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10 Considerações sobre O Bazar dos Sonhos Ruins, de Stephen King ou como não fechar os olhos

O Blog Listas Literárias leu O Bazar dos Sonhos Ruins, de Stephen King, publicado pela editora Suma de Letras; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Como se a linha de um sismógrafo, O Bazar dos Sonhos Ruins alterna entre medianos e grandes contos, mas todos eles numa antologia em que todas as principais características de Stephen King estão presentes (as boas e as ruins), principalmente sua capacidade de um olhar tenebroso, cruel e cru da existência humana que nos contos em que ele mesmo talvez não desejando vão além do mero entretenimento com contos capazes de embolar a garganta durante a leitura e impregnar o leitor de tal forma que não o são apenas uma história de data de validade programada;

2 - Digo isso justamente porque Stephen King é um nome a atrair divergências, polêmicas e opiniões de todos os lados. Seus leitores em grande parte o amam, seus editores amam suas cifras e muitos críticos voltam o nariz para seu trabalho e também para sua visão da escrita. Contudo, se nos desprendermos de qualquer conceito pré concebido, algo que se confirma e afirma nestes contos e que também é possível observar na maioria de seus trabalhos é que ainda que o próprio autor assuma sua função de entretenimento, como poucos, poucos mesmo, Stephen King é capaz de produzir um olhar sobre o mundano e a crueldade crua da vida a partir de seus personagens composto por uma média americana sem heróis ou vilões onde o "fracasso" é a essência e a perguntas "o que fazemos aqui?" além de repetir-se, não trás muito mais que desalento. Assim, a despeito de qualquer crítica, positiva ou negativa, não é fácil, falar isso de muitos autores, mas uma coisa é visível, para além da diversão há vida e morte em Stephen King. E essas duas coisas nos chegam sempre de uma forma que a história não morre ao ponto final;

3 - Tendo as questões anteriores em mente, podemos observar então que esta reunião de contos pode traçar certa alegoria à obra do autor, afinal temos aqui altos e baixos, com contos capazes de reunir todo o sumo estético e de efeito do gênero conto, à sua maneira original, é claro, mas também temos outros que de fato estão ali de forma perecível, como o caso de Ur cuja motivação é falar do Kindle tentando disfarçar numa tentativa de abordar novas tecnologias ou mesmo Mister Delícia que ainda fale da morte e sua chegada, não se eleva tão alto;

4 - Por outro lado há contos angustiantes e provocadores de tal modo que eles grudam-se na gente de tal forma que mais do que nos tirar o fôlego, eles nos inquietam, e aí está certamente uma das questões essenciais da literatura, a literatura como arte, ela precisa ser inquietante, e contos como Milha 81 (o mais próximo de seus romances e do sobrenatural), Moralidade e seus protagonistas complexos e Aquele Ônibus É de Outro Mundo, contos que se não chega ao maior da obra demonstra didaticamente a habilidade de um autor capaz de tirar da trivialidade rotineira percepções e perguntas capazes de construir um novo sentido para o banal;

5 - Mas é certamente o conto de título mais estranho da antologia que temos um ápice. Em Batman e Robin Têm Uma Discussão temos a crueza da degradação humana colocada de uma forma tão inquietante e irônica que é um daqueles contos que nos incomoda, pois tudo o que parece saltar daqueles acontecimentos insólitos é "isso tudo é uma bosta, cara" como o grito de alguém que já não suporta mais esse mundo e sua falta de sentido. Para isso King nos joga personagens debilitados de tal forma natural que é doido constatar a fragilidade, e mais do que isso, os movimentos ainda debocham, "ferrado ou não, a roda não para"; além disso há o próprio fato de que de toda forma não há qualquer inocência, o que faz que Stephen King nos projete um mundo duro e cruel, por isso assustador;

6 - Aliás, tais elementos estão presentes em outros contos do livro como Duna e Moralidade e mesmo no contraditório Ur em que o olhar irônico e mordaz  apresenta um "humor" bastante negros sobre toda a existência, especialmente porque lá no fundo da alma de cada um destes contos é como se existisse um sussurro de incompreensão ou desejo de fuga desta atmosfera tão crua, carnal e tenebrosa;

7 - Aliás, estamos falando de Stephen King mas não significa que todos os contos aqui sejam o terror sobrenatural que nos habituamos, e os melhores aliás pendem para um realismo insólito e engasgante capaz de reproduzir a história de pessoas comuns mas com um olhar para lá de cru, denso e por que não, cruel. Contudo, há no livro contos daquele terror típico de Stephen, como Milha 81 e Garotinho Malvado que além das demais características já falada aqui cresce com o sobrenatural (ou não) bastante aterrorizante e de cunho psicológico também presente em muitos trabalhos do autor;

8 - Portanto, os fãs certamente irão celebrar este lançamento e como contistas Stephen King é tão eficiente como romancista, uma verdadeira máquina de construir mundos e histórias, e o mais interessante é que quem queira olhar um pouco mais, pode permitir-se um mergulho para além da diversão porque muitos dos contos aqui merecem uma observação mais séria até mesmo pelo conjunto que formam, e esse conjunto não é nada vazio;

9 - Além disso, para muitos aspirantes a escritor uma coisa bacana da obra é justamente contar com texto de King falando do processo criativo de cada conto. Além dos contos e destas inserções a respeito da escrita há três poemas, contudo, me limito a dizer que esta definitivamente não é a praia do autor;

10 - Enfim, O Bazar dos Sonhos Ruins reúne contos que convidam até mesmo aos mais céticos e críticos a olharem para Stephen King de forma, no mínimo, mais dedicada. O autor, nestes contos, como em sua obra narra um pedaço de mundo bastante característico fugindo dos heróis e vilões típicos para acima deles trazer a vida média e mundana numa narrativa irônica e inquietante que para além dos fracassos pessoais, da falta de sentido, da banalidade e frieza do universo que não cansa de atirar-te merda, Stephen King sopra incômodos em textos que não se dissipam como fumaça pois penetram em seus leitores e mesmo que ele nos jure que é apenas diversão, há entre eles obras bem mais profundas e complexas do que pode parecer. Digo tudo isso para afirmar algo que parece óbvio, Stephen King é uma voz única, e nem seus críticos tampouco seus fãs podem fugir disto.




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