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10 Considerações sobre O mal-estar na cultura, de Sigmund Freud ou tentativas eficientes de compreender o mundo

O Blog Listas Literárias leu O mal-estar na cultura e outros escritos da coleção Obras Incompletas de Sigmund Freud publicado pela editora Autêntica; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:


1 - Concordamos com as primeiras linhas de Gilson Ianini e Pedro Heliodoro Tavares à apresentação da publicação quando dizem que "não é possível compreender nosso tempo sem ler O mal-estar na cultura. Sem ele, os séculos XX e XXI, seriam simplesmente, ilegíveis". De fato, poucos pensadores foram capazes de propor ou conceber os comportamentos e o andar das massas humanas como Freud. O que os editores então afirmam já na abertura da publicação corrobora a popularesca versão "Freud explica" tão grande o alcance do pensamento do psicanalista;

2 - Cultura, Sociedade, Religião - O mal-estar na cultura e outros escritos integra uma coleção com uma série de publicações canônicas de Sigmund Freud. Como característica das publicações, os volumes são acompanhados de textos que discutem e problematizam o texto de Freud de modo que não apenas reforçam, mas praticam ciência. Neste volume específico, temos a apresentação de Gilson Ianini e Pedro Heliodoro Tavares falando "Para ler o mal-estar" numa espécie de contextualização ao leitor, também uma orientação da leitura; Há ainda o prefácio "Mal-estar: clínica e política" por Gilson Ianini e Jésus Santiago" e a edição fecha com um posfácio de Vladimir  Safatle em que fala de "Medo, desamparo e poder sem corpo" a partir dos textos presentes na publicação;

3 - Dito isto, são ao todo nove textos entre ensaios, textos curtos e um par de cartas trocadas com Einstein; Nesse conjunto, o criador da psicanálise concentra-se em tentar compreender a relação das massas com a cultura e as pressões desta sobre os indivíduos; daí o alcance de seu olhar para política, para a religião, para a sexualidade, etc.;

4 - Entre os textos presentes, óbvio, O mal-estar na cultura, ensaio de 1930. Nesse texto o autor concentra sua investigação psicanalítica no modo como a cultura entra em conflito com princípio de prazer, determinante do propósito de vida; No ensaio Freud apresenta-nos seu conceito de cultura e nisso algo que deve ser sempre lembrado: Freud nem angeliza tampouco demoniza a cultura, ele observa-a, em seus prós e contras, posição que ele sempre mantém, por exemplo com a religião; Em síntese, o texto aborda como o desenvolvimento da cultura trouxe benefícios à marcha civilizatória, mas que no processo impôs, por outro lado, sacrifícios à sexualidade e à tendência de agressão do ser humano, fazendo com que este entrasse numa espécie de modo de suspeição da cultura; nesse sentido, vale dizer que é mais do que válida, é esclarecedora, por exemplo, a leitura de Freud, para entender por que os radicais da extrema-direita brasileira tanto falam em guerra cultural;

5 - Aliás, não à toa também que as publicações de Freud estivessem nas fogueiras nazistas; seus textos e sua visão de sociedade são destituídas da cegueira coletiva e da incapacidade de tocar em pontos sensíveis; ele observa a relação entre o social e o natural de um modo próprio e, claro, considerando os avanços da psicanálise e mesmo outros debates nesta área, nesse seu olhar temos a tentativa de justamente fugir dos mitos e das armadilhas que muitas vezes nos impedem de ver as coisas como elas são; Freud parece ter chegado bem próximo disso, tal como um anatomista forense, pela psicanálise, Freud disseca sociedade, indivíduos e as massas; e o produto dessa dissecação tem um quê de pílula vermelha de Matrix, pois nem todo mundo, parece-me, estão disponíveis a uma visão sóbria e sem enganos acerca do mundo;


6 - Por isso, por exemplo, o incômodo das religiões para com sua obra e, justiça seja feita, Freud mesmo reconhece o papel das religiões; contudo, ao escrever como elas funcionam e por que as criamos, abala os pactos sacrificiais estabelecidos pela espécie no decorrer de sua longa jornada por este planeta para os quais as religiões são importantes mecanismos da cultura;

7 - Além disso, vale dizer que os textos aqui reunidos dialogam com outros trabalhos relevantes de Freud como perceberão os leitores. A questão da religiosidade presente em muitos dos ensaios no volume reunido remetem sempre ao seu texto Totem e Tabu; O mesmo ocorre com os retornos e (re)afirmações da batalha que descreve dentro dos indivíduos entre Eros e Tânatos, entre prazer e a pulsão de morte; como a cultura interfere nisso tudo;

8 - Nesse caminho de questionar, em certo sentido, o próprio poder, não menos importante e político é sua abordagem das massas, no caso, a sessão de psicanálise da massa que ele nos propõe em "Psicologia das massas e análise do Eu", de 1921. O ensaio é interessante, inclusive, porque está um tanto antecipado aos movimentos de massa da década e da posterior. Mas sua sessão de análise dá conta; mais do que isso, a psicanálise das massas parece-me não apenas pertinente para os seus dias aos aos dias olhados por Freud, como também aplicável às massas de um século XXI parecido em demasia com o que lhe sucedeu;

9 - Outra questão abordada por Freud nos textos selecionados é a questão da guerra. No texto de 1915 com suas considerações contemporâneas sobre a guerra ele está inserido dentro da Primeira Grande Guerra; No texto o psicanalista trata a questão justamente a partir de nossa relação com a morte e ao seu cabo sentencia "se quiser suportar a vida, prepare-se para a morte". A guerra estará também presente em uma troca de cartas entre ele e Einsten. Essa carta não apenas vaticina, mas também observa os caminhos da guerra perante a cultura... antecipa muito do que já percebemos hoje, da guerra não travada, mas permanente e "silenciosa";

10 - Enfim, como dito anteriormente, Mal-estar na cultura é certamente das publicações mais relevantes do conhecimento humano. Sua abordagem (a partir da psicanálise) lúcida dos mecanismos a mover o mundo fazem-no documento permanente da humanidade porque nos desnuda de tal modo que ficamos à descoberto, tudo está à mostra; talvez por isso o reacionarismo quando em voga atira contra a psicanálise e contra Freud; neles mora o perigo do tomar de consciência, do compreender do quê fazemos e por quê fazemos muitas das coisas que fazemos; Não são textos que Freud se proponha deter a verdade, mas argumentações precisas e esclarecedoras.  

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