10 Considerações sobre Eu sou a lenda, de Richard Matheson ou salta pra rua Neville...

O Blog Listas Literárias leu Eu sou a lenda, de Richard Matheson publicado pela editora Aleph [via Mec Livros]. Neste post confira as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre este livro que é um grande clássico do horror e compreenda a íntima relação deste gênero com a ficção científica:

1 - Publicado em 1954 por Richard Matheson Eu sou a lenda é uma ficção distópica que se passa em um futuro hipotético na década de 1970 quando uma epidemia assola o mundo e Robert Neville imagina ser o último ser humano que restou, ao menos dentro da normalidade que pensa caber o termo ser humano. Todos à sua volta se tornaram mortos-vivos, mas não os zumbis sugeridos na adaptação com Will Smith, mas sim vampiros os quais o protagonista enfrenta diariamente para matá-los ao mesmo tempo em que jornadas ébrias tenta compreender o novo mundo em seu entorno e a solidão que o cerca em sua casa, mais para um túmulo de homem vivo que precisa proteger-se das bestas lá fora;

2 - Mas antes de prosseguirmos sobre o livro, é interessante comentar o quão ele se equilibra entre dois gêneros que costumam se tocar em muitos momentos: o horror e a ficção científica. Isso, aliás, é elemento estruturante das dúvidas do protagonista, Robert Neville, que busca explicações racionais e científicas para o fato de haverem vampiros mortos-vivos pelas ruas, soltos à noite. A constante do livro - e dos pensamentos de Neville - é compreender em que há um fato científico na epidemia e em que tudo não deixa de ser como as lendas vampirescas, até porque, estacas no coração, alho, luz do sol e cruzes em grande parte são eficazes para afugentar as bestas. Este movimento entre lenda e ciência é uma constante da narrativa imbricando a narrativas entre estes dois gêneros e, digamos, com certa prevalência da ficção científica;

3 - No romance, narrado em terceira pessoa, mas com muitas intrusões do eu de Robert Neville, o protagonista vive solitariamente em sua casa que faz na verdade a função de um bunker, pois teve de protegê-la com tapumes, geradores, entre outras coisas que fazem dela mais um túmulo que um lar. Constantemente bêbado, Neville precisa lidar com o fato de aparentemente ser o último que sobrou sem a doença e o permanente luto pela perda da filha e, principalmente, da esposa, Virginia; Tais lembranças colaboram bastante para as elocubrações etílicas de Neville;

4 - Dividio em três momentos, a questão principal é que se passaram três anos do começo da epidemia. Esse é o tempo necessário para constituir todas as perdas, de Neville e da humanidade, bem como para a constituição do ciclo completo em que restou apenas o protagonista em sua solidão diante da questão persistente, afinal, por que ele segue vivo e porque ele não abandona de vez a vida? Afinal, é provavelmente o último e único sobrevivente de um mundo que se desfez e em que temos praticamente duas categorias de mortos-vivos, os vampiros, que não chegaram a morrer de fato e aqueles que como sua esposa, morreram, mas voltaram dos túmulos;

5 - Nesse ambiente apocalíptico e solitário, Neville tenta entender o fenômeno. Não é um cientista, mas tenta tornar-se um, estudando a pandemia e os vampiros. Como dissemos, sua busca é de modo geral sempre um caminho em busca da razão, enquanto os fatos sugerem-lhe a lenda. O comportamento e a forma de se livrar dos vampiros como nos velhos romances góticos e tais coisas atormentam a mente racional de Neville que, como sobrevivente, foi construindo estratégias de sobreviver e eliminar as aberrações. Durante a noite, entre copos de bebiba e pensamentos sobre a razão da doença e o lamúrio pela desintegração de sua vida, resiste aos vampiros que tomam as ruas, ficando Neville em sua própria tumba; durante o dia explora a cidade, o que restou dela, enquanto mata vampiros com estacas de madeira, ao modo tradicional, um dos elementos que atormentam sua mente racional;

