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10 Considerações sobre O Legado da Ruína, ou por que o ódio....

O Blog Listas Literárias leu O Legado da Ruína, de William Tannure publicado pela editora Chiado; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1- O Legado da Ruína é uma leitura interessante e bem planejada naquilo que se propõe, construindo um universo próprio a partir de influências e referências das principais obras do gênero (comercialmente literatura fantástica, para crítica, o maravilhoso) através de uma boa escrita e narrativa capaz de levar o leitor por suas páginas sem sobressaltos;

2 - Na obra, cujo "final" é apenas um novo começo, somos apresentados a um mundo movido pela violência, pelo ódio e por barbarismos, controlado por um rei outrora herói, e seus filhos, que ao longo da narrativa trilharão caminhos distintos, especialmente pela magia e os conhecimentos ocultos;

3 - Nesse sentido, Tannure consegue criar um universo bastante convincente, de estruturas bem traçadas, criaturas e espécies que não fazem feio a outras obras do gênero, primando especialmente por imagens fantásticas e ação quase que constante, fatos que podemos ver como positivo no sentido de construção da sua trama;

4 - Todavia, é ao adentrarmos o espaço crítico da narrativa que perceberemos uma série de elementos que precisam ser questionados ou que demandam reflexão por parte do leitor, especialmente quanto aos conceitos e valores presentes em suas personagens e no próprio desenrolar narrativo, porque se de um lado a obra reúne elementos conhecidos do gênero, por outro, há diferenças notáveis nos pressupostos éticos que conduzem suas personagens;

5 - Vejamos, por exemplo, seus protagonismos, destituídos de qualquer criticidade e de conduta que os afastam dos tradicionais heróis da literatura fantástica, de modo que ao leitor crítico saltará aos olhos a inexistência do herói, porque a ação no romance estará sempre ancorada em reacionarismo, ódio ou acordos ambivalentes que não alteram a opressão, pelo contrário...

6 - Isso pode ser problematizado com o próprio texto de contracapa do livro que diz: "um império opressor, três príncipes, três destinos, E o olho do Abismo que se abre". Para mais uma vez distingui-lo dos seus pares, em geral, nas obras que vimos como influência ao autor, há no mínimo a tentativa de se opor à opressão, no todo ou em parte, seja na Terra Média bastante unificada pela luta entre o bem e o mal, seja numa Westeros fragmentada, mas que ainda em pequenos núcleos repete a luta dos justos contra os maus. Isso não existe em O Legado da Ruína porque mesmo seus protagonistas agem tão somente no intuito de continuar salvando o império liderado por Rognam, a despeito de toda sua tirania;

7 - É nesse momento que estabelece-se a dúvida quanto às intenções do autor, porque não é possível estabelecer claramente se este enaltecimento da violência trata-se de crítica, elogio ou nenhum dos casos. Todavia, por causa disso, a identificação com a trama sofre impactos, pois em sua narrativa, ainda que possa ser ingenuidade ou utopismo, o leitor não se defrontará com personagens virtuosas no livro, quiçá apenas uma que morre violentamente no começo da trama;

8 - Nesse sentido o melhor exemplo do que se fala nesse post é o próprio candidato a herói, o príncipe Regnar, que a princípio parecerá aquele enjeitado que se rebela contra a tirania, no caso a de seu pai, seu rei, mas que contudo, ao fim traveste-se de mais um elemento a colaborar para que o Império não caia e que continue com suas tiranias, de modo que em momento algum ele antagonizará com os desmandos;

9 - Um detalhe que deve ser comentado, que embora a boa escrita e mesmo estilo do autor, a revisão da editora poderia ter colaborado mais, pois pelo grande volume de texto e especialmente na segunda metade da narrativa as gralhas com problemas de digitação especialmente surgem um pouco além da conta, ainda que não atrapalhe a leitura;

10 - Enfim, O Legado da Ruína embora traga suas referências, possui identidade própria e trata-se de um trabalho que tem boas qualidades e que propicia uma leitura capaz de levantar debates e discussões, o que por sua vez fala bem da obra. Logicamente, quando observamos com criticidade os valores nele contidos, a partir de então, poderíamos estabelecer uma série de reflexões, e de algum modo é uma narrativa que não deixa de carregar as cores sombrias de tempos em que o ódio, a violência e o amor à guerra desalojam os heróis, pois não resta nada além dos "caras maus" maquiados a convencer como boas figuras, perpetuando a impossibilidade da paz.


 

Um comentário:

  1. Adorei a Resenha e fiquei super curiosa para ler a obra. É difícil encontrar obras nacionais com essas características.

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