Vocês já pararam para se perguntar por que defendemos tanto os livros e a literatura? Por que, afinal, as pessoas se importam com literatura? Ou deveriam se importar a ponto de a literatura ser um direito nosso. Foi o crítico literário e sociólogo brasileiro Antonio Candido que cunhou o termo "direito à literatura" e desde então reforçando a necessidade de vermos a literatura como um dos bens incompressíveis da nossa existência, ou seja, algo que não tem preço e que devemos satisfazer. No post de hoje compartilhamos 10 argumentos utilizados por Candido que ressaltam a relevância da literatura na experiência humana, confira:
1 - Antes de mais nada, o que é literatura para Candido?: O que é literatura para você? Livros, romances, contos... no seu ensaio canônico Candido coloca a literatura no mesmo espaço da arte, ou seja, literatura é arte, e tal como, a arte nos é indispensável. Em seu texto o autor trabalha com um conceito amplo de literatura: "Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos de folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações". Essa olhar amplo de Candido estabelece a literatura como espaço da fabulação e é justamente essa longa vereda da humanidade pelos territórios da fabulação elemento importante de argumentação, afinal, desde que nos conhecemos por humanos ou tomamos consciência da nossa humanidade, contamos e ouvimos estórias (assim mesmo com "e" que é muito mais bonito e simbólico;
2 - Manifestação universal de todos os homens em todos os tempos: A partir dessa conceituação ampla de literatura candido nos lembra algo impossível de refutar: a fabulação, o narrar e declamar estórias, construir mitologias, etc... enfim, isto está presente em todas as sociedades humanas (mesmo antes do advento da escrita, lembre-se, a literatura precede a escrita, pois antes dela o mesmo depois, pois ainda encontramos civilizações sem ela, a literatura se transmitia pela oralidade). Pesquise por algum período ou época da humanidade sem literatura, sem a fabulação e falhará miseravelmente;
3 - Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contacto com alguma espécie de fabulação: Adoro trabalhar o texto de Candido com os alunos de Ensino Médio especialmente a partir dessa provocação. É uma afirmação firme de Candido, que não há povo que possa viver sem ela. Mais uma vez o convite é para que se refute tal afirmação, é possível afirmar isso em nosso presente, por exemplo? Até mesmo uma passagem rápida pelo Tik Tok (sim, eu estou citando o tik tok e de maneira positiva, credo! mas serve também para o Instagram com seus reels e stories). Quem já não passou por perfis "fabulando", sim, contando historietas, fazendo novelinhas? Hoje a grande mídia inclusive tem começado a usar um formato que nasceu muito na cultura popular dessas redes sociaism, com pessoas que sequer eram atrizes e atores, "fabulando" estórias nas redes sociais... Atente-se, inclusive para o bem e para o mal, se as listas de músicas em listas do Spotify não representam fabulações de diferentes "povos"? Nem o vício em internet e redes sociais é capaz de refutar tal afirmação de Candido, pelo contrário, a intensificam;
4 - Ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entregaao universo fabulado: Outra afirmação argumentativa de Candido muito boa para instigar, provocar... quem de vocês consegue ficar 24h sem qualquer contato com a fabulação? Certa vez tive uma aluno bastante refretário às minhas aulas de literatura, acontece, muitas vezes justificou que não lia, não gostava de ler, não escutava nada, não via filmes... enfim, um exemplo para contradizer essa máxima de Candido... até que em uma mostra de trabalho este mesmo aluno nos apresenta um trabalho incrível sobre rap norte-americano... Quero dizer com isso que é bem difícil refutar essa afirmativa, no espaço de um dia (e nem vou entrar na questão que somos todos entes culturais e cultura são estórias) ouvimos música, bobear declama-se ou escuta-se um poema, vê-se um filme, uma novelinha no Tik Tok... e olha que nem era sobre isso a afirmativa de Candido, já que a relação das 24h ele argumenta que nesse espaço de tempo dormimos e sonhamos, os sonhos enquanto terreno da fabulação;
