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10 Considerações sobre As Perguntas, de Antônio Xerxenesky ou não ser sobre fantasmas, ou ser...

O Blog Listas Literárias leu As Perguntas, de Antônio Xerxenesky publicado pela Companhia das Letras; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 – Trazendo o horror e o suspense para o espaço urbano, o essencial de As Perguntas não está na sua pretensão de abordar o ocultismo, mas sim o próprio ambiente degenerado e desgastado que ressalta uma espécie de literatura do desencanto muito comum entre autores-acadêmicos, que no caso desse romance traz toda uma geração perdida que em meio a uma bolha protetiva da classe média brasileira, acaba parecendo sem sentido e sem razão representadas por personagens um tanto desconectadas de um mundo mais amplo;

2 – É o caso da narradora-protagonista Alina, doutoranda e em religião comparada mas que quando cobrada de seus conhecimentos, não consegue mais do que dar respostas superficiais quando questionada, enquanto equlibra sua existência acadêmica e o desencanto com a cidade e sua própria vida e trabalho ordinário que executa diariamente sem sentido maior do que quitar o aluguel ao final do mês;

3 – Isso em parte corrobora para o superficialismo com que o ocultismo apresenta-se na obra, sempre sem grande profundidade ou mesmo mistérios complexos para além de uma ou outra simbologia, distante, por exemplo, de um O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, cuja zona de transição entre crenças e mitos a princípio poderiam ser partilhados entre as obras. Todavia, vale ressaltar que muito provavelmente como o ocultismo aqui não é a questão da narrativa, isto não venha a ser problema, ainda que os mistérios entre o real e o talvez irreal é que movimentem a protagonista durante todo o enredo;

4 – Antemão, vale destacar que trata-se o romance de uma obra que usa bem a fluidêz dos gêneros literários, numa narrativa que por às vezes aproxima do romance de detetive (amadora, como pensa a protagonista), e noutros momentos joga entre os limites do horror sobrenatural com o tempo da incerteza que bem caracteriza o fantástico, de modo que sua afiliação sempre poderá causar bom debate;

5 – Mas, sem dúvida alguma a cidade e os anseios geracionais serão os principais elementos de valor literário da narrativa, pois são este que provocam todos os dilemas e nos levam às opacidades humanas presentes na narrativa e sua protagonista que praticamente nos narra um monólogo centrado num dia seu de grandes estranhezas, as quais são amplificadas por suas reminiscências temporais que ampliam as dúvidas existencias de Alina, que desde a infância possui estranhas experiências com o sobrenatural, ainda que sempre fiquemos entre a concretude da experiência e a ilusão o devaneios vivenciados por alguém que viu o que desejava ver;

6 – Entretanto, como dito, as “experiências” sobrenaturais de Alina surgem mais como amplificadoras de seus dilemas mais importantes. O primeiro, sem dúvida, trata-se do desencanto com uma vida sem aventuras e mundanas, ainda que protegida pela bolha da classe média. Nesse aspecto a protagonista não cansará de ver-se como integrante de uma geração perdida denunciando sua própria futilidade e incapacidade de compreender os aspectos de um mundo mais amplo. Tanto que a própria narradora em determinados momentos criará nos pensamentos imputados à Delegada a crítica que ela fará a si mesma, de modo que sua consciência “disfarçada” em hipotéticos falares sobre Alina, meio que julgará a uma geração inteira;

7 – Além disso, não bastasse o sentimento angustiado na personagem perante a realidade de us existência, sua própria movimentação na trama reforçará suas reflexões críticas, andando essencialmente dentro de uma bolha, de um grupo uniforme, em que todo o gigantesco outro parece não existir, e ter a mínima noção disso acaba provocando em Alina forte crise que leva-a a tantas perguntas;

8 – Deste modo, temos então um universo interior implodido e que se amplifica com a desolação e opressão do ambiente urbano. No romance temos uma cidade que do sonho utópico transformou-se numa existência real e distópica, e com isso, acontece como que se de uma hora para outra Alina fosse visitada por um John Selvagem que lhe abre os olhos para as ruínas de seu admirável mundo novo;

9 – E é nesse instante que se intensifica a literatura de desencanto, vista em obras de autores contemporâneos como Daniel Galera, que em seu Meia-Noite e Vinte trabalha elementos semelhantes, apenas noutra estética. Em ambos os casos temos a narrativa desencantada de uma geração que vislumbrou o futuro, não viu o presente construir-se, e hoje precisa olhar para o passado com olhos questionadores perguntando-se quando e onde erramos?

10 – Enfim, numa narrativa intensa, às vezes apressada, o sobrenatural será um acessório em algo bem maior e interno, numa obra marcada pela melancolia de quem ainda acredita que hajam respostas paras as perguntas. É o desencanto e a desolação do romance uma confissão dolorosa da incompreensão de quem acreditava habitar um mundo tão grande e cheio de perspectivas, mas na verdade estavam “presos” a bolhas-comuns que por décadas vem causando cegueira para todo o resto. Um gigantesco resto de mundo.




Um comentário:

  1. Ainda quero muito ler este livro. Do autor, li apenas F, que achei sensacional e colocou Xerxenesky no meu radar - quero ler outros livros dele e já tenho um aqui na estante na fila. Este último ainda preciso comprar. Este tema, que passeia pelo sobrenatural, me atrai e também gostei de você ter mencionado Daniel Galera no post, que é outro autor nacional que eu admiro bastante - gosto de tramas que trazem essa desilusão perante a vida.

    Ótima lista! Beijos,
    Aline | Livro Lab

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