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10 Considerações sobre Paola, de W. P. Ferro ou por que ter muita atenção nos detalhes

O Blog Listas Literárias leu Paola - Proibido Para Menores, de W. P. Ferro publicado pela editora Alley; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Paola é um romance memorialista que pela voz de sua protagonista narra a história de uma descendente italiana nascida em uma família tradicional que pretensamente seria uma rompedora de paradigmas e estruturas, mas que contudo a observação atenta das escolhas narrativas nos levam a um jogo de máscaras entre o que aparentemente se pretendia dizer e o que realmente é dito;

2 - Mas antes de adentrarmos as contradições deste romance, cumpre dizer ainda de que é uma obra bem produzida, com boa escrita e dotado de certa literalidade, de forma que há na obra aspectos interessantes, especialmente porque em suas contradições o romance apresenta certas questões e abrem as portas para o debate ao mesmo tempo que exemplifica a dificuldade de superarmos algumas questões;

3 - Para compreender as contradições do romance, precisamos inicialmente dar atenção à voz narrativa escolhida pelo autor, e não que não seja possível homens escreverem com vozes femininas e vice-versa, mas no caso do romance a primeira grande contradição surge justamente da escolha, pois ao leitor atento e crítico logo se perceberá que a voz feminina utilizada pelo autor gradualmente vai sendo engolida por uma voz masculina, que no caso muitas vezes é demonstrado pelas palavras da narradora como por suas ações;

4 - Vejamos que inicialmente pelo contrato de leitura estabelecido pelos elementos extratextuais da obra pretensamente seremos apresentados a uma voz libertária - quiçá empoderada - de uma mulher nascida em uma família tradicionalmente patriarcal que narrará suas desventuras sexuais rompendo determinadas barreiras de preconceitos, contudo o que na prática acaba pela ação saindo ao contrário;

5 - Na verdade, com o avançar das histórias de Paola, suas palavras e suas escolhas acabam, ao que parece involuntariamente, escancarando as hipocrisias sociais, algo ainda mais claro ao passo de que a própria protagonista em momento algum reage ou questiona tais estruturas, inclusive acatando-as e pormenorizando questões um tanto sérias; 

6 - Tal visão da protagonista constrói-se justamente pelo fato de que toda problemática que surge há por parte dela total submissão aos fatos, inclusive quando da dramática violência sexual sofrida que é relativizada, mas que entretanto no caso do romance é difícil estabelecer ser ou não uma denúncia. Além disso, é preciso relativizar a voz feminina de Paola justamente pelo fato de estar amplamente infectada pelo olhar masculino, acima de tudo um olhar masculino patriarcal e fetichista. Desse modo surge então o problema dessa voz narrativa, pois as ações ali narradas, pelo menos a este leitor não tem verossimilhança com a voz que se esperava que tivesse a narrativa;

7 - Para demonstrar a problemática da ambiguidade da voz narrativa do romance, sua estrutura expõe justamente o olhar fetichista masculina, tanto que as principais histórias picantes do livro notadamente foram produzidas a satisfazer determinados fetiches masculinos, e em geral Paola surge como objeto, inclusive quando se dedica ao lesbianismo, que nesse caso torna-se um objeto a ser observado pelo leitor, ao passo que generaliza e minimaliza questões sérias como estupro, violência doméstica, entre outras coisas;

8 - Aliás, o livro tende a polêmica, especialmente pelo fato de que mesmo quando tenta demonstrar algo, as ações e as narrativas atiram para lado contrário, como a questão do racismo, que é tratado em capítulo bastante específico e cuja resolução e escolhas finais são no mínimo questionáveis, porque embora algumas vozes ainda que tímidas se posicionem equilibradamente, o destino de Baruque naturaliza e reforça o discurso discriminatório evidenciado na fala de alguns personagens;

9 - Pensando bem, poderíamos dizer que esta é uma obra certamente destinada às polêmicas, que aqui, buscamos avaliá-la de forma crítica diante as contradições do romance, uma obra que pisa em alguns temas de alta combustão como machismo, racismo, violência sexual, fetichismo, e, inclusive, com momentos que apontam a personagens pedófilos, e cujo resultado e eficiência do recado caberá ao leitor construir sua opinião;

10 - Enfim, resumindo, estamos diante de uma narrativa delicada e complexa cujas intenções talvez precisem de ampla discussão, mas que inicialmente, podemos dizer que ao menos por esta avaliação, a abordagem de alguns temas é no mínimo arriscada, isso pelo modo que se dá. Em princípio, temos uma efetivação de determinados preconceitos que são expostos pelas ações e escolhas da narrativa, e cujo maior momento de inocência se dá numa cena pouco interessante entre mãe e filha sobre seu histórico de imigração, pois no seu restante é tudo glicerina com potencial de enorme combustão para polêmicas.



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