10 Considerações sobre O discurso da metástase, de André Sant'Anna ou sobre rir para não chorar

 No post de hoje, em mais uma parceria com a galera da Ufpel, compartilhamos o texto de Patricia Fernandes dos Santos, cuja apresentação segue abaixo.

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Sendo eu graduanda do curso de Letras- Língua Portuguesa e Literatura Brasileira pela UFPEL, gostaria de compartilhar com vocês uma experiência vivenciada durante esse primeiro semestre de 2022.

Ao cursarmos a disciplina de Narrativa Brasileira Contemporânea, sob regência do professor Dr. João Luis Pereira Ourique, fomos provocados a realizar a leitura de algumas obras de autores contemporâneos, previamente selecionadas pelo docente, para fins de dialogarmos sobre as referidas obras e criarmos trabalhos dos mais variados formatos e estilos, tendo como base os títulos que o professor nos apresentou. Confesso que essa disciplina foi a que tirei maior proveito, pois o envolvimento com os trabalhos foi prazeroso e o resultado final bastante satisfatório.

Em seguida, trago algumas percepções a respeito da obra Discurso sobre a metástase, do escritor André Sant’Anna.  

1 - Loucura em pauta: Em seu livro Discurso sobre a metástase, o escritor André Sant’Anna traz uma coletânea de textos que busca retratar a loucura da realidade brasileira contemporânea. A linguagem utilizada pelo escritor mescla: ironia, espanto e humor, para discorrer sobre o atual cenário político, econômico e social do Brasil. A partir da leitura da obra, pude evidenciar muitas semelhanças com a realidade, recurso esse que é muito explorado em algumas criações literárias, já que: “a obra literária, utilizando a palavra, recria a realidade, a vida. Essa definição focaliza dois aspectos opostos, mas complementares, da arte literária: a criação e a representação. Por um lado ela é invenção;

2 - Ficção ou realidade?: O autor cria uma realidade imaginária, fictícia, utilizando, como matéria-prima, a linguagem. Por outro, o universo da ficção mantém relações intensas com o mundo real, como o conhecimento e a experiência de vida, tanto do autor como do leitor. Assim, a literatura é também imitação da realidade”. (Fonte: Novas palavras, 2016, p. 24);  

3 - É rir para não chorar!: Discurso sobre a metástase suscita no leitor indignação, espanto e riso, já que: “O livro tem uma estrutura curiosa. Um conto mais longo, nada linear, nada ortodoxo; uma pequena série de textos biográficos, nada típicos, nada diretos apesar de profundamente sinceros; uma peça de teatro, nada simples de se encenar. E tudo isso costurado por uma série de contos/ensaios/performances em que vozes que dizem este imenso Brasilzão varonil de meu deus (minúsculo) vão criando uma espécie de ruído de fundo, repetitivo, circular, espiral, dolorosíssimo e com momentos hilários” (Fonte: https://www.plural.jor.br/noticia);

4 - A realidade pode ser dura!: Quando analisamos a escolha do título da obra, verificamos que: “O livro se chama “Discurso sobre a metástase”. E o que ele tem de mais direto a te oferecer é isso mesmo. Uma análise das células podres que vêm comendo a minha vida e a tua nos últimos anos. E isso é duro de ler. Mas este livro existe. E às vezes isso pode ajudar…?” (Fonte: https://www.plural.jor.br/noticia);

5 - Simbiose entre realidade e ironia: Exemplo dessa simbiose entre realidade e ironia se encontra no excerto: “Sim! E educação para todos! Escola para todos! Sim! Vamos continuar reduzindo todo o conhecimento humano a uma pequena quantidade de conceitos facilmente digeríveis por uma grande quantidade de pessoas, como objetivo de edificar um raciocínio uniforme entre o máximo possível de humanos, para que eles pensem exatamente os mesmos pensamentos. Assim, vamos separar o joio do trigo, os educados dos perdidos, uma divisória clara, como uma grande prisão que separa os bons dos maus, isolando as pessoas de comportamento transgressor às regras de convivência social estabelecidas das sociedades adaptadas e obedientes às regras de convivência social estabelecidas[...]. (SANT’ANNA,2021, p.21);

6 - O emburrecimento coletivo: Vimos retratado pelas palavras do autor, um modelo de educação propositalmente destinado a criar um coletivo de imbecis, aqueles que servirão de mão de obra barata para as elites [os cidadãos de bem]. A educação das grandes massas deve coibir o exercício do pensamento livre, da criticidade, para não prejudicar o status quo dos cidadãos da elite.  Indivíduos medíocres não devem ter consciência de seus direitos inalienáveis.

7 - Nada previsível: Ao mesmo tempo que me produziu um sentimento de indignação, ao reconhecer nossa realidade ali retratada, a obra me instigou a ler mais, já que não se consegue inferir o que virá em seguida; não se pode classificar Discurso sobre a metástase como uma leitura previsível;

8 - Só o dinheiro importa!: Analisando o trecho: Vamos ganhar dinheiro para viver a nossa cultura! O Brasil é bom! É tão bom viver num país democrático! Os deputados são bons! A democracia nos trouxe progresso! O progresso é bom! Nós usamos gravatas! As gravatas são bonitas! As gravatas nos deixam mais bonitos! O mundo é bom, pois nós, a humanidade, somos civilizados[...] (SANT’ANNA, 2021, p.13); evidencia-se um jogo de palavras que nos leva à indignação, porque faz apologia ao poder do capital, à beleza do ter, às mensagens subliminares as quais somos expostos todos os dias, pela mídia, pela classe política, pelas instituições;

9 - Religiões e dinheiro: No excerto: [...] Você tem muita coisa para purificar na sua vida! Pois só os puros terão suas poupanças beneficiadas pelo puro poder do dinheiro de Deus! Antes de usufruir do pão compartilhado e receber sua parte do ouro dividido com os seus irmãos filhos de Deus, você tem que fazer a sua parte, que é tirar a macumbaria, a maconharia, a viadagem e o topless de sua vida. Definitivamente! Você tem que esmagar esse desejo que você tem de usar o aparelho excretor para fazer sexo com outros homens do mesmo sexo[...]. E sabe por que não adianta nada a sua castidade, os seus escrúpulos morais? Porque você pode até parar de usar o aparelho excretor para fazer sexo nojento com homens do mesmo sexo, mas, lá dentro da sua alma, do seu inconsciente pederasta, a viadagem vai continuar lá[...] (SANT’ANNA,2021, p.23); as palavras do autor me provocaram um sentimento de indignação diante de tanta hipocrisia e preconceito, palavras essas que são de uso comum por algumas pessoas. Considero uma violência extrema o desrespeito à orientação sexual das pessoas. Também, a intolerância religiosa é algo abominável, que necessita ser combatido;

10 - Concluindo: Diante do exposto, recomendo a leitura da obra Discurso sobre a metástase. Trata-se de uma leitura aprazível, que confronta a realidade e o imaginário, com muito bom humor, criando efeitos de sentidos surpreendentes. Também, nos convida a refletir sobre a realidade brasileira e o atual cenário que vivenciamos.  

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