A odisseia: 10 diferenças entre o livro e o filme do Nolan

Só se fala nesse filme, seja para elogiar, achincalhar ou simplesmente colocá-lo ali no meio da listas dos melhores filmes do Nolan. Independentemente do caminho seguido A odisseia (2026) é provavelmente um dos filmes mais comentados nos últimos anos. E é um bom filme. Em nossa opinião, no Nolanverso não supera A origem certamente e Interestelar tem aspectos mais interessantes. Mesmo assim é um filme muito bom e que segura o espectador nas 3h de duração. O fim do império da CGI também é um vento que se alastra e bom para quem curte filme de verdade. Mas dito isso, nesse post, sem maiores aprofundamentos sobre o filme e suas questões, apenas compartilhamos 10 diferenças [e sim, a gente sabe que uma coisa é uma coisa e outra coisa outra coisa, mas é interessante analisar essas diferenças] entre Odisseia, de Homero e o filme do Nolan, confira: 



1 -   Telêmaco e Atena menos miguxos: Aqui temos um detalhe bem significativo entre o filme e o poema. Nos quatro primeiros cantos da telemáquia que narram a jornada e saída em viagem de Telêmaco a relação de intimidade entre a deusa Atena e o jovem é fator mais que relevante. É de Atena todo o impulso a colocar o guri em busca do pai desaparecido revelando não apenas cumplicidade, mas o fato de a deusa ter certa predileção pelo jovem, muito cupinxa os dois. No filme não há praticamente contato entre Atena e Telêmaco, a própria decisão de partir em viagem é uma cosntrução interna de seu despertar. Além disso, no filme, a apadrinhagem de Atena está totalmente centrada em Odisseu/Ulisses;

2 - Mete um Virgílio aí: uma das fake news que surgiram sobre o filme, especialmente entre os bradadores contra a tal cultura "woke", é que o ator trans Elliot Page encarnaria Aquiles [Como se o Aquiles fosse o maior exemplo de heteronormatividade desse mundo] despertando a fúria dos inveterados machões contra mais uma lacração de Hollywood. O ator, entretanto, dá vida a Sinon, boi de piranha a cuidar o belo cavalo presenteável. Ocorre eque embora Sinon surja no filme de Nolan e com importantes implicações no regresso de Odisseu/Ulisses, este é um personagem que não está no poema de Homero, mas sim na Eneida, de Virgilio;

3 - Ninguém é importante: Agora, uma das coisas que tem sido discutida entre fãs do poema de Homero é a cena na caverna com o ciclope Polifemo. Nolan constrói uma cena muita calcada no horror, no espanto e no medo com um ciclope caprichado nos efeitos especiais e de fato assustador, porém ele ignora os ricos e importantes diálogos entre Ulisses e Polifemo no poema, que inclusive, destacam ainda mais a inventividade e o aspecto trickster desse herói épico. No filma o fato de Polifemo possuir linguagem, talvez na busca ingênua e romântica de um pretenso realismo a uma figura como aquela, no filme a fala da criatura é horrenda e gutural a serviço dos efeitos sonoros, aspecto sempre no centro da produção do filme. Ali perde-se mais uma oportunidade de explicitar a engenhosidade do protagonista diante à fantástica criatura;

4 - As sereias floparam: Para além da distinção de conceito e descrições das belezuras perigosas do poema homérico, o filme de Nolan parece propositadamente diminuir a relevância das sereias na jornada de Odisseu/Ulisses. A cena é quase um mergulho no Matt Damon, as criaturas míticas vistas en passant é rápida e, sinceramente, não consegue nos convencer da sensação do perigo. Talvez se tente argumentar que até o câmera teve medo de fimá-las em foco, tamanho perigo, mas não, não me convence, essa talvez seja a cena mais flopada do filme do Nolan;

