10 Considerações sobre A biblioteca da meia-noite, de Matt Haig ou e se...

 O Blog Listas Literárias leu A Biblioteca da meia-noite, de Matt Haig publicado pela editora Bertrand Brasil. Confira neste post a resenha de Douglas Eralldo sobre o livro e aventure-se pelas múltiplas possibilidades da existência... afinal, e se...


1 - Em A Biblioteca da meia-noite acompanhamos a depressiva e angustiante jornada de Nora Seed, uma mulher de meia idade que encara as decepções de sua própria existência, com seu emprego medíocre em uma loja de música, com suas frustrações e abandonos, com as relações sociais e familiares conturbadas... uma clássica receita para o desastre e o desejo de não mais viver... é nesse instante que ela atira-se ao abandono radical, mas que, contudo, conhecerá a Biblioteca da meia-noite como último recurso de salvação;

2 - Mas antes de prosseguirmos, vale dizer que o romance de Haig traduz para uma linguagem simplificada uma das questões brilhantemente levantadas por Jorge Luis Borges e seus jardins de veredas que se bifurcam ou ainda em obras que história alternativa. Ou seja, A Biblioteca da meia-noite está estruturada na velha dúvida do "e se...". E se eu tivesse feito isso... Se eu tivesse tomado aquele caminho.... Se eu não tivesse.... justamente por isso é que o primeiro livro a que Nora acessa na Biblioteca da meia-noite é O livro dos arrependimentos, e como ela os tem aos montes, trata-se de um grosso volume. Mas retomando a lógica do "e se...", o que queríamos dizer aqui é que o romance suaviza para uma literatura focada no divertimento o conceito borgiano que deveras ocupa algum espaço na própria filosofia;

3 - Dito isto, voltemos ao livro e aqui sem correr qualquer risco de reclamações por spoilers, já que qualquer leitor minimamente esperto perceberá de pronto que o suspense relacionado à Biblioteca da meia-noite está diretamente relacionado ao seu processo intermedio entre a vida e a morte, em seu pequeno coma, após decidir tirar a própria vida depois de uma sequência de coisas ruins e uma vida carregada delas. Ao menos sob a visão da própria protagonista que confunde pensamento filosófico com eterna rabujice, já que as lentes com as quais Nora observa sua vida são sempre negativas;

4 - A Biblioteca (e nem sempre serão bibliotecas) surge então como ponto de inflexão de uma existência que talvez procure pela salvação. Não deixa de ser nesse caso um processo da mente. É dentro de si mesma que habita a Biblioteca da meia-noite, pois após a tentativa de suicídio, Nora parece ir parar em um espaço fora do tempo e do próprio espaço. Ali é sempre 00:00 e no acervo estão todos os livros de suas infinitas vidas. É justamente aqui que o romance levemente flerta com a ficção científica e o multiverso. A Biblioteca é um espaço intermedial que viabiliza Nora acessar suas outras vidas, especialmente aquelas demarcadas por seus arrependimentos;

5 - No fundo quase toda "a leitura" que ela fará, estará relacionada aos seus arrependimentos. A vida em que não abandona a natação, a vida que segue o sonho do namorado em gerenciar um pub, a vida que não acaba com a banda do irmão... que toca piano... A cada ida e volta à Biblioteca uma espécie de aprendizagem do inconsciente e especialmente a aprendizagem marotamente construída no fato que não necessariamente o que não vivemos poderia ter sido melhor;

6 - Aliás, talvez a principal virtude do livro, ainda que uma narrativa de intenções para o entretenimento, está o fato que ao cabo, tudo realmenta seja um processo da mente humana trabalhando para salvar uma vida. A vida é uma coisa insistente e a mente não curte muito que morramos, por isso o cérebro costuma trabalhar como um salva-vidas. É mais ou menos o que vemos aqui, pois que, descobriremos que as regras da Biblioteca da meia-noite são um tanto volúveis do começo ao final do romance. No entanto, isso nada tem a ver com a volubilidade das regras, pois tudo nos parece ter sido sempre uma coisa: a mente em sua profundidade trabalhando para que Nora Seed compreendesse que a solução de seus problemas estavam em sua vida raiz, provavelmente sempre a única a ter existido;

7 - Se partirmos para uma interpretação como essa, mais racionalista diante das capacidades da mente humana em proteção ao corpo que comanda, o romance consegue mudar um pouco o pêndulo ambíguo entre livro de auto-ajuda e literatura. Isso porque nos parece um tanto pobre - inclusive, misticamente - pensar a experiência de Nora a partir de um mistério supostamente sobrenatural capaz de enxergar seus outros eus e aprender assim viver como a Nora raiz. Até porque as leituras mais místicas que levaram o livro ao sucesso de vendas justamente acabam empobrecendo um dilema complexo que nem mesmo os tantos filósofos citados por Nora são capazes de dar maior profundidade;

8 - Aliás, talvez um dos nossos incômodos tenha sido justamente este. Pelo interesse de Nora em filosofia, há muitas citações filosóficas no livro e o que deveria parecer bom, contudo, dá a impressão de desfile de drops, algo contemporâneo de nosso tempo em que as pessoas pensam entender a filosofia a partir das frases compartilhadas em redes sociais. Isso faz parecer uma tentativa de soar intelectual, mas parece-nos mais pseudointelectualismo de uma leitura de recortes, e não necessariamente de uma leitura plena e profunda de alguns dos filósofos que por vezes são trazidos à cena;

9 - Além disso, parece-nos que o livro, embora seu desfecho possa remeter a isso, ainda que tenuamente, não se aprofunda na crítica ao arrependimento. Em grande parte são os arrependimentos o principal combustível pela busca do "e se...". O arrependimento mascara nossa dificuldade de lidar tanto com nossas escolhas quanto nossos fracassos. É o arrependimento que abastece o imaginário de um multiverso em que vez de você ter essa vida fodida - que tirando os herdeiros e bilionários e mesmo eles os têm - , está por cima da carne seca, vivendo uma enterna felicidade. Essa é uma das nossas maiores ingenuidades, afinal, a condição humana é por ela mesmo desafiadora e a tomada de consciência disso é fundamental para que enfrentemos o que há: uma única e complicada chance de existir, um breve ser em meio há um imenso e infinito não-ser. Não é fácil encarar isso, e talvez aqui esteja a virtude da Biblioteca, de trazer à consciênca do eu que, sendo uma merda ou não, a sua vida raiz é o que te resta. Ocorre que como o romance de Haig diz isso com mãos de pluma, pode ser que a maioria de seus leitores não compreenda a mensagem;

10 - Mas, enfim. A Biblioteca da meia-noite é uma leitura interessante e que mexe com esse imaginário das nossas possibilidades. Poderia, todavia, amaciar menos na tentativa de demonstrar que é como lidamos com nossos reveses que importa para nossa jornada. Nesse sentido, compreender que de nada adiantam os arrependimentos, e que, dando certo ou errado, é o que temos para hoje, é fundamental. O fracasso não é nosso inimigo, ele estará mais conosco que os lampejos de sucesso, de modo que não se pode permitir que essa figurinha de de comer aos nossos arrependimentos, pois estes podem ser muito, muito perigosos, e diferente de Nora Seed, talvez não haja tempo de você encontrar sua Biblioteca da meia-noite.

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