10 Considerações sobre Meia-Noite e Vinte, de Daniel Galera ou como chegamos ao fim de tudo

O Blog Listas Literárias leu as provas antecipadas de Meia-Noite e Vinte, de Daniel Galera; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Dotado de intensidade e densidade Meia-Noite e Vinte é um livro que fala sobre diversas coisas, mas acima de tudo retrata o pessimismo e a desesperanças destes tempos de uma geração que construiu a internet e a própria "webcultura" mas que hoje procura entender como o mundo parece ter descido ladeira abaixo;

2 - É que vemos neste romance de Galera uma resignação cínica diante de um contexto urbano recente tomado pela violência e pela própria falta de expectativas, como se algo roesse de dentro pra fora suas personagens que declinam neste novo universo enquanto olham para duas décadas atrás em flasbacks que contrastam o sonho de um mundo que desejávamos com o contraponto apresentado num presente com o mundo que efetivamente recebemos (também construímos);

3 - Nesse sentido não poderíamos deixar de observar um detalhe interessante da obra. Se por um lado temos a fragmentação das vozes narrativas divididas por três narradores, por outro a desesperança e um olhar saudosista traz unicidade que ligam tais personagens que em cujo passado compartilharam histórias juntos e cujo presente se unem novamente a partir da morte de um amigo em comum, o escritor Duque;

4 - Aliás, certamente seria precipitado ou mesmo uma incorreção pensarmos em Duque como alter ego de Galera, contudo, o personagem traz em sua gênese semelhanças à carreira do autor, especialmente trazendo a militância nos primórdios da internet que assim como Duque fora a ferramenta pela qual Galera conseguiu conquistar seu espaço na literatura. A internet, inclusive é um dos elementos centrais da narrativa que de certa forma reflete sobre certa ingenuidade daqueles tempos em comparação com o ambiente de hoje tomado por grande corporações como que se a obra quisesse gritar "olha só como estragamos uma ideia inicial tão bacana";

5 - Todavia o caminho constante percorrido pelos pensamentos dos três narradores até os anos noventa, não só uma reflexão sobre o mundo virtual, é sim um mergulho intimista de cada um dos personagens que falam de suas incoerências, suas complexidades, de como suas vidas desandaram, pois o que os une é certa insatisfação, um enfado que permeia toda a narrativa composta de uma classe média que parece buscar um sentido para suas existências enquanto lidam com a morte do amigo;

6 - Além disso, o texto acaba percorrendo também o campo da incompreensão, das quebras de expectativas. Ao mesmo tempo que os personagens não compreendem o novo ambiente, tomado de manifestações, protestos, greves, uma cidade caótica e fedorenta, também não compreendem onde foram parar suas ilusões, seus sonhos, tergiversando geralmente com amargura a respeito de suas próprias vidas como que se algo estivesse engasgado e sem solução em suas gargantas;

7 - Por estas e outras razões o romance de Galera mais do que fôlego, tem densidade e nos persegue mesmo após o fim de sua leitura, pois ficamos remoendo as percepções e as sensações de suas vozes narrativas que de certa forma consegue reunir uma série de questionamentos e dúvidas presentes nas gerações que nasceram nos finais dos anos 70 e anos 80 e que viram muita coisa acontecer no mundo, mas que hoje parece estar fora deste próprio mundo numa sensação de não pertencimento que acaba nublando de alguma forma o hoje enquanto tenta-se viver eternamente o ontem;

8 - Contudo, é preciso dizer que mesmo com estas qualidades irrefutáveis do romance, Galera passeia por um terreno que parece amarrar boa parte dos escritores contemporâneos cujas narrativas não fogem de um centro intelectual e cultural habitado por acadêmicos, autores, jornalistas, dando a sensação de que acompanhamos mais uma bolha do que um mundo completo, talvez aí a distância destas personas das outras coisas do mundo o que certamente colaboraria para a construção da incompreensão que pauta seus protagonistas que habitam um determinado recorte e não conseguem entender como para além daquele recorte tudo foi dando errado. Além disso, talvez por esse universo restrito, por exemplo, Galera cria um mundo de iphones e ipads padronizando tudo a sua volta;

9 - Ainda, vale ressaltar diante o cenário "apocalíptico" e da certeza do final dos tempos evocada por Aurora (uma das narradoras) o romance não nos apresenta um desfecho, talvez um novo começo visto que tudo fica em suspenso para seus protagonistas. Antero nos dá a percepção de uma retomada de sua vida enquanto Emiliano se despede dando uma volta de 360º na sua vida que não deixa de surpreender ao mesmo tempo que pode ser questionável. Já Aurora ao querer encontrar o crepúsculo do mundo nos apresenta uma imagem um tanto onírica, até condizente para suas viagens mentais; no conjunto, portanto, caberá aos leitores construir e reconstruir as narrativas destes narradores encontrando caminhos ou imaginando futuros, tudo com uma atmosfera que se agarra à nossa pele;

10 - Enfim, Meia-Noite e Vinte é um tiro de bazuca no ufanismo. Tomado por certa melancolia numa espécie de acerto de contas prematuro com a vida, os personagens provocam-nos a refletir a partir do íntimo, ao mesmo tempo que revelam o quanto as últimas três décadas tatuaram na pele de cada um de nós suas marcas numa espécie de grito que conta como o mundo mudou e como ainda estamos tentando entendê-lo, ainda que haja pouca esperança para isto.



10 Considerações sobre Meia-Noite e Vinte, de Daniel Galera ou como chegamos ao fim de tudo 10 Considerações sobre Meia-Noite e Vinte, de Daniel Galera ou como chegamos ao fim de tudo Reviewed by Douglas Eralldo on quinta-feira, setembro 22, 2016 Rating: 5

2 comentários

  1. Achei o livro fraco. O mote de situar-se naquele período do começo das Grandes Manifestações acaba meio soterrado diante dos dramas dos personagens, possivelmente inspirados nos próprios amigos do Galera. Como ele mesmo disse, este não é um livro "geracional", e realmente, de forma alguma merece ter esta etiqueta. Porque é um livro insosso.

    O sujeito escreve bem, apesar de manter uns vícios (descrição exagerada do que os personagens vestem), mas até hoje não jogou um romance de peso, e "de peso", digo, algo superior à sua zona de conforto narrativa. Ao menos aqui ele soube convencer na voz de uma mulher, como tanto na voz de um gay e de um hétero (como que propositalmente) descerebrado.

    Pra mim, é o escritor brasileiro mais superestimado dos últimos anos.

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