5 - Menos deuses, mais homens: Uma diferença relevante e que reforça a distinção de toda transcriação pode ser percebida na redução dos papéis dos deuses na Odisseia. Presentes e e constante relações com os personagens, muitas vezes, ainda ditando seus destinos, o filme de Nolan presta-se a uma espécie de assassinato dos deuses, que surgem com exceção de Atena, Circe e Calipso, surgem de forma reduzida e de forma implícita. Há quem diga, inclusive, que no filme Atena pode ser interpretada enquanto consciência de Odisseu. O filme de Nolan ao realizar essa redução parece querer deixar nas mãos dos homens suas próprias responsabilidades. Todavia, essa redução cria certo contraste com os demais elementos fantásticos que permanecem no filme;

6 - Lestrigões alienígenas:  Uma das cenas do filme de maior ação e mistério é o embate de Odisseu e seus homens na ilha dos Lestrigões, que no poema são canibais comedores de gente. Ocorre que no filme, ao menos aos nossos olhos, quase nos parece haver uma anacronia entre os guerreiros do passados e figuras alienígenas, gigantescos guerreiros em armaduras prateadas e lustrosas que quase nos lembram astronautas. Ali opera ação pela ação, inclusive, pois há, no filme, poucas informações contextuais para além do combate que massacra boa parte do grupo de Odisseu;

7 - A abstenção de Telêmaco: O jovem Telêmaco em muitos aspectos foi sendo construído distintamente do personagem homérico. Enquanto, por exemplo, no poema na vingança de Odisseu/Ulisses contra os pretendentes, o jovem é participante ativo do combate e da luta, no filme de Nolan há espécie de abstenção do jovem que não só emergirá como novo reinante de Ítaca, como representa em diferentes aspectos simbólicos a passagem entre dois mundos. No filme a participação de Telêmaco é reduzida e ele entra "em campo", digamos, mais para equilibrar algo aparentemente desigual, do que verdadeiramente tomar parte na vingança. No tempo que perdura a cena [um tempo bem longo, diga-se], o jovem é muito mais um observador do embate que um combatente;

8 - Calipso e Odisseu/Ulisses: No filme de Nolan a relação entre Calipso e Odisseu/Ulisses é muito mais sugerida que explícita. Há certo "passar de pano" do filme para o fato que embora prisioneiro, eles acabam intimamente vivendo como casal na ilha. O Odisseu de Nolan está mais para prisioneiro que amante enquanto o do poema aproveita as intimidades maritais com a bela ninfa, inclusive aproveitando "carnalmente" a última noite de despedida. Aliás, os equipamentos com que sai do lugar são também muito distintos, já que no poema, presenteado com tudo o que é necessário, Ulisses vai embora numa balsa premium, enquanto no filme, precisa se segurar na madeira [Nota do blog: acreditamos que Nolan falhou na montagem de elenco, afinal, poderia ter selecionado Joelma para viver a ninfa. Já pensou, aquele enquadramento em close, batida de cabelo e aquele estrondoso som em i-max vindo dos céus ecoando: isso é calipsoooo! Absolute Cinema!];

9 - Nolan não gosta de mulheres? Tchau, Nausícaa: Uma das reclamações que têm surgido quanto às escolhas de Nolan é a exclusão da princesa Feácia no filme. No poema ela que encontra Odisseu naufragado na costa de Esquéria. Há, entretanto, talvez motivos relacionados ao fato de que toda adaptação é um novo produto. No poema a estadia de Odisseu entre os Feácios é relevante inclusive para retomar sua jornada como forma de o herói contar os acontecimentos, o que no filme, em razão tanto do formato quanto da estética, acaba não sendo relevante, já que o todo é fragmentado em flashbacks e flasfowards;

10 - Linear x não linear: obviamente uma das diferenças mais relevantes está na estrutura estética, afinal, Nolan segue seu caminho do não-linear, o que desafia muito seus espectadores, um contraste com a linearidade que é encontrada nos Cantos do poema. Há que goste e desgote de ambos e falar sobre estas distinções talvez demandem um texto muito mais longo e interessante.

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