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10 Considerações sobre Harry Potter e a pedra filosofal, de J. K. Rowling ou sobre protegidos e proteções

O Blog Listas Literárias leu Harry Potter e a pedra filosofal, de J. K. Rowling publicado pela editora Rocco; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro. Confira:


1 - Escrever sobre uma obra com tantos fãs e que tanto influenciou leitores, autores, editores, etc. não é uma tarefa fácil. Especialmente porque será sempre um desafio escrever algo novo ou diferente que já não se tenha falado antes. Também há o perigo de percorrer caminhos com todas as indicações já feitas, de modo que nos fixamos em todas as coisas que fizeram da obra o sucesso que foi; ou a atitude inversa, de querer contradizer o sucesso e em razão disso ser demasiado duro e intransigente. A ideia neste post é tentar se equilibrar nesses desafios todos;

2 – Logicamente não é gratuito quando um livro, toda uma série, acaba se tornando um fenômeno, que no caso de Harry Potter reúne mais de uma geração. O livro, aliás, não raro é declarado por muitos leitores e leitoras ser a razão destas pessoas de adquirir o gosto e o hábito da leitura. Isso por si só é bastante salutar. Tal efeito sempre chamou minha atenção, sempre atiçando a curiosidade deste leitor, mas então, o que há nesta obra para cativar e conquistar uma gigantesca legião de leitores? Não sei se encontrei as melhores respostas, mas comecemos pelas virtudes da narrativa;

3 – Harry Potter é um verdadeiro caldeirão em que estão mergulhados toda a riqueza do imaginário construído pela fantasia, pela literatura, pelas lendas. Da alquimia à magia, do heroísmo ao tradicional espírito de aventura que sempre foi atrativo aos jovens leitores. Isso significa dizer que a narrativa é rica em intertextos colocados em seu universo mágico que parece conferir ao mundo algum sentido. Isso parece mais nítido com a cisão do mundo em dois, dos trouxas e dos bruxos. No fundo o livro nos diz que a vida é, ou deveria ser mais divertido que a realidade dos Dursley. Isso, aliás, não é muito novo, a crianças tendem a não concordar com o mundo dos adultos, de modo que Hogwarts é de fato muito sedutora;

4 – Além disso, temos o fato de que a narrativa não apenas reúne características visuais bastante fortes e cenas que se fixam junto ao leitor, mas também se desenrola num ritmo envolvente em que os acontecimentos se precipitam um atrás do outro. O efeito é de que ao se grudar à leitura, larga-a já no fim;

5 – Entretanto, falar das qualidades de Harry Potter é quase chover no molhado. Andar pelo já dito, ainda que, talvez alguns desses “já ditos” pode ser que este leitor não concorde. É, enfim, uma narrativa atraente. Os personagens desenvolvidos com boa coerência, mesmo que não de todo, complexos. Tudo isso chama atenção, como, aliás, muitas narrativas juvenis. Talvez aí o segredo quem sabe não de todo claro de por que Harry Potter seja a maior referência. Eu, pelo menos, em minha leitura não pude encontrar aquilo que o torne assim tão único. Pelo menos não no sentido mais positivo das coisas;


6 – Acontece [e diga-se, aqui é a leitura de um adulto sobre a obra, o que não muda coisa alguma, pois este mesmo adulto lê Nárnia com a mesma fascinação da infância] que ao avançar minha leitura de Harry Potter e a pedra filosofal muitas das coisas a que se diz do livro, a mim não pareceu fazer sentido. Por exemplo, a questão da diversidade e da empatia. Fala-se muito de que o livro colabora nessa construção para compreendermos os outros, a diversidade. Pelo menos nesse primeiro livro, não fica bem claro onde se pode encontrar tal interpretação. Hermione, por exemplo, diferentemente do filme, no livro é jogada a um papel para lá de coadjuvante. Pior ainda, não raro é tratada por Harry e Rony de forma grosseira como se o machismo estivesse gravado desde a infância. Ademais, se olharmos atentamente, o livro reforça a ideia da construção de bolhas, de cada qual no seu quadrado, no caso, sua casa, uma ideia de uma Europa medieval que é bastante persistente. Além disso, os pequenos grupos construídos não passam das bolhas que geralmente também vimos a juventude fora da ficção ter de construir: seus grupos, suas tribos... achar seu lugar...

