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10 Considerações sobre Talvez você tenha que conversar com alguém, ou sobre encontrar o "verdadeiro" problema

O Blog Listas Literárias leu Talvez você tenha que conversar com alguém, de Lori Gottlieb publicado pela editora Vestígio; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 – Talvez você deva conversar com alguém é um amálgama de vidas e histórias de pessoas que encontraram na terapia e, mais do que isso, na possibilidade de conversar, abrir-se, olhar para dentro de si, encontrar o caminho e diagnosticar os verdadeiros problemas que enfrentam em suas díspares existências. Aliás, uma das coisas que a leitura da obra nos ensina é justamente que não há hierarquia dos problemas, por mais que muitas vezes tendamos achar que o problema de A é mais grave do que B. Pelo contrário, Gottlieb mostra-nos que todos os problemas devem ser enfrentados com seriedade e gravidade, já que se algo nos incomoda, é por alguma razão;

2 – Mas antes que vocês se perguntem se este é um livro sobre terapia, adianto-me: sim e não. Isso porque a obra é uma narrativa um tanto híbrida, que sim, envereda-se pelas questões da terapia, entretanto, não de uma forma acadêmica, embora não raro a autora traga nomes e referências da psicologia, bem como nos forneça de certo modo o diário de uma terapeuta, inclusive apresentando e propondo discussões acerca de sua própria profissão;

3 – Acontece que por outro lado, a seu modo e de maneira explícita para com o leitor, a autora meio que transforma a si mesma e a seus pacientes em personagens de algo próximo à narrativa, de modo que não é, portanto, uma obra que verse sobre terapia, mas sim sobre personagens, diferentes e distintos personagens, inclusa aí a narradora, a própria Gottlieb, que ao abrir seu consultório aos leitores, embora trate de sua experiência enquanto terapeuta, também ficcionaliza as histórias ouvidas, conferindo “identidades novas” a seus pacientes, e em alguns casos como a própria autora cita, reunindo num único personagem características de diferentes pacientes;

4 – Ao colocar-se enquanto personagem e narradora, Gottlieb dramatiza seu trabalho e suas relações. Não deixa de ser uma forma de encontrar-se consigo mesma, o que, inclusive descobriremos acerca da natureza deste próprio livro. Imagino que isso possa levar os leitores a alguns movimentos, um deles, aproximação sem temor com a leitura, já que falar de terapia pode por vezes ter lá suas resistências; assim, sendo em parte uma narrativa quem sabe alcança uma maior familiarização e disponibilidade para com a leitura;

5 – Além disso, a dramatização aqui retira o rótulo de leitura ou prescritiva ou acadêmica; com isso abre muitas possibilidades ao texto e aos leitores. Talvez se aumente aí a intimidade entre leitor e obra, de modo que valoriza acima de tudo o fato de que ao tingir-se mais como literatura que obra acadêmica, valoriza a capacidade desta primeira em causar efeitos em seus leitores. Reconhece a disposição humana em aprender por meio de narrativas, de modo que acompanhar a trajetória de uma narradora-terapeuta, ao cabo, pode ter melhores resultados que um mero guia de terapia;

6 – Ademais, ao fazer-se personagem-narradora, Gottlieb encontra bom meio de apresentar-se em todas as suas complexidades de um modo que inclusive não afete sua profissão. Ao partilhar sua vida, seu lado humano em todas as suas consequências, contradições, erros e acertos, o faz por meio da personagem, o que, de alguma forma preserva a terapeuta. Aliás, em grande parte a autora demonstra em sua experiência seus medos e angústias, tanto que seu terapeuta também adentrará a obra como um personagem, bem interessante por sinal;

7 – A partir disso temos então sempre o reforço do que nos propõe o título da obra, a importância de se conversar com alguém. A obra gira em torno desta necessidade, mas também deixa mais ou menos claro de que esse conversar pode e é recomendado também através da terapia. Perceberemos que ao conversarmos precisamos também de um bom ouvinte [no caso da terapia, um ouvinte profissional], especialmente porque conforme percebemos, o que realmente nos incomoda não estará de modo aparente. Às vezes pensamos que o problema é um, mas na verdade é nossa mente nos protegendo do que realmente nos incomoda; nesses casos, conversar com alguém que não seja um bom ouvinte pode até piorar as coisas;

8 – Aliás, se prestarmos atenção nos personagens que percorrem a obra, incluindo aí a narradora-autora, a “libertação” só lhes chega quando enfim são capazes de perceber a real natureza e origem do problema, de longe aquele que leva-os à terapia inicialmente. E isso se dá, veremos, em avanços e retrocessos, quando não, em alguns casos sequer chega-se à origem ou à melhor solução, o que também pode acontecer;

9 – Assim, com uma série de personagens de uma Los Angeles movimentada, com “pessoas comuns” ou ligadas à Hollywood, pelo consultório de Gottlieb acompanhamos diferentes histórias, todas elas que podem ou não ser encontradas em paralelo com os leitores do livro. Diferentes dramas da vida que no fim podem ser nossos próprios pequenos-grandes dramas. Aliás, embora sabendo da não hierarquização dos problemas, muitos personagens que a autora nos traz servem-nos também enquanto motivação; talvez aí, quem sabe um pequeno pecado da obra, pois alguns das histórias reunidas podem nos parecer bem maiores do que os problemas que acabamos também por enfrentar no nosso cotidiano;

10 – Enfim, Talvez você deva conversar com alguém consegue trazer com leveza uma série de problemas, que na obra são enfrentados com o apoio da terapia. Abrem-nos à necessidade e ao valor do tempo e de uma conversa em que se procure pacientemente chegar realmente ao incômodo. Gottlieb prefere o caminho mais longo, talvez por isso o mais efetivo. Uma obra que nos fala sobre terapia, mas que acima disso, nos entrega personagens instigantes. Com isso, convincente.




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