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10 Considerações sobre Português Brasileiro: Uma Viagem Diacrônica, ou que língua tu falas?

O Blog Listas Literárias leu Português Brasileiro: Uma viagem diacrônica publicado pela editora Contexto; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 – Antes de mais nada, vale citar que esta avaliação é de leitura um pouco diferente do que estão acostumados os leitores do Blog, mas não menos interessante, pelo contrário, Português Brasileiro: Uma Viagem Diacrônica é uma ótima leitura para aqueles que possuam interesse nas discussões acerca da língua, sejam esses interesses acadêmicos ou não. Dito isto, a obra reúne artigos que abordam e discutem a língua falada aqui no Brasil em comparação ao Português Europeu, especialmente focando as distinções de ambas que levam imediatamente ao termo “português brasileiro”;

2 – Todavia, se a obra pode ser uma ótima oportunidade de conhecimento para quem procura além do básico sobre a língua que falamos, vale o informe de que a obra é construída por artigos de caráter científico escritos por renomados linguistas, com isso, claro, uma produção bastante técnica e teórica, de modo que leitores leigos, talvez inicialmente possam estranhar a leitura. Por conseguinte, para os leitores que procuram no trabalho referências acadêmicas, estarão diante importantes contribuições nesta longa jornada de estudos e produção científica abordando a língua que falamos no Brasil, e todas as polêmicas que disto saltam;

3 – O livro é composto então por 12 artigos, mais prefácio, posfácio e apresentação. Com 2 artigos de Fernando Tarallo, e os demais que de alguma forma dialogam com as pesquisas deste importante linguista, que no livro, aliás, é apresentado por Ataliba Castilho, outro grande pesquisador da língua. Já a apresentação do conjunto da obra é feita por uma das organizadoras do volume, Mary A. Kato, que em síntese resume-o num “conjunto de trabalhos, na maioria escritos por jovens doutorandos, mostra que, mesmo nas condições adversas em que vivemos, foi possível executar um projeto que revela uma parte substancial da gramática brasileira”;

4 – Para tanto, convém reforçar a explicação de Ian Roberts, um dos organizadores da publicação, sobre a própria organização dos artigos no interior da publicação, sendo eles reunidos em três grupos “(a) aqueles que lidam primordialmente com o parâmetro do sujeito nulo, (b) aqueles que discutem aspectos do movimento de verbo e sistema verbal e (c) aqueles ligados à mudança na colocação dos clíticos, perda do sistema de clíticos e/ou distribuição de argumentos vazios de forma mais geral”;

5 – Exemplo de artigo do primeiro grupo temos “Do pronome nulo ao pronome pleno: a trajetória do sujeito no português do Brasil”, de Maria Eugenia Duarte, que dentre outras observações aponta que analisando peças de teatro pode-se perceber que há “elementos para supor que a tendência é, de fato, uma redução ainda mais significativa do sujeito nulo” no português do Brasil. Ainda segundo a autora, “na verdade, o que ocorreu no francês medieval e o que ocorre com o português do Brasil hoje sugerem um período de transição nas duas línguas de pro-drop para não pro-drop;

6 – Integrante do segundo grupo temos o artigo bastante amplo e profundo de Iza Ribeiro, “A formação dos tempos compostos: a evolução histórica das formas ter, haver e ser”. Entre outros resultados e discussões, a autora propõe que “os fenômenos relacionados com o enfraquecimento de AGR (Concordância) derivam de mudança paramétrica na gramática, que consideramos também ter atuado na exclusão de ser das construções perifrásticas com verbos inacusativos e das existenciais”;

7 – Uma das distinções mais perceptíveis entre o português falado na Europa, e o nosso do Brasil, é a questão da posição dos clíticos, uma diferença notada mesmo por aqueles que não debatem e se aprofundam nas questões linguísticas, e que em contraparte, tendo em vista o poder das gramáticas normativas, estas ainda bastante influenciadas pelos europeus, causa grande confusão entre escreventes. A posição dos clíticos, é portanto, o terceiro grupo que fala Kato, na organização da publicação e cujo exemplo de artigo deste grupo temos “Clíticos, mudança e seleção natural”, de Emílio Gozze Pagotto que conclui “pela visão adotada, lidar com a posição dos clíticos é lidar com regras de movimento que desempenham um papel central na gramática de uma língua” sendo que segundo ele “o processo de mudança do qual resultou o português brasileiro fez com que esse último perdesse a possibilidade de subida do clítico nos grupos verbais, a próclise à negação e a ênclise em sentenças infinitivas e gerundivas”;

8 – Tais questões abordadas aqui, como já dito anteriormente, são fortemente influenciadas pelo trabalho de Tarallo, que na publicação abre o livro com dois artigos, “Sobre a alegada origem crioula do português brasileiro: mudanças sintáticas e aleatórias” em que problematiza a possível crioulização do português brasileiro e “Diagnosticando uma gramática brasileira: o português d’aquém e d’além mar ao final do Século XIX” em que o foco é justamente as questões envolvendo os clíticos;

9 - Por fim, sobre os três principais grupos citados por Roberts, o autor em seu posfácio “O português brasileiro no contexto das línguas romanas” os abordará distintamente, sendo que ao final ele observa que “está claro que estudos cuidadosos e teoricamente sustentados acerca da mudança em progresso no PB podem ser de grande relevância para a sintaxe diacrônica” e que “a contribuição de Fernando Tarallo ao colocar as questões e indicar a direção em que se devem buscar as respostas tem sido imensa”;

10 – Enfim, o livro tanto uma homenagem ao trabalho de Tarallo, mas também uma importante investigação histórica de determinadas mudanças do português brasileiro em relação ao português europeu, fazem deste livro uma importante fonte de pesquisa, para a linguística, a linguística histórica, e claro, a sociolinguística.



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