Por Nietzsche, 10 considerações sobre Só Faltou o Título, de Reginaldo Pujol Filho

O Blog Listas Literárias leu Só Faltou o Título, de Reginaldo Pujol Filho publicado pela editora Record; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 – Só Faltou o Título é uma interessante surpresa, e, ainda que sua narração se dê por um tipo bastante utilizado nos últimos, vinte, vinte e cinco anos na literatura brasileira, Edmundo Dornelles nos revela uma trama interessante para além de uma literatura ensimesmada, e se constitui como uma das vozes mais originais e próprias entre nossas produções, em uma obra que demanda olhares mais profundos de estudiosos, ao mesmo tempo que tem capacidade em atender leitores que buscam apenas entretenimento com uma diferente trama sobre crimes;

2 – No entanto, embora essa questão da presença do crime na obra de Reginaldo Pujol Filho, não nos enganemos, é sobre a literatura e a criação literária que se trata esta obra que faz uso “da loucura” e “megalomania” de seu narrador para entre uma página e outra destilar algumas “verdades” inconvenientes sobre todo o círculo do mercado editorial. Todavia tais “denúncias” podem perder força e significado ao passo que o narrador perde completamente sua credibilidade, porém, suas palavras ácidas e duras estão ali, e em alguns momentos, até podem ser levadas em conta;

3 – E o livro faz isso a partir do perturbado olhar sobre o mundo de Edmundo Dornelles, formado em direito, “freelancer” revisor de livros e artigos acadêmicos que pretende ser escritor, aproveitando-se de seus contatos. Contudo, como tudo em sua vida (muito por causa de sua personalidade), nada vai saindo como esperado, até que ele diante das negativas para sua tentativa de tornar-se um escritor, ele cria um plano (estapafúrdio e ao mesmo tempo inteligente) de provar a todos sua capacidade como ficcionista. É quando os crimes entram na obra;

4 – Mas acontece que toda essa construção narrativa de Dornelles torna-se um tanto quixotesca ao passo que sua visão de mundo é bastante distinta. Um sujeito com extremos problemas de convivência social (na verdade inapto para qualquer atividade social), que acima de tudo vê-se acima de tudo e todos, como estando sempre num pedestal que permite-lhe criticar desde as pessoas mais próximas, ou sistemas, como o literário;

5 – Porém essa acidez crítica de Dornelles está muito mais próxima da loucura do que da sabedoria. Tanto é que ele é incapaz de reconhecer ser integrante de tudo aquilo que ele mesmo rejeita. Seu universo é de classe média revoltada de certa forma esta impregnado nele mesmo, tanto é que o mesmo olhar que reclama, por exemplo, que seu irmão, pai, mulher, lhe dirigem, ele manifesta para com aqueles únicos que lhe dão certo crédito e moral: os frequentadores do Tinoco's. Justamente por Edmundo observar um mundo sem salvação (ainda que ele deseje e busque a redenção) é uma das questões que o torna suscetível a dúvidas e questionamentos, no entanto, tema para observações mais profundas e complexas;

6 – Com isso, diante dessa narração verborrágica, violente e senil de Dornelles, vale dizer que este é um livro que em muitos momentos exigirá do leitor uma pausa para retomada do ar (e isso no bom sentido) porque a percepção sensorial da amargura e do rancor deste que nos narra é tão forte, que nos força parar para respirar;

7 – Além do que já foi falado aqui do caráter quixotesco de Dornelles e sua busca por criar a narrativa “perfeita” deve-se dizer que há certo humor na obra, especialmente quando Edmundo de certa forma reencena Odorico Paraguaçu, ambos esperando ardorosamente por um defunto, sendo que para o primeiro, um só já bastava, enquanto Dornelles tinha de passar madrugadas e madrugadas lendo o sensacionalista Diário Gaúcho para encontrar o que precisava para seu estranho plano;

8 – Todavia, convém também ressaltar que esta é uma obra cheia de intencionalidade, o que se revela especialmente em sua condução técnica, desde pela forma como a prosa se desenvolve até como a união que é feita dos detalhes, todos tecidos de tal forma que quando se interligam o leitor nota que aí está alguém comprometido em escrever algo de qualidade;

9 – Contudo, é devera interessante as escolha final de Edmundo Dornelles. Se em grande parte do livro “seu veneno” é atirado contra toda e qualquer narrativa contemporânea em que ele não economiza palavras para falar e defender tão somente os velhos clássicos, especialmente os mestres russos, é, porém, no vilipendiado gênero da literatura policial que ele colocará em prática seu “plano quixotesco” de tornar-se um igual àqueles que admira.

10 – Enfim, Só Faltou o Título é obra de grandes pretensões e de ótimo potencial. Sua leitura exige olhares mais profundos que esta minha simples lista pois é uma publicação a ser observada já que nos entrega uma narrativa nova e dotada de bastante originalidade, especialmente quanto a seu narrador, personagem que demandaria uma série de discussões, mas que aqui, a grosso modo, podemos dizer que reúne elementos consistentes que o colocam entre uma das vozes que merece respeito. Por Nietzsche, ao cabo de sua narrativa sem título, Edmundo Dornelles cria uma obra que obriga-nos estudá-la com uma lupa. Um bom livro, para leitores exigentes, ou não, afinal seres horrendos que somos, nos debruçamos com afinco sobre história de crimes e loucos.

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Por Nietzsche, 10 considerações sobre Só Faltou o Título, de Reginaldo Pujol Filho Por Nietzsche, 10 considerações sobre Só Faltou o Título, de Reginaldo Pujol Filho Reviewed by Douglas Eralldo on domingo, novembro 29, 2015 Rating: 5

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