10 Considerações sobre Odisseia, de Homero ou por que ainda precisamos ler essa velharia?

Estima-se que Odisseia, de Homero tenha sido escrita no século VIII a.C, ou seja, uma velharia que continuamos a ler quase trinta séculos após. Mas por que continuamos a ler essa obra? No post de hoje as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre Odisseia, de Homero publicada pela Penguin-Companhia das Letras e tradução de Frederico Lourenço. Confira:

1 - Na esteira do filme de Christopher Nolan e em nossa jornada de lermos clássicos até então não lidos, nos atiramos à aventura da leitura desse clássico, uma velharia encantadora da literatura mundial, cuja pergunta que sempre esteve em nosso horizonte era justamente, por que ler ou ainda ler Odisseia em pleno século XXI? Mas antes de esboçarmos a respeito disso e outras questões desse colossal poema épico, com seus milhares de versos - e acontecimentos, vale destacar que a leitura de Odisseia pode ser bastante impactada pela tradução, caso não seja você um exímio leitor de grego antigo [ e até para eles], pois algumas traduções podem afastar-nos do desafio. Dizemos isso porque lemos a elogiada tradução de Frederico Lourenço e ao mesmo tempo estávamos com um exempla publicado pela Nova Fronteira cuja tradução, confessamos, afastaria qualquer tentativa de leitura. Dito isso, vamos então a este clássico que sim, em algum momento precisamos cumprir com nossa obrigação de leitura;

2 - Odisseia é um poema épico de autoria de Homero [não entraremos nas tretas dessa seara] que se dá vinte anos após a queda de Tróia, retratada em Ilíada, primeira parte de menor popularidade, inclusive, do conjunto da obra de Homero. No todo são 24 cantos que narram o regresso de seu herói, Ulisses/Odisseu à Ítaca e de todas as desventuras por quais ele passa em sua fantástica e incrível jornada de regresso. São 24 cantos de muita sonoridade, relação entre deuses e homens, sangue e mortandade e, claro, os elementos fantásticos que tornam Odisseia muito mais famosa que o poema antecessor, Ilíada;

3 - Os quatro primeiros cantos do poema ambientam o presente da narrativa, vinte anos após o sumiço do rei de Ítaca, Ulisses/Odisseu, que até então não conseguiu regressar para casa. Rei "morto", rei posto, diz o ditado popular, e de certa forma é isso que Homero parece descrever nesses primeiros quatro cantos, conhecidos como Telemáquia, porque antes de sabermos sobre Ulisses, os cantos I a IV têm como protagonista, seu filho, o jovem Telêmaco, que tem de lidar com a ausência do pai que não conhece e a tomada de seu palácio por pretendentes da mão de sua mãe, Penélope e além disso, pretendem tomar toda Ítaca. Esses cantos são essenciais em construir a sensação de emergência, pois os pretendentes além de esgotar os recursos da ilha, representam risco de morte a Telêmaco que decide então viajar em busca de informações sobre o decsonhecido pai, do qual não se tem qualquer informação desde que iniciara o regresso de Tróia;

4 - É apenas no Canto V que os leitores passam então a saber o que ocorreu com Ulisses/Odisseu. Aprisionado por uma deusa, Calipso, com a qual vive maritalmente, embora contra a vontade [ahã, sabemos]. Calipso usa estratagemas para prender Ulisses/Odisseu, entretanto, no íntimo, ele nunca é capaz de esquecer totalmente de sua terra. Está ali há anos, depois de uma parte da jornada não menos problemática, em que boa parte passou irritando aos deuses, especialmente Poseidon, como descobriremos depois. O Canto V nos orienta com elementos básicos de por que Ítaca segue sem seu rei, o fato de ter recebido a ira de deuses, mesmo com sua intimidade com Palas Atena, que o protege na maioria dos momentos. Nesse mesmo Canto V é que teremos o começo da jornada de regresso, pois contatado por Hermes, Calipso é informada de que precisará deixar "seu boy" partir, não que ela tivesse muita vontade disso;

5 - Já nos Cantos VI a VIII teremos então o regresso desse herói que embora não seja visto sob tal modo, o epíteto "astucioso Ulisses/Odisseu" reforça seus ares de arquétipo de um trickster ou um pícaro, termo inventado muito depois dele. No canto VI ele volta ao "mar cor de vinho" até aportar na ilha dos Feácios, onde encontra-se inicialmente com a princesa Nausica, uma das mulheres fortes e intrigantes da narrativa, tão astuciosa quanto o próprio Ulisses/Odisseu que usá lá suas artimanhas para chegar ao palácio do rei Alcino, que recebe-o com honras na Feácia. Aliás, os Feácios talvez como melhor exemplo aqui da xênia, ou seja, do bom receber aos estrangeiros e suplicantes que, de certo modo, Homero atpe antevê certo decaimento da "regra de Zeus" quanto à hospitalidade já que o próprio depois punirá os Feácios pelo suporte dado a Ulisses/Odisseu. Na Feácia o herói é recebido com as honras que se deve receber um estrangeiro conforme a xênia e ali onde os Feácios também se encantam com as estórias de Ulisses/Odisseu, inclusive organizando jogos atléticos em sua homenagem. É durante tais jogos e eventos que ele passa então a narrar os acontecimentos que antecedem seu tempo recluso na ilha de Calipso. Certamente são essas estórias improváveis e tão presentes no imaginário ocidental, tenha você lido ou não a Odisseia. que fazem do texto um atrativo que sempre regressa às atenções;

