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10 Considerações sobre Stalin, de Michael Kerrigan ou sobre tempos sombrios

O Blog Listas Literárias leu Stalin, de Michael Kerrigan publicado pela editora m.Books; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Com um vasto acervo de imagens e a análise da vida de Stalin, da infância ao seu passado político que a despeito dos sentimentos que possa causar, Michael Kerrigan entre os jornalismo histórico e o didatismo, apresenta-nos uma biografia que para além do já sabido acerca da figura história, procura aqui e ali estabelecer nuances e problematizações acerca desta figura das mais complexas da história humana;

2 - Mas antes de mais nada devemos tratar das particularidades enquanto projeto não apenas gráfico, mas do todo editorial da publicação, que o torna interessante documento de registro histórico. Isso porque há bastante zelo com a documentação em quase duzentas imagens que além de fotografias traz ainda peças da propaganda comunista, documentos, ilustrações, etc. Isso dá um aspecto visual ao trabalho mas mais do que isso, serve de suporte ao texto;

3 - Aliás, na maioria dos casos tais imagens são elementos complementares ao texto principal e suas injunções em boxes destacados confere certos ares de livro didático ao volume ao mesmo modo que estabelecem tais hipertextos. É uma tática interessante de ampliação da discussão, embora em certas ocasiões os sequestro de nossa leitura para algo específico acaba quebrando parágrafos no meio de uma leitura que pose ficar truncada pela atração dos textos em destaque;

4 - Este é o detalhe que nos leva ao aspecto didático do texto, já o que nos remete ao jornalismo não trata-se apenas do estilo do texto/tradução, mas o próprio formato e disposição do texto em colunas que remete-nos a um magazine ou a um jornal. Talvez se procure com isso construir certo distanciamento do texto em tentativa de buscar alguma neutralidade acerca das exposições realizadas;

5 - Todavia, nesse sentido parece pairar sobre a leitura a dúvida quanto às reais intenções do texto, entre relativizar as monstruosidades perpetradas pelo stalinismo ou de um olhar crítico às mortes de responsabilidade de Stalin ou mesmo o tom neutro numa tentativa de descrever a história tal como ela foi, sem julgamentos a priori, apenas apresentação dos fatos;

6 - Nessa suspeição sobre os caminhos da publicação talvez a expressão de maior caracterização do conjunto do livro seja a observação de Kerrigan ""Homem ou monstro?" A pergunta não tem sentido. O fato de que ele era obviamente ambos e de que isso nos faça pensar em que consiste a humanidade ou a monstruosidade é certamente a chave para o fascínio contínuo de Stalin". Vejamos que tal fecho não apaga nossas desconfianças e por si só é capaz de levantar uma boa dose de discussão, especialmente acerca de relativizações e naturalizações pois que acaba tirando certo peso das costas do ditador ao passo que parece dizer que à história pouco importa se tirano maligno ou benevolente democrata, o fascínio mantém ambos vivos, quando não, se privilegia aos primeiros sempre na busca por alguma justificação às atrocidades;

7 - Além disso, vale destacar que o uso intenso do ponto de interrogação e a expressão "para fazer justiça" ligam as antenas dos leitores. Desse, pelo menos, o mais marcante é o uso contínuo da interrogação. O poder de relativização ou do por em cheque deste sinal gráfico é bastante forte. Claro que, não obstante, sua presença não deve ser sinal de veredicto pronto, já que ele também nos auxilia numa leitura questionadora e problematizadora, de modo que, no caso desta leitura deveremos olhar atentamente à procura de qual ponta está tantas interrogações;

8 - Isso tudo, claro, numa perspectiva de análise ampla do texto de Kerrigan e duma discussão livre acerca do trabalho, pois os pontos de interrogação são um de tantos elementos que os leitores terão para o julgamento completo não apenas da leitura, mas também na soma de suas interpretações acerca da figura de Stalin. Desse modo se por um lado somos provocados acerca de outras visões sobre o ditador, por outro a soma consubstancial de imagens, documentos e mesmo da narração de Kerrigan deixam claro o legado trágico do Stalin para a Rússia e para o mundo;

9 - Dito isso tudo, no geral vale dizer que trata-se de uma publicação bastante informativa e que contribui para a soma de seus conhecimentos não apenas da figura de Stalin mas da trágica história do Século XX. Aliás, vale dizer que as imagens deste livro [como tantas outras a disposição em livros e outros meios] são interessantes ferramentas comparativas entre as tragédias do Século XXI e a do Século XX. Elas nos sopram alguma esperança que talvez ainda possamos evitar tais monstruosidades ainda que, especialmente nesta década, temos nos esforçado na tentativa de repetição de um horror global;

10 - Enfim, Stalin oferece uma abordagem de muita informação e de uma aparente neutralidade que ao leitor mais desconfiado pode chamar atenção. Todavia no contexto geral é um trabalho bem amplo sobre a figura de Stalin [ainda que a bibliografia indicada me pareça muito resumida] se pensarmos em caráter introdutório aos que procurar conhecer não apenas sobre a figura do ditador mas também do contexto histórico a que este sujeito não apenas estava inserido, mas "manipulou" ativamente. Aliás, ironias do destino, para um sujeito tão afeito a reescrever ou apagar a história, Josef Stalin tem sobrevivido nela com certo vigor.



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