O blog Listas Literárias leu Dentes de ouro, de Douglas Lobo publicado pela Livraria Danúbio Editora; Confira neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro e descubra porque lidar com javalis pode ser complicado...
1 - Dentes de ouro equilibra-se na suspeição, entre o real e o fantático, entre a ciência e o sobrenatural... É por meio dessas duas ambiguidades, especialmente, que Douglas Lobo estrutura sua narrativa de boas virtudes, como a tensão provocada, a ação - a ação final é bastante intensa - e as gentes que de modo geral correm todas em busca de uma espécie de redenção;
2 - O romance é ambientado num fictícia cidade de Santa Fé, para onde o zootecnista Firmino precisa ir a trabalho. Seu ramo é auxiliar fazendeiros com problemas com javalis, um temor que na cidade transbordou a questão ambiental para tomar ares de sobrenatural. Espalha-se a lenda de um javali monstruoso - com seu bando -, o Dentes de ouro, referência para levar pânico e medo ao povoado;
3 - É aí que resíde algumas das virtudes da narrativa. O autor consegue equilibrar bem essa tensão que ao cabo nos entrega um romance próximo ao horror e ao suspense. Um horror equelibrado justamente no tempo da suspeição que Todorov afiança ao gênero fantástico. A dúvida permanece, os acontecimentos foram naturais ou sobrenaturais? Isso pouco importa, pois o medo e o horror por quais os personagens passam no decorrer da narração são bem reais, independentemente da natureza de Dentes de ouro;
4 - O javali faz brotar outra relevante tensão que parece-nos querer tratar o autor: o embate entre o racionalismo científico e o misticismo afeito a lendas e mitos. Seus personagens acabam representando tais arquétipos, Firmino, o homem da cidade, da ciência, dos estudos e suas busca sempre pela razão, pela explicação científica - bem verdade, que a certeza absoluta nele acaba em parte sendo rompida após o desfecho e embate final com Dentes de ouro...
5 - Do outro lado os personagens do povoado, gente afeita às lendas, consumidoras e reprodutoras de imaginário mítico. Everardo, policial quase morto numa caçada pelo Dentes de ouro e seu genro, Venâncio, ex-marido de Aurora, representarão essa busca pelo outro caminho. Nem tudo a ciência pode responder e por vezes a prática é mais relevante que a teoria, segundo eles... todos esses quatro personagens em busca de algo, redenção, expiação de culpas...
6 - Pelo modelo arquetípico explícito, logicamente com eles surgem alguns clichês, Aurora, a moça que ficará no centro de uma disputa amorosa, Venâncio e Firmino inimigos sem saber o porquê. Ou sabendo, afinal, o olhar ao estrangeiro que chega é sempre desconfiado, além disso, o matuto simples mantém a desconfiança para o outro - o moderno, o futuro que chega;
7 - Contudo é justamente a necessidade de união de ambos contra um inimigo ainda mais perigoso que movimenta a ação narrativa. Os dois precisarão lidar com seus conflitos de modo a agir pela salvação local, pois sejam naturais ou sobrenaturais, os javalis em Santa Fé mostram-se perigosos além de uma normalidade. Por isso, especialmente, a segunda e terceira parte do livro o predomínio é a ação. A ação final construída com grande qualidade a partir do escalonamento do medo;
8 - Entretanto, se de um lado trazemos boas virtudes de uma narrativa equlibrada e bem escrita que reforçam a capacidade do autor, por outro, há certos detalhes que nos chamaram mais atenção do que deviam. Alguns relacionados às escolhas do autor e especialmente um que poderia - e deveria - ter sido resolvido pela edição, um detalhe mínimo, mas que melhoraria muito a fluidez e forma de ler a narrativa. Comecemos por esse, que de certo modo, foi mais incômodo: a necessidade de quebras de linhas em cenas internas ao capítulo. Os capítulos do livro não são longos, porém, dentro deles há mudanças de cena, inclusive com altercações de espaço ou personagens. Isso não é problema, muitos livros são escritos assim, mas geralmente há aquela quebra de linha indicando ao leitor que a narrativa sai de a para b. Faltou isso no livro, o que deixou algumas transições truncadas, estranhas, numa linha você está com um casal se beijando, na linha seguinte outros personagens, outro cenário... cremos que o autor imaginava tais quebras das linhas... há um único caso, ma página 253, e ali demonstrado a importância da quebra que deveria estar presente em toda publicação...
9 - Saindo de uma questão de edição, para aspectos estruturais e técnicos que causaram certo estranhamento em nossa leitura. Um deles, certos usos do subjuntivo do verbo que não nos pareceram adequados, mas pouca coisa. Detalhe mais discutível e que pode causar ruídos na verssimilhança é o uso de pistolas em caçadas. A pistola geralmente não é uma arma de caça. É ninharia, eu sei, mas ver homens caçando javalis com pistolas me soou estranho - talvez o problema seja eu. Entretanto, talvez o aspecto mais saliente e que a este leitor foi incômodo foram os excessos descritivos do vestuário de seus personagens. Não sei se como se deu a descrição ou o abuso de descrições das vestes das personagens, mas o fato é que essa recorrência incomodou um pouco, talvez porque no contexto das cenas parecesse dispensável saber o que tal personagem vestia. Ocorre que o narrador parecia um figurinista interessando em apresentar cada mudança de roupa. Muitas vezes até quebrando o clima de tensão construído;
10 - Enfim, dito tudo isso, Douglas Lobo afirma-se como um autor capaz de tecer narrativas que mantém o interesse dos leitores do início ao fim. Por meio da ação e do suspense, apresenta de certa forma com sutileza, suas teses e crenças no mundo, porque ao cabo, no aparente embate entre razão e fé, ele tem um lado por qual pende. Um lado que existe e persiste em nossos rincões ermos onde as lendas e os mitos ainda ganham vida e causam temores. Um pouco é sobre isso essa narrativa em que o estranho vindo da ciência e da cidade precisa compreender que o sertão é outro e que vive sob outras leis de entendimento do mundo. Uma boa narrativa, seja pela ação ou pelas discussões que promove.

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