6 -  Como o Canto IX em que Ulisses narra sua jornada na ilha do Ciplope. O evento é central no atraso de sua jornada e fato de causar ira aos deuses. Além disso, farmando aura desde o século VIII antes de Cristo, ele toma para si não apenas o ethos do heroi mas também a responsabilidade pela fama e audácia que quer imprimir à sua pessoa, conforme comento no vídeo,

7 -  Nos cantos X e XI temos também importantes passagens do herói homérico, a esta altura já sob a ira de Poseidon por causa do que Ulisses/Odissei fizera a seu apadrinhado, o ciclope Polifemo. Nestes dois cantos temos especialmente a relação dele com Circe, algo entre feiticeira e deusa que aprisona os homens em formas animalescas em sua ilha. Circe uma personagem engenhosa e fascinante, que ludibriada por Ulisses/Odisseu, que tinha recebido informações priviligiadas do deus Hermes, ainda assim consegue viver intiamente e carnalmente com ele pelo período de um ano, atrasando antes de Calipso a jornada de retorno. Entretanto, sem poder mantê-lo sob obrigação na sua ilha, ela libera-o, antes enviando-o ao Hades, o subterrâneo infernal grego, onde ele tem assembleia com importantes personagens de Ilíada como Aquiles e Agamenôn e, ainda, por meio de sua mãe, consegue alguns relatos sobre Ítaca;

8 - Os cantos XII e XIII encerram as estórias de Ulisses/Odisseu junto aos Feácios. Narra ele como antes de parar na ilha da deusa Calipso, teve de passar pelas sereias e seus cantos perigosos e encantadores [célebre passagem], bem como teve de fazer escolhas difíceis, como a entre os monstros Cila e Caríbdis. Além disso descreve o último passo de uma profecia/ordem recebida, na ilha de Hyperion e a proibição de alimentar-se do gado. Ali Ulisses/Odisseu resta sozinho, e na tentativa de retorno, sob a fúria de Posseidon vai parar junto a Calipso onde passa preso a maior parte dos anos. Sem mais o que narrar, e ainda que atrasado por algum momento, os Feácios cumprem com a hospitalidade enviando-lhe para casa com rapidez e muitos presentes [mas dá ruim para os pobres Feácios;;

9 - Assim principia-se a parte mais longa da Odisseia.  Os dez cantos finais [do XIV ao XXIV] tratam da vingança do perigoso Ulisses/Odissei, homem de muitos dolos. Sob as experiências informadas em sua visita no Hades e com os coxichos de Atena, ele retorna à Ítaca disfarçado enquanto prepara sua vingança. Nesse tempo revela-se a Telêmaco, que escapa dos planos de assassinato pelos pretendentes, avalia possíveis alianças e reconhece seus mais fiéis servidores enquanto prepara a última e grandiosa chacina nos homens que tentam a bela Penélope. Aqui tanto a engenhosidade e astúcia, quanto a propensão à força e à violência se fazem presentes. Ulisses/Odisseu não só é vingativo, como é sagaz, ardiloso e frio na elaboração de seus planos. Infiltra-se em seu próprio palácio até o assassínio geral e bastante descritivo que temos no Canto XXIII. De volta à casa, ao seu lar e assassinado todos os seus inimigos pode-se finalmente revelar-se à Penélope [o ritual de reconhecimento de ambos é carnal e íntimo] e depois ao pai, Laertes;

10 - Tudo isso certamente uma longa e colossal jornada, mas retomamos aqui nosso questionamento inicial, faz sentido ou ainda é importante ler uma obra tão antiga? obviamente o sim é acompanhado por ínumeras razões que não cabem em um post. O fato de sua presença em nosso imaginário e as imagens fantásticas que o texto produz, por si só criam tal necessidade. Ler Odisseia além de nos apresentar a um primor de trabalho estético e inventividade da qual apenas nossa humanidade é possível construir, nos é um portal para entender tempos tão longínquos e diferentes, com maiores ou menores aproximações com nosso próprio presente. Vejamos como a xênia, a hospitalidade na Odisseia pode nos revelar o nosso presente de relações tão inamistosas com o estrangeiro e o suplicante. Não é curioso que há pelo menos três milhares de anos podiam as sociedades ter uma postura um tanto diferente nesse quesito? Por outro lado, a relação que à época se construía com o dolo, com a vingança e o assassínio também não nos servem de comparativo. Assassinar alguém era tão comum quanto calçar sapatos naquele tempo, e a vingança, como instituída em Odisseia, um direito legítimo. Enfim, ainda que se tratando de ficção, sua leitura tanto nos ajuda a imaginar e compreender as sociedades nos estertores da era do bronze, como também, talvez possa nos falar do nosso próprio presente a partir de coisas que teimam em permanecer, ou em alguns casos, regredir. Além disso, Odisseia em grande sentido, seja em sua própria feitura ou no ethos de seu protagonistas. há quase trinta séculos advoga com muita razão que saber contar/narrar estórias possa ser muito mais proveitoso que a própria força. Não que Ulisses/Odisseu não use a força, seus músculos e suas habilidades com lanças e arcos, mas é indiscutivelmente sua capacidade ardilosa de mentir, construir dolos e mentiras, como na caverna de Polifemo, que o distinguem de todos os demais heróis homéricos. A força e a habilidade em combate fizeram de Aquiles e Agamenon mortos muito jovens, enquanto o astucioso Ulisses, não só saiu com vida de Troia, e embora tenha levado vinte anos para regressar, ao cabo derrotou seus inimigos humanos e divinos. Homero de algum modo ensina-nos que em terra de valentes, um bom contador de estórias pode postergar um bom bocado a sua estadia no Hades. Leiam, é fantástico!

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