10 Considerações sobre Depois de Auschwitz, de Eva Schloss ou sobre nunca esquecer

 Em um ano que tenho padecido com o ritmo da leitura, este livro me foi emprestado por uma aluna a partir de um debate realizado em sala de aula, portanto, uma excelente motivação à leitura. Neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre Depois de Auschwitz, de Eva Schloss publicado pela editora Universo dos Livros. Confira:


1 - Por que leituras de relatos sobre o holocausto e os horrores da Segunda Guerra ainda nos importam? Por que ainda precisamos ler estes relatos? Como diria Adorno, não esquecer Auschwitz é requisito fundamental para que não esqueçamos até onde a degradação dos valores humanos pode nos levar, e que tal lembrança nos guie a não chegarmos a novos Auschwitz (ainda que, desconfio, ocorrem por aí). Ler estes relatos é testemunhar a barbárie em seu ápice e lutar para que não se repitam, de modo que obras como estas mais que testemunhas, são convites à resistência;

2 - Em Depois de Auschwitz Eva Schloss relembra e narra sua experiência trágica enquanto prisioneira do campo de concentração de Auschwitz, um dos lugares mais tenebrosos e sombrios da história humana na terra. Numa narrativa que reconstrói esses tempos medonhos, a autora parece caminhar numa linha bamba entre o real possível da vida considerada normal e o real absurdo, do mergulho nos acontecimentos tão trágicos que à mente humana soam como um pesadelo irreal;

3 - Nesse sentido, a narrativa entremeia-se entre os acontecimentos durante o período nazista, mas também das relações humanas e familiares construídas por Eva desde sua infância até a vida adulta e o estranhamento causado pelo mundo no pós-guerra;

4 - Assim, encontraremos na obra uma parte inicial em que Eva coloca sua existência e da família no mundo falando da família, sua história e, claro, sua infância. Aliás, uma infância que observa a chegada dos nazistas ao poder numa escalada que não é imediata, mas de eventos que se sucedem até tal ponto em que um não retorno impossibilita o cenário de pesadelo;

5 - E isso, claro, é algo que não precisa ser dito, mas que o leitor a partir da estrutura e da disposição dos fatos narrados o leitor vai construindo: o horror, a barbárie não se dá de uma hora para outra, pelo menos do que observamos na perseguição nazista aos judeus. Primeiro a ofensiva se dá no discurso, na desumanização do inimigo, do outro, as artes pejorativas, as infâmias, primeiro se constrói um cenário a amelhear radicais consumidos pelo ódio e pelo medo, depois as restrições, das proibições à "marcação" pela estrela amarela, até o derradeiro momento que que pessoas, que seres humanos são atirados em vagões de transporte animal para serem torturados e executados das maneiras mais vis possíveis;

6 - Está pronto o cenário distópico e aterrador, que no caso de Eva e família impulsionou primeiro a uma vida retirante, em permanente fuga em que tudo que lhes era certo rui nessa escala progressiva de perseguições. O livro relata as fugas e peregrinações de Eva pela Europa, os esconderijos e as traições que a atiram junto com os familiares em Auschwitz, de onde ela e a mãe conseguem sair com vida, mas não o pai e o irmão;

7 - Obviamente, grande parte da narrativa se dedica aos horrores do campo de concentração. Eva era uma menina quando foi jogada à morte em Auschwitz e não há como qualquer alma sadia e decente não se indignar ou sentir tamanho incômodo com os relatos da autora. Absurdo é uma palavra incapaz de dar qualquer sentido aos acontecimentos relatados. Um mundo que pari Auschwitz é um mundo em que se precisa questionar seriamente os sentidos dados à expressão "humanidade", aos aspecto "humano". É impossível não ficarmos reticentes ou preocupados a cada leitura de relatos como este;

8 - Aliás, acho muito interessante que em momentos de sua narrativa pessoal Eva não esconda suas reticências ao comportamento humano. Não tem como não ser ao menos desconfiado da natureza humana ao se ler relatos macabros desse momento (e de outros) da história. Se a um leitor consciente já fica tal impressão, imagine então alguém que tenha experimentado tal pesadelo sofrendo no corpo todo o ápice da maldade humana e que o poder propiciam nessa jornada nossa pela história;

9 - O livro em sua parte final, até pelo fato de ser uma reconstrução memorialística, traz também os desafios que as marcas impressas em quem passou pelo pesadelo enfrenta ao tentar retomar a vida com algum aspecto de normalidade. Seria possível mesmo tal normalidade? Eva, com sua natureza questionadora, coloca isso em debate também;

10 - Enfim, relatos como os de Eva Schloss são extremamente necessários, ainda que, desconfie que muitos não sejam tocados por eles. Alguns, aparentemente preferem filiar-se a maldade de modo que os relatos como os de Eva talvez não passem de brisa em meio a vendavais, contudo, a leitura de relatos como esses, aos que ainda sonham com um mundo sem barbárie, encontrem neles os mecanismos e as estruturas que alicerçam os pesadelos a por vir. 

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