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10 Razões para se combater o preconceito literário

Repercutiu muito durante o final de semana a crítica de uma "profissional de letras" à leitura de Percy Jackson. A postura não é incomum e nos centros acadêmicos não raro parece existir a competição "minha leitura é mais culta que a sua". Para nomear isto tomo emprestado o termo do linguista Marcos Bagno, preconceito linguístico para adaptá-lo ao preconceito literário. Tal comportamento num país já tão carente de leitores joga contra a própria literatura e a atitude do preconceito literário sempre carregado de julgamentos prévios só afasta prováveis leitores. Nesse assunto sempre retomo a fala de meu professor na universidade, Ourique. Sempre nos dizia não há problema em ler esses livros populares ou bestsellers. O problema é ler apenas isto. E que teve ou vai ter aula com ele na UFPEL bem sabe que ele conhece, lê e critica todas essas obras, pois é quase impossível falar com ele de um livro sem que tenha conhecimento, dos clássicos aos Percy Jacksons. Mas retomando a questão do preconceito literário, procuramos listar elementos a se combater tal preconceito:

1 - Não ler é uma violência maior do que ler aquilo que julgas ruim: O Brasil é um desastre em leitura. Um verdadeiro [e já desconfio, intencional] horror de descaso. Por isso quando alguém, um jovem, principalmente, se dispõe a ler um livro, deverá ser sempre uma atitude a ser louvada. E não é preciso ficar esquentando a cabeça, todo bom leitor bem sabe que é natural partirmos de leituras menos complexas e a cada leitura irmos aumentando nossa exigência. Muitos eruditos leitores tem o começo de suas jornadas em uma boa e velha divertida aventura. Nesse país avesso à literatura a verdadeira violência é resignar-se à preferência de um não-leitor que um leitor de Percy Jackson;

2 - O elitismo que cega: Um dos grandes incômodos que tenho para com a literatura é justamente seu elitismo, seu fechamento às novidades, seja fora ou dentro das universidades. Grande parte quer optar apenas ir pelo caminho seguro e sem riscos, esbanjando a leitura de clássicos como se isso pudesse por si só fazê-la uma pessoa melhor. O mundo está cheio desse nariz-empinadismo no universo da literatura. Mesmo na internet, cada vez mais um local a ser criticado não é incomum encontrar canais fechados às novidades a se vangloriar de lerem apenas "o que é bom", torcendo os olhos para toda e qualquer novidade. Além de elitista é uma atitude que segrega, mas acima de tudo muito burra. Há experiências interessantíssimas para além do cânone;

3 - A maleabilidade do cânone: Outra demonstração de insensatez do preconceito literário é o próprio cânone, tão maleável ao sabor dos tempos e das sociedades. Um profissional de letras competente bem saberia o quão complexo e difícil é estabelecer o que entrará e o que sairá do cânone, um sistema em permanente movimentação tal como o universo. Isso significa dizer que o clássico com que tu esnobas hoje muito provavelmente foi o esnobado de ontem, e nada garante que o esnobado de ontem seja o reverenciado amanhã;

4 - É preciso incentivar a leitura, não podá-la: É uma baita perda de tempo ficar julgando o que as pessoas leem [eu mesmo considero que temos leituras desnecessárias neste país, mas este é um julgamento que cabe ao próprio leitor], e especialmente naquele tipo de situação há mais potencial de interromper um leitor do que conscientizá-lo de que há melhores leituras. Quando voltei a estudar [letras] vi um bom número de colegas leitores/as frearem suas leituras por causa do constante dedo apontado de professores e colegas acerca dos livros que comentavam. Quando se tem uma casca mais dura, que não são muitos, mas com leitores que de dispõe a insistir nas leituras para além dos currículos, ainda pode se ter algum "enfrentamento", mas o rotineiro foi perceber gente já num segundo semestre ou terceiro não levando mais seus exemplares populares. A mim sempre soou um tanto absurda esta situação;