5 - Durante a vigília a criação ficcional ou poética, que é a mola da literatura em todos os seus níveis e modalidades: Candido trabalha com a ideia, olha que bonito, que a literatura é o sonho acordado das civilizações, ou seja, nossa fabulação nos sonhos está relacionada com nossa experiência de vigília e nosso contato com as muitas "armas" da fabulação, causos, anedotas, romance, piadas, etc; ou seja, esse contato com um infindável exemplos de fabulações no decorrer do nosso dia, molda-nos também;
6 - A literatura está presente em cada um de nós, analfabeto ou erudito: Outra afirmação legal para instigar estudantes e curiosos. Como assim, a literatura em analfabetos e eruditos? Parece simples, mas qui Candido desaloja a literatura como propriedade das elites sociais (não significa que ele diferencia apenas dizendo que cada uma tem sua literatura, neste post, inclusive compartilhamos um vídeo que sua defesa é que pessoas simples também possam ler os grandes clássicos). Temos que considerar aqui tanto o olhar amplo sobre o que é fabulação para ele, mas considerar algo que já citamos, a literatura, a fabulação prescinde da escrita, algo que hoje muitos parecem ter dificuldade de lembrar. Aliás, é um analfabeto, Homero, que vai espalhar a criação literária que hoje é a base de toda cultura ocidental, Ilíada e Odisséia. Vocês vão encontrar reportagens fascinantes sobre as romancistas africanas que guardavam romances apenas na oralidade para transmiti-los de geração em geração. Aliás, se você olhar para você mesmo em um espelho muito íntimo conseguirá resgatar estórias que moldaram sua visão de mundo, ou mesmo estórias que você teve que ressignificar por já não caberem mais no seu contextos de aprendizados;
7 - Instrumento poderoso de instrução e educação: Outro argumento importante de Candido para que tenhamos a literatura enquanto um direito a ser suprido é a seriedade que lhe damos e como ela é utilizada como instrumento para aprendizagem e educação, afinal, desde seus primórdios as narrativas são usadas para transmitir conhecimentos, valores, crenças, sabedorias, etc... tanto que, como o autor aponta, por isso as estudamos nas escolas, nas universidades, enfim, é inegável o papel da literatura na construção do conhecimento e na educação dos povos;
8 - A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate: Observemos que a afirmativa de Candido aqui tem muitas camadas. Nela está a raiz que leva aos seus estudos a ser compreendido como literatura e sociedade, ou seja, as relações da literatura com a sociedade, seja em seus aspectos positivos ou negativos conforme seu ponto de vista. Ele demonstra que a literatura é instrumento tanto de denuncia, mas também de apoio ou combate aos diferentes e múltiplos conceitos ou formas de compreender um grupo social. Para ele a literatura nos dá "a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas" sociais. Aqui outro aspecto importante para compreensão de Candido, se de um lado nossas cultura e nossos valores vai construindo a literatura, de outro, em sua dialética, a literatura é também um instrumento ou de mudança social ou de conservação de conceitos sociais e por isso intimamente ligada a como nos organizamos em sociedade;
9 - Sonho e literatura: retomando aqui a relação da literatura com os sonhos feita por Candido, para ele, assim como os sonhos são indispensáveis para nosso equilíbrio psíquico (Freud e Jung concordam e Sidarta Ribeiro te explica), a literatura também é um instrumento de equilíbrio social, que para o sociólogo, sem a literatura, talvez seja inviável;
10 - O Bem incompressível: e é com este e outros argumentos, inclusive os mais técnicos, que ele vai defender que o direito à literatura é igualável ao nosso dirento à alimentação, saúde, educação, liberdade e conclui lindamente que "ora, se ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura concebida no sentido amplo a que me referi parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito".
Gostaram da estrutura deste post? Conseguem refutar algum destes argumentos? Deixem aí nos comentários.
