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10 Considerações sobre O Rei das Cinzas, de Raymond E. Feyst, ou sobre reis de nada

O Blog Listas Literárias leu O Rei das Cinzas, de Raymond E. Feist publicado pela editora Harper Collins; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Primeiro volume da saga dos Jubardentes, O Rei das Cinzas é fiel ao gênero e nos apresenta uma trama bem engendrada, um universo elaborado e factível e uma narrativa de evolução gradual das tensões que aguçam a voracidade do leitor, especialmente em sua pate final, após seu início em tons amenos, ainda que traga a queda de um reino e a promessa da vingança futura;

2 - O romance inicia-se com a queda do reino da Itrácia e seus governantes, os Jubardentes, todavia em meio a essa derrocada acompanhamos as escolhas e ações que desencadearão os eventos futuros, no caso, o presente da narrativa em que saltam mais nitidamente os protagonismos dos jovens Declan, Hatu e Hava, que movem-se mergulhados no desconhecimento de suas origens e participam duma grande rede em que intrigas, traições e desejos de poder estão presentes, embora os protagonistas ainda bem não o saibam;

3 - Tudo isso no clima que faz a obra então ser bastante fiel ao gênero da fantasia, ou seja, um mundo ficcional construído a partir da recorrente estrutura medieval que parece dominar nesse tipo de obra, estrutura essa tanto no que se refere à tecnologia quanto aos costumes sociais, sendo inicialmente construída uma abordagem mais realista da Idade Média, até que a magia e criaturas misteriosas e fantásticas vão surgindo de forma bastante discreta, mas não sem deixarem-se de impregnar então a narrativa do fantástico e apontar para grandes acontecimentos na sequência;

4 - É nesse universo então que movem-se os três principais protagonistas, que embora distanciados internamente em suas jornadas, vivem num mundo ainda bruto, marcado pela violência e a força em que a sobrevivência é conquistada a cada dia. Nessa jornada em que seus caminhos convergem para possíveis encontros, Hatu e Hava são treinados numa ilha de ladrões e assassinos, enquanto Declan, é um jovem ferreiro que alcança o título de mestre muito cedo, mas que precisa sair de seu vilarejo recôndito quando as coisas começam a piorar e a guerra se insinua;

5 - Nessa altura, já podemos perceber então que dentre aquelas características tão presentes ao gênero, permanece elementos como a predestinação, algo claro desde o prólogo, bem como a incapacidade de superar determinadas estruturas sociais determinada visto que o protagonismo e a predestinação, como é comum à fantasia volta-se sempre às camadas do topo das estruturas sociais já que mesmo quando por bastardos, há nos heróis ainda a noção de linhagem e nobreza, como nos casos de Hatu e Declan, dos quais teremos maiores informações, enquanto a jovem Hava e seu histórico será um tanto misterioso ainda, ao final deste primeiro livro;

7 - Quanto à caracterização e alegoria medieval da narrativa, poderíamos pensar talvez que o elemento central ao fundo das discussões vai tratar da fé, ou melhor, das relações de poder e fé que tanto no ambiente medieval de Feist quanto em nossa história foi marcado por uma violenta mudança de força e autoridade, cuja analogia, aliás, é bastante simples e clara, ao abordar a supressão do politeísmo pela existência de um deus único. No romance é um dos detalhes que chama a atenção e agrada ao leitor mais minucioso, pois Feist caracteriza com qualidade essa alternância de fé dada pelo poder da espada e por decretos reais revelando a distância entre a adesão da mera aceitação pragmática por aqueles que não querem encontrarem-se com as piras inquisitórias;

8 - Aliás, vale ressaltar que um dos elementos interessantes da narrativa de Feist é sua capacidade de dar vivacidade à obra com detalhamentos precisos e às vezes, até de certo preciosismo, e que acabam tornando seu universo um tanto palpável, como a cena ente Declan e Edvalt na forja do aço-joia em que cada movimento mecânico destalhado falam não só das capacidades de seus personagens, mais dão contornos identitários a eles com grande autenticidade. O mesmo se repetira nas viagens de seus heróis, nos combates, enfim, Feist é exitoso em nos colocar diante cenas vívidas;

9 - Por outro lado é preciso acompanhar um tanto mais para tratarmos das complexidades de seus personagens, que embora as tenham, talvez ainda não estejam nas camadas mais profundas, de modo que há certa previsibilidade de suas ações. Do mesmo modo, se por um lado a narrativa nos apresenta sempre uma padrão de impecável qualidade, talvez o leitor de fantasia mais calejado vá observar que ao menos nesta primeira obra não encontremos grandes novidades, o que acaba servindo de certo contraponto à precisão de todo;

10 - Enfim, O Rei das Cinzas percorre o caminho dos principais clássicos da fantasia épica e medieval, uma primeira publicação de uma saga que nos parece promissora tratando da recorrente, mas ainda não superada, luta pelo poder e nesse embolo, as crenças e as fés, numa narrativa em que espadas tilintam uma contra as outras, cabeças desprendem-se dos pescoços, e intrigas e armadilhas estão logo ali na primeira curva da estrada.


2 comentários:

  1. Posso ler este livro sem ter lido as outras séries do autor?

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    1. Podes ler tranquilamente, pois trata-se do primeiro de uma nova série. Abcs.

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