6 - Mais do que entender a doença, Neville procura compreender o que são os vampiros, o que cabe à lenda e o que cabe à ciência? Em suas investigações, no romance de 1954 teremos como vilã uma bactéria, mas cuja descoberta, de todo modo, não resolverá todas as questões que divaga Robert Neville. Aliás, esta é uma das questões interessantes do livro, pois, nem todas as perguntas do protagonistas são respondidas, pois o romance nos entrega muitas lacunas a serem preenchidas pelo leitor, o que em uma boa obra, é sempre elemento importante;

7 - Mas se por um lado, como dissemos, há, ao menos nas origens, certa predileção pela ficção científica, é na tensão e no mórbido que o livro se torna horror em excelência. O clima de tensão e perigo é permamente e a morbidez dos inimigos lá fora levam a narrativa ao horror. Neville está sempre muito próximo do derradeiro fim, o que não deixa de ser curioso para o caso de alguém que vive o apocalipse diariamente. O medo e o risco são constantes, do mesmo modo que o horror vampiresco sempre presente. Entretanto, se nessas questões imediatas e explícitas já temos uma boa e eficiente dose de horror, é nos subtextos que o terror se intensifica. Nas insinuações e nas elocubrações do protagonista é que o medo se torna permanente, seja no personagem, seja no próprio leitor que submerge naquele horrendo universo;

8 - E dentre as tensões implícitas que talvez levantem a necessidade de olhares e pesquisas mais fundas seja o próprio eu de Neville nesse "novo" e horroroso mundo. Em especial poderíamos destacar aqui a tensão sexual e os não-ditos das posturas do protagonistas nos três anos anteriores que parecem estabelecer certa culpa em Neville. A bem da verdade, os três anos anteriores, período em que se instalou e estabilizou esse fim dos tempos, nos chegam por meio de névoas, tudo muito fosco. As rememorações de Neville sobre estes tempos são sempre incompletas, envoltas de brumas que parecem esconder certa animalidade do protagonista enquanto resiste e sobrevive ao fim do mundo. Em suas lembranças, Neville sempre interrompe suas memórias deste tempo, inclusive as insinuações quanto ao medo absurdo da líbido das mortas-vivas. O celibato por ser o último humano sobrevivente não nos parece uma questão tranquila para o personagem, que em muitos momentos chega trazer alusões à necrofilia - algo presente em muitas obras de horror. A questão é que a relação de Neville como o feminino é uma boa linha de investigação para quem deseja pensar mais profundamente a obra;

9 - Todavia, a narrativa sendo apocalíptica adentra há uma questão inerente ao apocalipse. Muitas visões e conceitos sobre o apocalipse ou que nome se dê ao fato, não se trata literalmente de um "fim", mas novos recomeços, ou ciclos que ou continuam em parte ou substituem totalmente o anterior. Robert Neville é o último de uma sociedade que ruiu, um insistente sobrevivente que teima em não morrer enquanto vampiros andam lá fora. Na terceira parte do livro, essa ideia de ciclo se faz presente até à reflexão final de Neville que gera o título do romance, afinal, ele é a lenda. Nessas partes finais posto em debate, afinal, o que é normalidade? Se algo que era considerado padrão, normal até pouco tempo passa a ser minoritário, exótico? Afinal, quem é a fonte do horror e do medo? Assim, o que o livro nos entrega é um final acachapante e incômodo que premanece grudado aos leitores:

10 - Enfim, Eu sou a lenda é uma experiência imersiva e intensa capaz de produzir diferentes reflexões e sentimentos em seus leitores. Entre o horror e a ficção científica, é uma obra que talvez nos entregue um pouco das angústias de seu tempo, um pós-trauma de um mundo que parece tomado tanto pelo horror, quanto pela ciência. Uma obra de passagem que nos entrega um personagem carregado de nuances e um destino surpreendente que certamente vale muito a leitura.

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