Na semana que se passou a escritora Ana Paula Maia foi anunciada como semifinalista do prestigiado The International Booker Prize 2026. Aqui no Blog a escritura é figurinha carimbada, não só estando em muitas lista, mas também com resenhas de suas obras, inclusive a obra indicada ao prêmio, Assim na terra como embaixo da terra. No post de hoje reforçamos 10 grandes motivos para ler Ana Paula Maia:
1 - Narrativas curtas, porém intensas: As obras de Ana Paula Maia, a nosso ver, habitam as fronteiras dos gêneros, habitando uma intersecção entre o conto, a novela e o romance. São obras de modo geral curtas, com personagens restritos e ainda, de modo geral, o espaço também é específico, muitas vezes reduzido ao campo de uma prisão, a um frigorífico ou mesmo como no caso de Enterre seus Mortos que Edgar Wilson anda por estradas, a sensação de espaço restrito permanece. Assim a autora nos entrega narrativas curtas - muitas vezes convite a leitores que buscam por obras curtas e rápidas -, entretanto dotadas de muita intensidade, do tipo de intensidade que permanece por muito tempo com o leitor após a leitura;
2 - Crua e visceral: Quem ler nossas resenhas de obras de Maia aqui no blog perceberá que há declarações que se assemelham com o que os jurados gringos viram na obra da autora. Como jutificativa para a indicação dissera, que seu livro “é uma exploração crua e perturbadora do poder, da violência, da destruição e da corrupção institucional que permanecerá na memória dos leitores muito depois da última página”. Poucos autores e autoras brasileiras têm se disponibilizado a tentar ir à intimidade da violência humana, suas reminiscências da animalidade como Ana Paula Maia. Suas narrativas em certa medida constituem tentativa de entendimento da animalidade humana e como ela se expressa e se apresenta associada às nossas organizações, nossas culturas, e isso é de uma potência gigantesca;
3 - Aparentemente simples, mas...: E há uma estratégia sagaz da autora no que se refere ao contato inicial com autores. Há certa aparência de simplicidade nas suas narrativas, seus personagens vivenciam geralmente uma ação linear em condições bastante concentradas. Na verdade ela nos apresenta uma obra semelhante a algum western contemporâneo, inclusive com certo deslocamento cartográfico, paisagens ermas, lugares remotos, estranhos aos olhos brasileiros, inclusive. Quase um faroeste, uma jornada de ação, mas sob essa superfície um gigantesco iceberg se oculta, carregado de complexidades para além dos tiros, das porradas e das carnes destroçadas...
4 - Obras de personagens marcantes: Um dos pontos altos do projeto literário de Ana Paula Maia são seus personagens, muitas vezes recorrentes, caso de Bronco Gil e Edgar Wilson, por exemplo. Eles entram naquela categoria de personagens que tomam para si certos estados de existência real, tamanha impressão deixa em seus leitores, pois são personagens marcantes cujas trajetórias ficam impressas em nossa memória...
5 - Dos deslocamentos...: Já dissemos aqui que há na obra de Maia certos deslocamentos. Talvez porque, parece-nos, na obra da autora não há algo que ao mesmo tempo é característica, mas sob certa forma, também grilhão: a problemática da identidade nacional. Grande parte de nossa literatura está pautada por elementos ou discussões acerca da identidade, mas no caso de Maia, desconfiamos que a sua busca é mais ampla, trata-se de uma tentativa de penetrar a intimidade humana e mais especificamente a intimidade humana do "animal macho", pois que suas obras olham para os homens e suas brutalidades, as mulheres são poucas em sua obra. Para isso em seus livros o que chamamos de deslocamentos são as nuances que nos afastam de uma imagem meramente brasileira, a paisagem, embora erma, pode ser o deserto das almas de qualquer nação, mas especialmente com algumas reminiscências da paisagem norte-americana, sensação que amplia-se com o nome de seus personagens, como Bronco Gil que mais lembra o nome de um personagem de faroeste que algum trágico herói nacional. Ana Paula Maia promove deslocamentos, mas diga-se, nunca afastando-se demais de nós mesmos;
6 - Onde os fracos não têm vez: Talvez o deslocamento falado seja justamente para dar a abertura necessária à discussão da brutalidade humana, mas diga-se, uma brutalidade com endereço. Não parece-nos aleatório a autora trazer majoritariamente personagens homens em espaço majoritariamente habitados por homens em suas existências brutais. São narrativas que buscam não só desvelar, mas tornar nua a brutalidade masculina, além de todas suas corrupções, como no caso do livro indicado. Sua obra é uma obra sobre a brutalidade e a violência, especialmente a dos homens;
7 - Projeto literário consistente: Essa brutalidade faz parte de um projeto literário amplo. Seus personagens recorrentes, suas vivências e experiências extremas dão conta da existência de um projeto literário de objetivos que se apresentam aos leitores a cada nova leitura de suas obras;
8 - Entre a carne e a carne: Corpos mortos, corpos animalizados, a crueza da carne, a carne fresca, crua, morta, podre; a carne descartável, a carne a ser morta, a carne abandonada em covas jamais lembradas. Talvez aí o aspecto mais tenebroso e assutador da obra da autora, a identidade humana, a própria humanidade colapsa e é solapada pela crueza da carne, tudo vira carne descartável, retira qualquer humanidade.... isso é muito forte e trazido em narrativas aparentemente simples;
9 - Brutos, mas ainda humanos...: Nesse exitência brutal, animalesca, seus personagens então precisam sobreviver à brutalidade existencial. São personagens brutos, de conceitos e éticas marcadas por essa brutalidade, personagens despossuídos do cinismo civilizatório que muitas vezes vemos em personagens urbanos, mas portadores de uma lucidez distópica não resignada, mas pragmática em vista da brutalidade de seus universos. Edgar Wilson e Bronco Gil, não heróis ou heroicos, sobreviventes céticos em um universo em que a crueza da carne estabelece fronteiras entre vida e morte. Homens que percebem viver ainda sob signos primitivos onde a violência e o horror são signos existênciais de suas vidas;
10 - Insólitos, movimentados e profundos: Ou seja, ler Ana Paula Maia é defrontar-se com obras marcadas pelo insólito, com tramas marcadas por ação, muita ação, cenários um tanto quanto misteriosos e que a despeito da narrativa rápida e curta, de toda essa ação, ao cabo nos levam à profundeza da alma humana onde a violência, o trauma, a corrupção são leis e a morte espreita à cada curva das estradas perigosas que andam seus personagens
