ótima leitura para os fãs do conto, e também para apreciadores da boa literatura. Em tempos em que ressentimentos e rancores impulsionam e tensionam nosso globo, trata-se de um interessante panorama do quão maldosa pode tornar-se a natureza humana.



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