5 - Mas vale tudo então?: Marcos Bagno até faz esta pergunta em seu livro sobre preconceito linguístico, e acho que é adequada aqui. Claro que o post não propõe que toda leitura é válida ou importante. Tampouco diz que todo livro é bom. Pelo contrário, somos entupidos com porcarias, inclusive algumas travestidas de clássicos ou cultuadas pelo nariz-empinadismo. Pessoalmente distinguo livro entre os bons e os que não prestam, mas isso não significa que obras estigmatizadas não prestem. Não defendo aqui um vale-tudo. Acontece que a um profissional de letras em vez do julgamento é necessário que oriente seu aluno, seu amigo. Inclusive que se leia aquilo que não gosta e tenha ferramentas lógicas para criticar tais obras;

6 - Estigmatizar uma obra ou um gênero pode atrasar certas compreensões: Por muito tempo a ficção científica foi estigmatizada por pesquisadores e acadêmicos. Hoje pululam estudos e publicações sobre o gênero, isso porque tem se tornado cada vez mais difícil compreender o presente pós-moderno e já quase pós-humano sem o auxilio deste gênero literário. Nesse sentido, há caso que os leitores podem estar bem a frente dos "profissionais de letras" e críticos e fechar-se sempre da cômoda redoma "dos que são bons para ler" pode não ser uma atitude tão inteligente;

7 - Toda obra ensina algo: Já abordei isso noutras listas, mas toda obra e todo gênero tem as suas intenções e interesses, de modo que sempre pode nos ensinar algo. Muitos trabalhos criticados podem servir, por exemplo, para abordagens sobre polifonia, dialogia. O próprio Percy Jackson poderia ser utilizado em turmas do ensino fundamental enquanto exemplos de intertextos. Em meu estágio, por exemplo, a partir da capa do livro procurei discutir com um sétimo ano a Odisseia de Homero na perspectiva da oralidade. A capa do livro trouxe-lhes certa intimidade com o assunto e um dos detalhes curiosos que, por exemplo, para aqueles jovens a ideia de Cavalo de Troia era mais lembrada enquanto vírus de computador que sobre literatura. A postura do preconceito literário pode restringir uma série de possibilidades de trabalhos. Outro exemplo que será sempre rico em curiosidades é o da literatura policial, que não raro é estigmatizada - ainda que nesse caso já foi bem pior;

8 - Porta para outras leituras: Um/a profissional de letras bem deveria saber das inúmeras discussões acerca do letramento literário. Não nos cabe aqui debater os acertos e enganos do letramento, mas como dito antes, uma leitura geralmente é porta para outras leituras, e ao agirmos sem preconceito estamos mais perto de conquistar bons e proficientes leitores;

9 - Terminar com os círculos de iniciados: Um comportamento comum do leitor elitista é agir como se a literatura fosse uma seita para iniciados. Por isso é bastante comum também vermos narizes virados ao clássico que por ventura se popularize. Enquanto agirmos como se ler fosse uma espécie de iniciação que separa os bons dos ruins nosso sistema literário permanecerá essa coisinha burguesa ainda distante das massas - raras algumas exceções. A literatura pode ser uma grande revolução, desde que não se tenha medo de conquistar novos revolucionários;

10 - Apenas o letramento literário pode salvar este país: Tem muita gente que lê e não entende, mesmo entre os do nariz-empinadismo. Tem muita gente que nem lê. Tem muita gente que está sendo afastada da leitura por esse elitismo literário. O resultado disso é esse país que está a beira de um caos, com gente incapaz de avaliar os perigos de certos discursos. Precisamos urgentemente levar a leitura ao máximo possível, independente por qual porta adentre este leitor.

2 comentários:

  1. Criticar Percy Jackson é o apice da imbecilidade e ignorancia.
    Os livros sçao baseados em obras classicas da literatura universal e mitologia grega,
    Nao apenas passa um conhecimento enorme sobre mitologia, como ensina a influencia histórica dos mitos, cultura e filosofia grega e romana, como a influencia até os dias atuais.
    É praticamente um livro didatico desfarçado de aventura infantil.

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