7 – Na verdade, desconfio que a percepção crítica deste leitor começa pela própria Hogwarts. Vejamos, o mais fantástico em Hogwarts são as disciplinas e as características dos estudantes que lá estudam, porque de resto, temos a metáfora de qualquer outra escola espalhada pelo mundo. E uma metáfora que traz à tona justamente o pior que há nos modelos escolares. O ensino em Hogwarts e seus professores é baseado numa tradição autoritária. Mais do que isso, é explícito na narrativa que a escola, quase um espelho de muitas escolas por aí a fora, parte de uma premissa totalmente bancária. Os jovens bruxos não passam de cabeças vazias nas quais os professores depositam seu saber. Ou seja, Hogwarts apresenta uma pedagogia ultrapassada e conteudista que na pior das hipóteses naturalizou entre muitos jovens leitores, comportamentos já não mais aceitos na pedagogia contemporânea. A este leitor, pelo menos, isso é um problema;

8 – Vejamos ainda que Hogwarts acirra em seus alunos uma competitividade nem sempre sadia. Não apenas pela disputa da Taça das Casas, mas por todos os comportamentos tolerados e que afloram no livro a todo momento, inclusive o bullying. Aliás, nesse quesito nem mesmo Harry Potter é um exemplo de bom comportamento. Ao invés de se contrapor ao problema, em muitos momentos ele se portará da mesma forma, o que pode ser bastante problemático;

9 – Mas acima de tudo, minha confissão que por certo deverá desagradar muitos leitores, é o fato do personagem Harry Potter e seu comportamento me parecerem muito contraditórios se comparado às virtudes que a grande maioria dos leitores lhe imputa. Vejamos, Harry Potter passa longe de ser aquele personagem alquebrado que superará suas dificuldades ao fim de uma jornada transformadora. Quem vê isso está lendo errado. O garoto, sem adentrar todo o messianismo de sua figura, ao cabo, descontado o período vivido com os tios é exemplo característico da herança dos privilégios. Observemos que Harry habitar a escada é mais um engodo na tentativa de cooptar familiaridade do leitor que a sua real situação. Esse período de sua vida dá a falsa impressão de o garoto ser um pobre coitado que viverá o seu conto de fadas. Harry é o próprio conto de fadas. Um bruxo burguês que passado algum tempo de dificuldade será logo resgatado aos privilégios de sua burguesia. Aliás, isso fica mais claro quando posto do lado de Rony. Além disso, desde o princípio sempre foi o predestinado poderoso, afinal, é assim que se inicia a trama. Mas nada mais burguês do que tudo que ocorre com Harry Potter em Hogwarts. Em momento algum ele é tratado com imparcialidade; e não são poucos os momentos que recebe privilégios. A começar pela proteção de Hagrid ao fato de Dumbledore devolver-lhe a capa da invisibilidade. Nesse sentido Harry parece-me mais perigoso que o próprio Malfoy. Além disso, Harry Potter não raro é ríspido, preconceituoso e muitas vezes um tanto arrogante. Mas creio que seu maior defeito seja o de julgar precocemente os outros. O caso mais marcante é o de Snape. Por isso é estranho muitas vezes ele ser tomado como exemplo de compreensão ou superação diante tantos privilégios e condutas um tanto questionáveis;

10 – Enfim, Harry Potter é divertido, tem seus encantos. Mas a este leitor, parece que muitos de seus defeitos estão escondidos pelo impacto do fenômeno. Se nos dedicarmos a uma leitura sem paixões ou pré-concebidas é possível que encontremos aqui e ali um ou outro problema a ser criticado. Não há obra que não a tenha, é verdade. O que me chama atenção ao final, sem dúvida é o fato de que muitas das interpretações do livro parecem não se sustentar nos acontecimentos internos da narrativa.

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