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10 Considerações sobre Orelha lavada, infância roubada, de Sandra Godinho ou sobre senhores e moscas

O Blog Listas Literárias leu Orelha lavada, infância roubada, de Sandra Godinho publicado pela editora Oito e Meio; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 – Uma pancada lírica retratando as desgraças de uma nação que mata a si mesma no nascedouro, na infância. É disso que se trata este romance [ainda que classificação de gênero não seja assim tão pacífica nesta peculiar e grande obra de nossa literatura] que numa prosa em linguagem poética e devastadora se propõe esgarçar nossas piores coisas, entre elas a indiferença com a qual muitas vezes se nega ou finge-se não ver o duro e cruel mundo “real” denunciado por Godinho em sua literatura;

2 – Embora finalista de um prêmio de livros de contos, Orelha lavada, infância roubada talvez não seja bem uma obra contos. Está mais para o romance, há unidade em seus personagens, e o próprio fato de termos o acompanhamento doutros personagens para além daquele que supostamente parece protagonizar a obra, distanciam o livro dos contos e o aproximam de um romance, bem verdade, um romance fragmentado e atravessado por diferentes vozes, algo, aliás, bastante comum aos romances contemporâneos brasileiros. Prefiro, portanto, vê-lo enquanto romance, e um romance de grandeza estética capaz de colocar Godinho entre grandes nomes de nossa literatura;

3 – Já foi falado aqui do lirismo de sua prosa, e de fato, é a obra de uma linguagem e estética bastante primorosa neste sentido. É prosa-poesia o romance, inclusive com muitos momentos em que figuras da poética como as aliterações vão conduzindo o leitor pela prosa como se fosse uma dança. Tal lirismo percorre todo o livro em seus diferentes fragmentos, que cortado nas partes “brincadeira”, “profissões”, “magia” e “limbo” nos atira a uma angustiante e dramática tragédia, a tragédia da infância; mas também a tragédia da sociedade. Nesse sentido há um curioso jogo de contrapesos, pois que a linguagem sublime do romance acaba contrabalançando de certo modo o pungente horror das vidas retratadas no romance;

4 – E talvez neste aspecto da linguagem e estrutura do texto a mais bela e enigmática parte seja justamente a que abre o livro, “brincadeiras”. As mensagens ali são múltiplas e a forma como a autora estrutura a narrativa e seus capítulos a partir dessas brincadeiras infantis é muito interessante. Mas acima de tudo o que marca é claramente o contraste criado, aquilo que foi perdido “foi-se o tempo das amarelinhas. Dele, Marcelino só carregava o simbolismo: a passagem pela vida” diz o texto que intencionalmente a cada parágrafo vai distanciando seus infantes dos títulos, “brincadeiras”, que abrem os capítulos. A lembrança da brincadeira como ordem natural da infância contraposta a infâncias alquebradas pela crueldade de uma existência hostil consegue assim o efeito certamente esperado, provocar reflexão;

5 – Mas deixemos porquanto a estética e falemos dos infantes, os desgraçados infantes desta narrativa. Há certa aproximação ao protagonismo de Marcelino, cuja experiência perpassará toda a obra. Sua vida animalesca digna de um naturalismo que não consegue nos deixar tamanhas as tragédias sociais deste país é o que parece conduzir o enredo. Marcelino é como um planeta ao qual orbitam outros personagens, satélites, e tão desgraçados quanto o possível protagonista. E aqui desgraçado não no sentido que a palavra tem tomado, mas sim desgraçados enquanto sujeitos que sofrem a ação do verbo. Desgraçados porque caíram em desgraça, uma desgraça social que lhes abriu a porta apenas do medonho e do animalesco, vidas desgraçadas pelo sistema ou pelos mais próximos, por aqueles que teriam de prepará-los à vida. Desgraçados porque a graça lhes abandonou há muito, desde o nascimento. Desgraçados porque habitam um mundo desconhecido pelas bolhas protegidas, que não raro só os conhecerão pelas estatísticas quando de suas mortes. Sob o encanto do lirismo estético assim a autora faz saltar uma realidade pútrida e atroz;

6 – Nesse sentido talvez o título do livro esteja um patamar abaixo do verdadeiro crime, do verdadeiro artigo penal que define a biografia de cada um dos infantes. “Infância roubada” passa a soar então quase como eufemismo já que as experiências relatadas estão mais para “infância assassinada”. Isto porque roubar possibilita alternativas que as histórias narradas não possibilitam. Se roubadas suas infâncias se poderia pensar que talvez, quem sabe, tais infâncias pudessem ser resgatadas, encontradas. Quem sabe um dia um policial qualquer chegasse e lhes dissesse, “olha só, encontramos a infância roubada de vocês”. Não é o caso, o perdido aqui não volta, não volta porque há inadequação do verbo. Não houve furto, mas sim o assassinato. O assassinato da infância. E assassinatos são definitivos, sem retorno, uma vida sem retorno da infância é que possuem Marcelino e seus satélites; 7 – Isso tudo num texto altamente dialógico constituído de uma grande diversidade de textos e intertextos que numa espécie de mosaico vão sendo ressignificados, caso, por exemplo, da deturpação que faz a autora de cantigas populares a compor a narrativa, todas trazidas em novos e impactantes versos condizentes com o ambiente da narrativa. Ademais, o mundo-submundo-verdadeiro-mundo enquanto espaço tomado pela violência e desesperança dialoga com importantes obras de nossa literatura, como Cidade de Deus, Capão pecado, etc... Nisso há de se dizer que há uma infância social de que pretende focar a autora, ainda que o assassinato de infantes, bem verdade, extrapola muitas fronteiras;

8 – Mas acima de todo o dialogismo, de toda a conversa que o texto realiza com outros textos, explicitamente ou não, está a conversa que Godinho estabelece com o mundo real e concreto. É possível que sua abordagem possa causar espanto e incredulidade nos habitantes de bolhas protegidas a quem isso talvez não passe de pequenas notas policiais ou trágicas. Assassinatos invisíveis do dia-a-dia; entretanto, por mais extremo que seja o cenário trazido pela autora, o eco é das ruas, das cidades. Converse com bons conselheiros tutelares, não dos ruins, porque existem estes também. Os bons conselheiros poderiam quem sabe confirmar que na vida real o exposto na ficção de Godinho é daí pra pior;

9 – Por tudo isso, temos uma leitura mais do que necessária. É ao mesmo tempo retrato, denúncia e um pedido de socorro. O assassinato se dá tanto pela ação quanto pela ausência, as brincadeiras infantis, as profissões almejadas para um futuro aos que não se permite o futuro, no fim, terminam como capítulos de uma tragédia humana, marcada pela violência e pela insensibilidade quanto à gravidade do problema a ser enfrentado. Quando alguns se espantam o quanto ainda somos primitivos, por exemplo, em certos conceitos como o de justiça, em parte talvez seja porque desconhecem que abaixo do paraíso médio-burguês só resta a selva em que sujeitos infantes são obrigados à metamorfose monstruosa. São assassinados e mortos nos mais variados sentidos, da literalidade de um fim à morte enquanto dignidade humana, essa ainda mais violenta e atroz que a outra;

10 – Enfim, Orelha lavada, infância roubada é dessas peças de arte que nossa literatura nos proporciona. Uma abordagem corajosa e uma síntese e leitura de mundo trabalhada com virtuose em sua literatura. Um chamado às nossas responsabilidades e a denúncia eloquente que estamos assassinando qualquer projeto de nação ao passo que aniquilamos nossa infância. Uma leitura a mexer com seus ânimos.


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